8.7.10

DANTES E AGORA

Como vivo em 2035 e quero evitar confusões mentais com os meus leitores que vivem em 2010, esclareço que o termo "dantes" que doravante usarei neste post se refere aos anos 70/80 do séc. XX e que o termo "agora" se refere precisamente a 2010.

Um dos grandes marcos rituais da minha vida, foi a passagem para a adolescência que coincidiu exactamente com o 25 de Abril de 1974. Era uma época de grande abertura de costumes e ainda me lembro, por exemplo, que nenhuma revista de anedotas era engraçada mas tinham muitas mulheres nuas; hoje as revistas são uma anedota, todas têm mulheres nuas mas sem graça nenhuma... Dantes eram pin-ups com pentelheeeeeiras, agora são gajas com tatuaaaaagens; dantes havia fotos muito manhoooooosas, agora têm photo-shop! Se os adolescentes queriam ver algo com sexo podiam escolher entre as revistas Tânia e Gina; hoje, qualquer criança que vá ao Google tropeça em sexo. Dantes usava-se bigodinho na cara dos homens, agora usa-se bigodinho na pachacha das mulheres. O gel usava-se no cabelo, agora é nas unhas. Dantes o plástico ia substituindo o vidro, agora substitui as mamas. 

Dantes atirávamos comida para o lixo, agora há quem vá buscar comida ao lixo. Dantes só se bebia água da torneira, agora a água da torneira compra-se em garrafas. Dantes só nos despíamos perante um médico, agora até para entrar num avião nos despimos. Dantes fazíamos exames porque estávamos doentes, agora fazemos exames para provar que somos saudáveis. Dantes a televisão era um luxo, agora a televisão é um lixo. Dantes o futebol português era mau e não ganhava nada, agora é bom e não ganha nada. Dantes adoravam-se deuses, agora adora-se tudo. Dantes havia casamentos para encobrir a homossexualidade, agora há casamentos para expor a homossexualidade. 

Dantes o natal era a 25 de Dezembro, agora são dois meses! Dantes apanhava-se mais depressa um mentiroso que um coxo, agora os mentirosos governam-nos, deixam-nos coxos e ninguém os apanha. Dantes trabalhávamos para gozar a reforma, agora é a reforma que goza connosco. Dantes as férias eram um mês num ano de trabalho, agora, com sorte, o trabalho é um mês num ano de férias. Dantes ganhava-se muito dinheiro com negócios da China, agora os chineses ficam com o negócio todo. Dantes, com o Salazar, vivíamos orgulhosamente sós, agora com a União Europeia vivemos envergonhadamente acompanhados pela Grécia. Dantes toda a gente se preocupava com o importante, agora toda a gente se preocupa com o supérfluo. Dantes, "cultura" era mais lavrar a terra que a identidade própria de um povo; agora nem uma coisa nem outra...

25.5.10

MATÉRIA

Aqui em 2035 lembro-me como todos nós recebemos em 2010 o penúltimo papa e voltei a emocionar-me com a candura e fé dos portugueses; um povo como este nasceu para ser “papado” mas as coisas não deveriam ser assim! Quem tem consciência disso, em vez de se aproveitar e nos explorar, podia dar um sinal claro de evolução civilizacional respeitando-nos, tal como deveríamos todos fazer o mesmo com a natureza. Somos um povo infantil e na sua vertente mais positiva estamos ao nível das tribos “perdidas” de África, da Oceânia e da Amazónia, alegres e criativos; esta é uma identidade que é urgente preservar como forma de garantir a diversidade e em última análise, garantir a própria continuidade da espécie humana. Na sua vertente mais negativa somos melancólicos, invejosos e desconfiados; pois eu nunca vi tamanha alegria, entrega e devoção a alguém como a que dispensamos aos papas que nos visitam. João Paulo II arrastava multidões em quase todo o lado mas para além disso, em Portugal teve também uma ligação única e pessoal. Com a visita ao nosso país, Bento XVI praticamente limpou a imagem bolorenta e ganhou novo fôlego para o seu ego e o da Igreja! Fantástico! Se as coisas estiverem a correr mal no Vaticano, já sabem: uma visita a Portugal relança a carreira!

Ninguém quer pensar nisso, aliás, a fé deve andar sempre longe do pensamento racional mas quem o faz sabe bem que a religião organizada é um dos maiores embustes da humanidade. Não sei muito bem o que são anti-Cristos nem sei se os católicos considerarão Leão X, que reinou entre 1513 e 1521 como tal; numa carta dirigida a um cardeal, este papa escreveu que “desde tempos imemoriais que se sabe quão proveitosa nos tem sido esta fábula de Jesus Cristo”… Talvez a minha questão seja simplesmente esta: eu gostava de acreditar mas não consigo! Se quiserem saber em que acredito, digo-o frontalmente: no génio humano! No génio para criar deuses, mitos, tecnologia, construir civilizações, destruir outras, enfim, sobreviver egoisticamente a todo o custo no imediato mesmo que isso implique a não sobrevivência a longo prazo. O grande problema é este: vivemos num mundo de matéria e não há volta a dar a isto! Os deuses faraós morriam, Cristo também e eu já não me estou a sentir nada bem… Esta angústia existencial é o que as religiões tentam acalmar dizendo que nos falta Deus nas nossas vidas, logo é melhor acreditar que os faraós foram para outro lado, Cristo ressuscitou e eu posso continuar descansado a ser explorado porque quando morrer serei recompensado. Talvez até seja meritório acalmar o espírito num estágio mais infantil, precisamos de confiança para crescer mas à medida que o fazemos, o processo deveria consistir na desmistificação das fábulas e concentrarmo-nos na nossa evolução, sabendo que somos frágeis. A nossa insegurança pessoal não deveria dominar toda a existência; assumir num estágio adulto que somos temporários dar-nos-ia a oportunidade de progredirmos enquanto civilização.

Podemos não compreender quase nada do nosso mundo mas pelo menos, pelo estudo da história já sabemos que há sempre uma coisa que leva a outra, determinadas circunstâncias criam outras, ou seja, não sabemos donde veio e o que provoca mas sabemos como funciona; este é um dos poucos factos que podemos ter como certos, certo? Continuando este raciocínio: se nunca se conseguiu uma prova cabal da existência de outras civilizações fora da Terra, como querem logo que eu queime etapas e tenha a certeza que algum ser divino nos criou? Mais facilmente acreditaria em extra-terrestres que em Deus! De todos os nossos irmãos seres vivos da Terra somos os únicos que possuem uma civilização tecnológica, nunca vi formigas a construir foguetões para ir ao espaço, portanto, primeiro seria necessário saber se há outro tipo de irmãos no universo, só depois poderíamos cruzar informação para tentar conhecer a mãe. Não havendo troca sexual para gerar, o termo “mãe” parece-me mais correcto; além disso “pai” é um termo com uma origem demasiado suspeita porque na nossa espécie primata são os machos que dominam. Se as hienas filosofarem, provavelmente acreditam em Deusa que teve uma filha, Crista, que veio ao mundo para salvar a hienidade…

Várias vezes assisti pela televisão às celebrações do 13 de Maio em Fátima e fui informado de vários milagres associados à fé, como entrevados que se levantam e cancros que se curam; sim, é incrível mas dentro do fantástico leque de possíveis milagres há um bastante simples para o anunciado poder de Deus e que desde sempre me intrigou ele não ter capacidade para o realizar: fazer crescer membros em amputados! Segundo os crentes, Ele foi capaz de criar o universo, pôr planetas a mexer, sóis a brilhar mas isso parece-me uma simples constatação preguiçosa: vemos algo e atribuímos-lhe um significado que depois é perpetuado conforme o potencial de quem o inventa. Os fantásticos milagres relatados na Bíblia não mais se repetiram, não há vivos que o confirmem nem registos em vídeo no YouTube, e os mais pequenos a que hoje temos direito são quase todos explicados pela incómoda e por vezes odiada ciência. E mais: não é preciso ter fé para eles acontecerem, para obter algumas curas milagrosas e até para mortos acordarem nas morgues; agora, uma coisa tão fácil para Deus como fazer crescer um membro num amputado, torna-se impossível neste cruel mundo material. Há portanto uma clara selecção no tipo de milagres que Deus executa: aqueles que a ciência pode explicar. Assim, quase que posso garantir o seguinte: se alguma vez a minha vida for transformada por um milagre não será por causa da minha fé em Deus. Então para que precisamos dele? Sejamos honestos: só para nos agarrarmos a algo em momentos de aflição que podem ser superados pelo génio humano e para evitar os desvarios desse mesmo génio; já que nem a pena de morte pode travar pelo medo alguns dos nossos irmãos, tem-se mantido esta forma de controle dum Big Father que tantos dividendos tem trazido aos seus agentes. Os pontos donde retiram o seu poder são as zonas da "alma" ou "espírito", algo ainda não definido, mas em concreto se pode dizer que é um filão que lhes permitirá talvez continuar a explorar eternamente. 

Em resumo: apesar de tudo, a matéria é a única coisa que conhecemos vagamente, tudo o resto são esperanças, incertezas e fé. Fora da matéria, acredito que quando morrer, ou seja, quando esta organização atómica do qual sou composto e me dá consciência se desfizer a minha noção de mim vai exactamente para o mesmo local onde eu estava antes de nascer: no nada! Algumas moléculas do meu desorganizado corpo irão desaparecer e outras continuarão a existir associadas a organismos vivos ou não vivos. Com sorte, algumas das moléculas que passaram por mim viverão no futuro numa rocha à beira-mar, numa flor de laranjeira ou nos olhos de uma criança.

20.1.10

PREVISÕES PARA 2010

Uma amiga jornalista que trabalhava na redacção de uma conhecida revista contou-me que ligaram para a astróloga de serviço, pedindo para lhes mandar rapidamente as previsões para essa semana, o que ainda não tinha feito; o fecho de redacção estava próximo e tinham apenas umas horas para a enviar para impressão. Alegando que já não tinha tempo para o fazer, a astróloga sugeriu que fossem aos arquivos buscar as previsões para a mesma semana referentes ao ano passado; justificou com um "sabem como é: não tem grande importância, os ciclos anuais andam todos, mais ou menos à volta do mesmo". Houve alguma risota indignada na redacção mas enfim, lá se publicou...

Sem pretender minimamente esconder a proveniência do seguinte texto, digo-vos frontalmente que ele foi retirado de um post que publiquei neste blog em 29 de Dezembro de 2006, referindo-se às minhas previsões para 2007; podem considerá-lo válido para 2010, ok? 

"Segundo a astrologia da Oceânia, 2007 estará sob a influência do signo do Ornitorrinco. Tal como o animal que lhe dá nome, este será um ano de contradições e absurdos. As condições climatéricas extremas dominarão na natureza e várias figuras públicas mundiais morrerão durante o próximo ano. Em Portugal o governo de José Sócrates continuará a impôr-nos dificuldades não sendo de excluir uma vistoria fiscal a todas as empresas portuguesas na ânsia de encontrar alguma moeda perdida no chão. As novelas continuarão a dominar o panorama audio-visual e os Xutos e Pontapés continuarão a tocar. Só para concluír direi, para quem desconhece a astrologia Oceânica, que todos os anos são regidos pelo signo do Ornitorrinco."

Quem é que continua a pensar que a atitude da astróloga foi assim tão descabida?... 

19.1.10

ONDE PÁRA A INFÂNCIA?

Uma tendência que se tinha vindo a acentuar nos últimos anos, acabou por se confirmar em 2009: a infância morreu! Muito do entretenimento de BD e filmes que se dirigia a um target dos 5 aos 9 anos sofreu um re-styling, cresceu e tornou-se adolescente. Hoje a carga sexual desceu as escadas da adolescência e chegou ao patamar da infância, ou melhor: todos os que passam a fase de bebé, por volta dos 4 anos, são imediatamente seduzidos a arrepiar caminho, a subir sofregamente os degraus que conduzem ao patamar da pré-adolescência. Como ninguém quer ser o último nem gosta de ficar pelo caminho, assim que percebem que os seus amigos estão a subir a escadaria de interesses, precipitam-se em direcção a eles mesmo não percebendo bem atrás do que correm… Assim, é ver uma multidão de crianças numa ânsia desenfreada para chegar o mais rapidamente possível ao patamar seguinte. Como os verdadeiros pré-adolescentes não querem ser vistos ao pé de bebés, fogem em direcção ao patamar superior e assim sucessivamente até aos adultos que independentemente da idade recusam-se a sair do patamar dos 21 anos: o culto da juventude arrasa tudo, mesmo os velhos têm vergonha de não estar na moda…

O resultado é que a zona dos 5 aos 9 anos ficou vazia, apenas com algumas crianças perdidas. E porque é que esta zona ficou deserta? Porque as multinacionais assim como “montam e desmontam a tenda” nos locais economicamente mais vantajosos perceberam que é mais rentável “puxar” os seus habitantes naturais para outro local. O objectivo é apenas um: abreviar rapidamente esse espaço temporal inútil de 4 a 5 anos, rentabilizar as crianças, torná-las consumidoras, cônscias do sentido da utilidade, encaminhá-las tão breve quanto possível para a roda do trabalho/consumo. As crianças precisam de muito tempo para brincar, interagir com os pais, não fazer nada mas isso está a ser totalmente negado pela sociedade em geral...

Um dia ainda virá mais cedo mas por enquanto, a despedida da fase pré-primária marca afinal a despedida de toda a infância. É a época em que a conspiração empresas/estado e os próprios pais, já doutrinados com esta filosofia de utilidade, começam a encher a cabeça dos filhos com preocupações, tarefas e trabalhos. Haverá algum pai, nas sociedades capitalistas urbanas que queira ver os seus filhos fora de actividades formativas como a informática, o inglês, a música, a natação, andar a cavalo, etc.? Os exemplos de quem não tem essas possibilidades estão aí à vista por todo o lado, sob a forma de miúdos pobres ou desamparados que não têm actividades extra-curriculares e brincam na rua, à mercê dos mais terríveis prognósticos: marginalidade e deficiente preparação para integrar um mercado que subtilmente entrou no nosso léxico quotidiano, o mercado de trabalho; o tal que permite ter condições para consumir (viver).

A imprevisibilidade do génio humano dá azo a excepções mas basicamente já está tudo mais ou menos previamente organizado: as crianças que não tiveram investimento na sua formação são canalizadas para a marginalidade ou empregos como caixas de supermercado, operários, seguranças, etc. No entanto, o mais curioso é que as que tiveram um bárbaro investimento parental, aquelas cujos pais dinamizaram a economia consumindo livros, actividades físicas, computadores, formação específica, psicólogos e sei lá mais o quê, nem assim se livram de serem apenas “normais”, já que o tal mercado de trabalho está saturado de licenciados! Depois dos sacrifícios, da escravatura duma vida e de terem esturrado uma fortuna a educar os filhos, quando chegam a esse beco sem saída é que os pais compreendem na carne aquilo que distingue à partida os casos de sucesso: é, não só a formação, mas sobretudo a família de origem. Por isso, há tantos interessados em começar a criar essas raízes que dão estatuto (perante o resto da sociedade é mais importante que o dinheiro), sendo que a forma mais prosaica de as conseguir é através do mundo do espectáculo; até os ricos lá andam e qualquer macaco com um talento especial pode salientar-se e criar uma dinastia. Agora os pais procuram nos filhos a mais leve inclinação, o mais ténue talento que permita vingar nesta área, de modo a canalizar todo o seu esforço para a formação de especialistas em entretenimento. Infelizmente, a grande maioria acaba por denegrir as nobres artes circenses, tornando-se imitações pobres de palhaços ricos.

Até aos 4 anos, o entretenimento é baseado no estímulo visual de cores garridas, sobretudo primárias: o Noddy usa t-shirt azul, calções vermelhos, barrete azul, lenço amarelo às bolas vermelhas e sapatos vermelhos; o Ruca só muda a cor da t-shirt para amarelo, os sapatos têm atacadores verdes e é careca; o Bob Construtor tem um macacão azul, camisa aos quadrados amarela e laranja, sapatos com as mesmas cores e capacete amarelo. A partir desta idade passamos imediatamente para o estímulo 3D ou dos brilhantes made in China, usados até escalões etários impensáveis há uns anos. Já restam poucos heróis animais ou em desenhos animados, salta-se por cima de toda a infância e o que é oferecido às crianças a partir dos 5 anos são novelas com actores humanos sobre o dia-a-dia das escolas, séries de feiticeiros e magias, séries sobre o mundo do espectáculo, séries acerca de séries, assexuadas, sim, mas onde se discutem namoros, os primeiros beijos, gravidezes e abortos, casamentos e divórcios… É interessante notar que a Disney que sustentou o seu crescimento na divulgação de histórias com animais, seja agora uma das locomotivas desta nova ideologia antropomorfizada: hoje os heróis continuam a ter um passado familiar mais ou menos conturbado ou nebuloso, frequentam a escola e são vedetas do show-biz. Tudo me leva a crer que se o Ruca transpusesse a barreira etária dos 4 anos, imediatamente os seus pais se divorciavam e mesmo assim já levava um ano de bónus sobre a média dos casamentos…

Longe vão os tempos do Pluto, que significa Plutão em inglês e apareceu com esse nome para capitalizar a popularidade da descoberta em 1930 do novo planeta que ao fim duns anos se provou ser um aldrabão, tendo-nos enganado durante décadas em relação à sua importância: afinal não passa de um reles calhau! De qualquer forma a mascote do rato Mickey era um cão normal. Andava pelado sobre 4 patas, ao contrário do Pateta, o melhor amigo de Mickey, um cão que andava todo vestido, erecto e falava. Mickey, namorada e sobrinhos eram todos pretos e só tinham direito a usar uma t-shirt, com as partes pudibundas ao léu; a Minnie andava nua da cintura para baixo mas com luvas e sapatos de salto alto… A sua melhor amiga era uma vaca, Clarabela, que tinha um “amigo especial“, como agora se diz, o Horácio, um cavalo! Sobre o ramo dos patos o panorama físico e psicológico não era mais policromático: todos brancos, também andavam nus da cintura para baixo, nunca se soube quem eram os pais, apenas existiam tios e sobrinhos e a Margarida era uma pata que namorava com o Donald mas mantinha-se sempre aberta à sedução do Gastão; com um era pata, com o outro uma p… Só a inocência relativa à época em que estas personagens apareceram, permitiu que nunca tivéssemos reparado nestas poucas-vergonhas…

Agora a Moranguinho, um bebé que já foi rechonchudo, tornou-se uma menina de formas esguias, a Turma da Mônica cresceu, as personagens ganharam maminhas, acne, penteados jovens, skates e telemóveis, a Barbie ganhou carta de condução, bebés, enfim todos subiram de escalão etário. Aqueles que mantiveram os desenhos originais, no mínimo mudaram a ideologia para um nível acima e se antigamente eram os maiores da rua deles, hoje lutam pelo planeta contra os mais terríveis vilões. Enquanto os super-poderes dos defensores da humanidade foram crescendo, os dos arqui-inimigos também se incrementaram e as lutas cada vez mais titânicas passaram a incluir todo o universo. Como anda tudo à bulha no mesmo palco, a Terra e como já são heróis e malfeitores a mais no mesmo espaço, muitas batalhas são travadas em dimensões paralelas às nossas ou em locais imaginários, criados numa primeira fase pelos vídeo-jogos. Os miúdos sabem todos os pormenores destes conflitos mas não fazem a mínima ideia quem foi Hitler ou a extensão dos estragos causados pelo seu ódio. A mim, por exemplo, continua a fazer-me imensa confusão a inconveniente ausência do Homem-Aranha, o Super-Homem ou o Capitão América durante o ataque às torres gémeas no dia 11 de Setembro de 2001…

15.1.10

GORDOS

Em Janeiro de 2010 tinha 48 anos, agora em 2035, tenho 73. É verdade que não tenho obesos na família, o que reduz bastante essa tendência mas passei os últimos 30 e tal anos sentado em frente a um computador sem nunca fazer exercício, o único que faço é de casa para o café; continuo a não engordar! É estranho… Será porque aos primeiros sinais de obesidade parava de ingerir porcarias, tipo snacks, hamburgers, bebidas com gás, deixei de comer mais do que precisava e acabei com os jantares alarves? Bastou isto? Nunca fiz dieta e só durante uma fase da minha vida andei num ginásio, no entanto mantenho-me sempre no mesmo peso. Parece milagre, não? Como não acredito em prodígios nem acredito que pertença a uma espécie rara de humanos, só consigo concluir a partir da minha própria experiência o seguinte: a justificação do sedentarismo como motivo para a obesidade parece-me demasiado empolada. 


No natal de 2009 resolvi passar para DVD bobines de filmes super 8 deixadas pelo meu pai, filmadas entre os anos 60 e 70 e que não via há uns 20 anos; a minha namorada, mais preocupada com essas questões reparou num pormenor: nem vou falar das crianças, mas em centenas de adultos que lá aparecem em mais de 4 horas de filmagens, só um era gordo! Quando andava na escola primária, na minha turma só havia um gordo, cuja alcunha era… o gordo! No liceu, mais do mesmo: havia um gordo na turma cuja alcunha era… o gordo! As histórias do menino Nicolau de Sempé e Goscinny que eu devorava e ainda leio, relatam as aventuras de uma turma de crianças onde uma delas é… gorda! Isto significa que no universo em que cresci a percentagem de gordos era tão baixa que um gordo era um freak, uma espécie única que se tornava notada por isso mesmo. Só para rematar devo-vos dizer que há alguns anos fizemos uma reunião de antigos alunos do liceu que nunca mais tinha visto e todos estavam disformes como se tivesse explodido uma bomba dentro deles; o único que estava magro era… o gordo! 


Que eu saiba, ninguém que aparece nos tais filmes passava fome e nós em particular comíamos que nem bestas e no entanto eram todos magros, em contraste com a percentagem de gordos que existe hoje. Que me lembre, as profissões eram maioritariamente sedentárias e ninguém fazia o mínimo exercício além de andar. O ideal de beleza feminina era muito mais “cheínho” nos anos 60 mas não tenho memória de tanta gorda como hoje; o que me lembro é dum ar “saudável”; hoje as mais cheias têm um ar doente. O que mudou? O parâmetro de avaliação? Talvez seja um pouco isso: hoje uma mulher, mesmo magra, já se acha uma gorda em potência mas esse facto também não explica tudo. O que se passa é que comemos imensos produtos processados que não existiam nessa época, ou eram consumidos de vez em quando, não regularmente. Depois, tudo o que é animal ou vegetal já cresceu à pressa, foi engordado à pressão para se tornar rentável o mais cedo possível. Quando ingerimos esses alimentos, parece que têm o mesmo efeito em nós: engordamos rapidamente! A seguir, toca a ir para o ginásio queimar violentamente mas acaba por ser um processo infinito porque ao continuar a ingerir este lixo, precisamos de exercício quase desumano para o eliminar. No momento em que se pára é o descalabro. Correr quilómetros por dia porquê? Somos todos geneticamente maratonistas, tipo Carlos Lopes? Veja-se o aspecto dele assim que parou de correr…


Tal como os animais e plantas que engordamos a um ritmo alucinante, somos máquinas de processar rapidamente. O motor do corpo tem as rotações puxadas ao máximo, muitas vezes ultrapassando os limites do risco vermelho que dá panne. Talvez para arrefecer a máquina, médicos e geneticistas passaram subitamente a recomendar a ingestão de quantidades absurdas de água. Sempre bebi um copito ou outro do precioso líquido mas de um dia para o outro “acordei” com recomendações de ingestão mínima de um litro por dia, e até já ouvi falar em dois litros diários!… Mas desde quando é que um ser humano precisa de andar acorrentado a um urinol? Está tudo louco? Acho que nem todos ensandeceram sobretudo se nos lembrarmos que uma garrafita de água mineral comprada numa bomba de gasolina custa quatro vezes mais que o combustível que pomos no depósito do carro! Hein? É verdade… Sempre a refilar com o preço dos combustíveis e mecanicamente damos uma moeda de 1€ por 0,25l de água… 


E eis-nos de volta ao mesmo assunto de sempre dos posts deste ano: tem tudo uma razão económica! Não quero adiantar muito mais sobre o futuro mas recordem-se da crise económica mundial de 2008: fomos estimulados a comprar ao máximo e de repente tiram-nos todas as formas de continuar a consumir. Quem tiver um emprego é um abençoado pelos deuses, mesmo que esteja a ganhar muito menos que há 20 anos, quando o objectivo era encher-nos de produtos. Agora preparem-se para uma crise mundial de alimentação e água! Depois de nos terem criado o vício de comer e beber lixo, nos terem engordado durante décadas já há planos para nos tirar tudo e pôr-nos ainda mais dependentes do que houver. Comecem a fazer o desmame daquilo em que estão viciados e a preparar uns jejuns, se não querem ser apanhados de surpresa; é que se não o fizerem, a fome que passarem, misturada com o pouco lixo que conseguirem comer daqui a uns anos, ainda vos tornará mais gordos…  

AVÉ NOVA DEUSA QUE NOS GUIA E PROTEGE!

De vez em quando são lançados uns iscos para ocupar aquilo que julgamos ser o nosso pensamento, a nossa opinião particular, quando, na verdade, estamos apenas a responder emocionalmente a estímulos exteriores. O último exemplo mais mediático, foi o laborioso trabalho prometido e executado para aprovar uma lei que permite o casamento gay. Geraram-se discussões acaloradas, a esquerda aplaudiu mas reclamou mais, um indivíduo socialmente influente disse que embora seja de direita, considerou essa aprovação um sinal de evolução civilizacional e o papa, talvez o mais anedótico de todos, justificou a sua oposição argumentando que esses casamentos põem em causa a reprodução da espécie; deve julgar que há poucos humanos no mundo e estes só se fazem com uma anilha no dedo. Ou será que a comunicação social só passou estas declarações infelizes retiradas dum contexto mais lato para achincalhar um dos mais conhecidos defensores do matrimónio à maneira "clássica"?…


Esta discussão é como um arbusto em que toda a gente debate a ramagem mas todos se esquecem de falar sobre a raiz. Escrevo sobre o assunto porque não ouvi ninguém referir as verdadeiras razões desta aprovação que são de natureza puramente económica, senão não o teriam feito, óbvio! É claro que medidas destas não vivem desacompanhadas de uma intenção de desgastar instituições que nos habituámos a respeitar. É como se os novos bispos, discípulos da matéria dissessem: "-meus amigos, as regras agora são outras e somos nós que as ditamos em nome do rigor orçamental". É também uma forma de dizer que nada escapa à nova deusa, a prepotente Economia; tudo está debaixo da sua alçada, a mais poderosa de todas! Se há instituições que se baseavam noutros princípios e iam sobrevivendo escondidas num sobretudo assobiando para o lado, não existirá o menor pejo em humilhá-las se oferecerem resistência. Não esqueçamos que a pouco e pouco, tudo se tem convertido a esta religião; a bem ou a mal como em todas.


Sou heterossexual (acho eu) e prezo de tal forma essa instituição que em mais de 48 anos de vida nunca me considerei apto para a abraçar. Receio de não ter a certeza se, por exemplo, a fidelidade conjugal seria até ao fim da vida? Talvez… O matrimónio era para sempre, um passo muito sério que se dava cuidadosamente e até os meus pais só o contraíram ao fim de 40 anos de convívio! Em países como o nosso, mais conservadores habituámos-nos a olhar com desdém para a prática dos casamentos por dá cá aquela palha, nos países mais liberais mas ainda chegará o dia em que a piada que foi a vida conjugal de Elisabeth Taylor será respeitada! Em 1928, sobre Portugal, Fernando Pessoa escrevia que "ninguém sabe que coisa quer, ninguém conhece que alma tem, nem o que é mal nem o que é bem"; pois bem: a partir de agora já temos liberdade legal para brincar aos casados e como o mais certo é não se ter a certeza se o acordo matrimonial é eterno, existe sempre a possibilidade de outro acordo: o divórcio! Concretamente o que foi feito foi incorporar mais uma instituição que assentava sobre valores éticos numa lógica capitalista: o casamento é um contrato material e ponto final. Os votos já não são trocados perante um padre representante de Deus na Terra que só permite a união entre sexos diferentes mas perante um bispo representante da nova deusa.


À luz da ciência e bem vistas as coisas, morfologicamente os sexos até podem ser definidos mas interiormente somos uma mistura química de percentagens de sexos diferentes. Os mais desequilibrados para um dos lados podem ter quase a certeza que pertencem a um género específico mas os mais equilibrados quimicamente são de que género? O matrimónio é uma tarefa complicada e não seria por muita gente ter desrespeitado os votos conjugais que a instituição perderia valor: vários reis tiveram amantes e outros eram obrigados a reproduzir-se com o horrível sexo oposto mas não era a instituição em si que estava mal, quem estava mal era quem borrava a pintura. A instituição é um código de conduta ideal e o esforço deveria ser feito para a cumprir. Por querer brincar aos casados, Henrique VIII criou uma nova religião na qual tinha o direito de fazer o que lhe apetecia e é essa herança cultural, política e económica que agora nos impõem. Este é que é o maior espinho encravado na garganta do papa católico mas não deixa de ser curioso que vários bispos anglicanos tenham recentemente pedido para voltar a abraçar o rebanho de Roma, fartos das "liberdades" da sua religião.


As regras do casamento são muito antiquadas? Então porque é que quem vive uma relação livre dessas regras deseja submeter-se a elas? Porque já sabe que são a fingir, são uma brincadeira, vêm transmitir mais pimenta à relação! Qual será o gozo de pessoas que eventualmente já vivem como uma família terem um papel a dizer que o são? Serão mais aceites socialmente do que já eram ou pretendem inconscientemente desmascarar a falsidade do carácter do casamento? É claro que os visados directos pela aprovação da lei aproveitaram para se fazer ouvir e reivindicar até ao limite possível o máximo de igualdade. Com este caminho aberto, meias-soluções não satisfizeram, havia que ir até ao fim. Na pós-aprovação da lei, e se quiserem justificar as suas pretensões, sugeria-lhes responder com um slogan publicitário em voga: "se eu podia viver sem o casamento? Podia mas não era a mesma coisa"; não dá "pica", digo eu... E também sugiro outra coisa: vamos mais longe! Acabemos de vez com este cinismo que entrava a plena integração social de todos os humanos e já agora com a parvoíce de, por exemplo, obrigatoriedade de cuidados na saúde e na doença, jurar fidelidade, etc. etc.; não há entretenimento, seguros de saúde e gajaria por aí aos pontapés? Não é para aí que caminhamos? Arrepiemos caminho e acabemos é com o casamento! No fundo, fraco como sou, sempre vivi sem ele mas admirando quem se empenhava, pensando que era uma meta apenas ao alcance de eleitos que deveriam atingir um certo grau de perfeição ao se dedicarem a cumprir as suas regras. E é nesta destruição de utopias, valores pelos quais valeria a pena lutar para se auto-melhorar que consiste a religião da nova deusa, Economia.

14.1.10

OS CUS DOS CAVALOS ROMANOS

Esta é a primeira vez que vos contarei um segredo verdadeiramente importante acerca do futuro: ele pode ser modificado aí no presente! Ou seja: se alguém resolver alterar o que está destinado a acontecer, o meu presente, o vosso futuro passa a ser um entre ziliões de futuros possíveis; a questão é que ninguém ainda o fez… Lembram-se da trilogia de filmes Regresso ao Futuro? É um pouco parecido com isso; a única diferença é que nessa série, as alterações no passado produziam apenas um único futuro; na verdade, o que sucede é que de cada vez que voltamos ao passado e o alteramos, estamos a somar mais um futuro alternativo que coexistirá numa dimensão paralela àquela em que vivemos. Parece complicado mas não é; o que é complicado é ter coragem de modificar o presente. 


Admito que não seja uma tarefa fácil e também cada vez mais é complicado apenas um humano ter poder para isso. Hoje em dia, só um grupo muito forte de pessoas e acções poderia ter capacidade para o fazer; porquê? Porque desde há várias décadas que o nosso destino é traçado por um conjunto organizado de pessoas interessadas em controlá-lo e munida dos meios para o executar. Assim, se alguém desse um tiro na cabeça do Barak Obama, o presidente do banco europeu Jean Claude Trichet morresse num acidente, as sedes das maiores empresas do mundo ruíssem com um terramoto, os dirigentes eram substituídos, os bens reconstruídos e o sistema manter-se-ia. Se, na juventude, D. Afonso Henriques tivesse partido o pescoço num acidente de cavalo, muito provavelmente não existiria esta incómoda língua, nem um país tão controlável como descontrolado, chamado Brasil, ou seja: tinha feito muita diferença! Hoje, o ditado popular "uma andorinha não faz a primavera", faz todo o sentido, sendo que, para o nosso quotidiano material, a primavera vem quando esse grupo que decide por nós, assim o deseja.


Como conseguem fazê-lo? De base, têm os conhecimentos fundamentais das artes guerreiras e de organização, em especial do Império Romano. É notória, até em obras materiais, a adoração que a maior potência da actualidade, os Estados Unidos, nutre pelo Império Romano. Numa primeira fase de conquista este império estabeleceu-se através do estímulo de rivalidades locais (dividir para reinar); numa segunda fase, consolidou-se com a uniformização das leis, economia, religião, etc. (unir para reinar). Querem maior semelhança com a actualidade? Houve altos e baixos, os dirigentes sucederam-se às dezenas mas o império em si durou mais de 500 anos! São os mesmos princípios usados hoje, só que na altura não tinham todos os meios que existem agora. A idade média na civilização ocidental é tão odiada pelos grupos que nos controlam porque destruiu este modelo organizacional tão adorado. Estou convicto que se o império não tivesse caído de podre, empurrado pelos bárbaros, o homem tinha chegado à Lua no século XVI, se quisesse. É óbvio que não se consegue chegar ao ponto de controlar totalmente uma ovelha mas o grosso do rebanho é dirigido para onde se quer: há poucos seres mais dependentes de outros da sua espécie como os humanos. O controle do império era feito através de várias formas, entre outras: presença militar, vias de comunicação fluidas, apascentação dos povos com regalias, conflito permanente, distracções lúdicas ou religiosas, tudo isto sustentado numa corrupção generalizada. Voltamos ao mesmo: querem maior semelhança com a actualidade?


A tecnologia permite utilizar outras ferramentas mas o método é o mesmo. A força militar ainda é mais ou menos visível conforme as regiões. As comunicações dão a ilusão de liberdade individual mas a doutrinação de que somos alvo desde a nascença nunca nos permitirá conhecer outra forma de ver o mundo; só vemos as coisas da forma que nos foram ensinadas. Os grandes escritores, poetas, músicos, pensadores, filósofos etc. não são esquizofrénicos, alucinados, agarrados ao álcool, ópio, sexo e sei lá mais o quê que nos querem fazer crer; não! São pessoas que nos transmitiam a imagem da nossa própria dimensão humana e que em última análise podem hoje ser considerados subversivos. Por isso, as suas obras tendem a desaparecer do ensino e do consumo geral. Os livros transmissores de pensamento artisticamente contemplativo ou crítico, por exemplo, são uma espécie em vias de extinção. Além de as editoras já não publicarem este tipo de obras, as livrarias vão sendo substituídas por hipermercados que vendem aventuras mágicas, estudos ou tendências de fenómenos de moda, guias de viagens, gastronomia, biografias de pessoas banais, a maior parte, escritos de pobres de espírito que venceram materialmente ou ascenderam na escala social. São estes os nossos modelos. No fundo, é tudo o que nos impeça de pensar por nós; só nos são oferecidos escapes e formas de atingir o sucesso. Que ilusão… Para um atingir o sucesso, normalmente efémero, vários milhares foram condenados ao insucesso e como cada vez somos mais na Terra, é fazer as contas… Tenhamos sempre presente que os grandes mestres nunca não nos ensinaram a segui-los mas sim ajudaram-nos a pensar por nós próprios! 


A internet ainda é livre, sim; mas o que é que isso interessa? Quantos têm tempo e capacidade para usar as suas potencialidades, de procurar e descobrir um grão de ouro no meio do desértico areal? O que há mais é fancaria e este falso brilho gera o efeito oposto à suposta liberdade anunciada: vivemos intoxicados de informação, musiquinhas incidentais, preocupações que não nos pertencem, tarefas que nos ocupam, aspirações que não desejávamos à partida… Em suma, temos a cabeça cheia de merda que impede o livre fluxo de ideias e que assim, permite sermos mais facilmente controlados. Infelizmente, agora também já ninguém precisa de nos mandar fazer seja o que for: este atavismo passou a fazer parte da nossa essência e se não nos distrairmos com qualquer coisa é a loucura, já não nos conseguimos ouvir no meio do "ruído" que produzimos e somos nós próprios que o procuramos de livre e espontânea vontade, de modo a nos sentirmos vivos.


Durante anos lutámos individualmente por conforto e agora que o temos mais ou menos generalizado procuramos o quê? Se fizermos um inquérito de rua a cidadãos comuns, ninguém sabe definir em concreto a razão de tanta ânsia. Tudo acaba inevitavelmente por confluir nas preocupações materiais, sobretudo na manutenção do nível de conforto a que nos habituámos; e é aqui que entra a apascentação das massas, misturada com o conflito permanente. O engordamento pacientemente cultivado ao longo de décadas, retirou-nos capacidade de reacção ao mesmo tempo que o medo da perda de regalias atormenta-nos o espírito e ela é uma ameaça constante, martelada e massificada pelos média. É o medo da perda que nos abre as portas da corrupção! Se nos países ocidentais as guerras têm os seus palcos em locais tão distantes, como manter a população em permanente pânico? Através da violência urbana, gangs, ameaças terroristas… A humanidade só produziu génios quando a luta pela sobrevivência estava assegurada; como não somos perfeitos, só dedicando totalmente a energia a um assunto, descurando outros, se chega lá e raríssimos foram os que escaparam a esta limitação. Ninguém que se preocupa em aparecer vivo todos os dias ou ter dinheiro para comer se põe a meditar sobre o sexo dos anjos. Esta constante exposição ao perigo é a forma de nos aniquilar os pensamentos! O resto do trabalho de alienação é complementado pela nossa dependência do entretenimento: nunca houve uma época tão fabulosa na história humana de oferta de entretenimento!


Há uns anos contaram-me uma história, não sei se verdadeira mas o que interessa é atentar nas ligações que as coisas têm, podemos não as conseguir explicar mas elas estão lá e às vezes até as intuímos; se as quisermos entender na totalidade só precisamos de procurá-las bem fundo e ter atenção à história: ela repete-se incessantemente. Uma das preocupações de manutenção do Império Romano eram as vias de comunicação e à medida que se ia expandindo eram construídas várias estradas; as que deixou nas ilhas Britânicas foram sempre usadas até à revolução industrial a partir da qual serviram de molde para a dimensão das linhas de caminho de ferro que se iniciaram. Nas colónias, o princípio era o mesmo, os modelos de construção tinham as medidas que eles usavam na metrópole: pés, galões, jardas e toda a espécie de medidas morfológicas de determinado rei que ainda usam hoje… Nos Estados Unidos as linhas de comboio que se construíram tiveram como base as medidas das linhas inglesas. Quando os Space Shuttles foram construídos, a sua dimensão e local de construção implicaram que fossem transportados para o sítio da montagem em peças de tamanho suficiente para caber nos comboios de mercadorias, ou seja: a fabricação dos Space Shuttles tinha condicionantes logísticas motivadas pelo tamanho das linhas de caminho de ferro que tinham as medidas inglesas, que tinham vindo de Inglaterra, que tinham sido construídas com base nas medidas das estradas romanas que eram construídas com essas medidas de forma a caberem nelas uma carroça com dois cavalos emparelhados. Em conclusão: o tamanho total de dois cus de cavalos lado a lado interferiu directamente, a 20 séculos de distância na fabricação do veículo tecnologicamente mais avançado feito pela humanidade, destinado a sair da órbita terrestre…

11.11.09

PRINCÍPIO, MEIO E FIM

Aproveitando a estreia em Portugal de 2009 do filme “2012” cujo tema é o fim do mundo, devo relembrar-vos que vivo em 2034 e até agora, fim, só vi o do “2001 Odisseia no Espaço” e tenho a impressão que ainda não percebi… Não me vou debruçar sobre a fita em si (uma ideia feliz para alguém fazer muito dinheiro) mas sobre o clima que permite que ela tenha espectadores, e que existe pelo menos desde a passagem de 1999 para 2000 ou, se quiserem, do século XX para o XXI. Se olharmos para a história com uma visão mais lata do tempo verificamos que não é surpresa que assim seja; nós, humanos, derrotámos tigres dentes de Sabre, até vamos matando alguns dragões mas o último desafio, vencer a morte, nunca conseguimos. Entretanto, quais macacos de Kubrik, vamos fazendo um escarcel tremendo antes de ela nos tomar. Deveríamos estar felizes por cá estar, respeitarmo-nos e o que nos circunda: somos parte do todo e um elo de ligação na cadeia que liga passado ao futuro. A contagem do tempo é meramente circunstancial e só ganha relevância a partir do ponto de vista do observador; como somos pequenos, o tempo que nos interessa também o é. Aqui é preciso fazer uma justa homenagem à civilização Maia pelo seu elevado grau de compreensão dos mecanismos do universo. 

Noutras eras as preocupações da humanidade situavam-se num plano mais infantil de desenvolvimento como espécie: castigo e recompensa dos nossos actos perante um pai divino. No século XXI a humanidade está na adolescência, tomou consciência que cresceu e construiu por si os meios que lhe permitem tomar conta da "casa" sozinha. Agora já não há pai que nos castigue, precisamos rapidamente de nos tornar adultos e governarmo-nos com o que temos; ainda somos como jovens vivendo numa república estudantil em bebedeira constante, só fazendo disparates e partindo a casa toda. Assim, esta paranóia mundial com o fim só deveria ter paralelo com cuidados concretos para nos preservarmos a nós e ao planeta. 

Em 2009 estávamos no fim de uma era, a era de Peixes e era normal que surgissem profetas e profecias anunciando o fim próximo; já o mesmo se tinha passado na transição da era de Carneiro para a de Peixes. Eu não vivi essa época mas caramba, basta ter lido um poucochinho sobre o assunto para nos virem à ideia várias semelhanças: acaso já ninguém se lembra que essa foi a altura em que Cristo surgiu, bem como milhares de outros profetas e profecias, todos mergulhados num contexto pré-apocalíptico? As suas fantasias eram mais ou menos semelhantes às dos profetas actuais, só que hoje, com mais rapidez de informação não há lugar para a manutenção de mitos muito prolongados no tempo. Os que existem são antigos, nasceram numa época em que não se pode provar muita coisa. Por isso já tivemos semi-deuses, milagres e hoje em dia nenhuma destas coisas fantásticas ocorre.

Consta que Cristo era diferente, embora se contextualizarmos a época não censuro quem não tenha pensado o mesmo… Sobretudo por causa dos que pegaram na sua história, este foi o profeta que vingou sobre os contemporâneos mas uma simples leitura do Livro escrito sobre a sua vida, faz-me crêr que ele e os acólitos mais próximos morreram a pensar que o dia do julgamento final se encontrava para breve. Talvez Cristo fosse diferente dos demais profetas porque acreditava genuinamente no que dizia e é sobre esse tipo de carácter que os oportunistas estabelecem o seu poder e levam uma vida confortável. Depois da sua morte e os séculos terem passado sem nenhum fim à vista, os seguidores encarregaram-se de esticar no tempo até ao infinito o tal dia do julgamento final, pudera: já cá andam há uns 2000 anos e conhecem bem os perigos de fazer afirmações rigorosas e definitivas sobre profecias! Desde sempre e ainda mais hoje em dia, os profetas perceberam que a imortalidade está directamente relacionada com o mediatismo das suas acções e com as sementes que deixam no coração dos outros, sendo isto tão válido para o ódio como para o amor! Muitas vezes, mais do que obras materiais é a transmissão de afectos que perdura no tempo!

Embora injusto também é normal que se atribuam todas as responsabilidades do que está mal à era que termina e se veja como portadora de esperança e de salvação, a que se segue; é o fim de um ciclo e o começo de outro, a uma escala mais pequena é um fenómeno semelhante ao vivido no fim do ano com a passagem para o próximo. A era que se aproxima, a de Aquário, é descrita pelas pessoas mais “espirituais” como uma era de elevação sobre a matéria, de amor desprendido, universal e etc, etc. Mas se quisermos seguir a simbologia zodiacal ninguém me conseguiu convencer em que é que isso difere assim tanto da simbologia dos Peixes! Honestamente: acham que a era de Peixes foi terrível e a de Aquário será fantástica? É claro que não, o que se passa é que a de Peixes está usada, já se viveram dois mil anos nela e Aquário é a novidade! Sou capaz de jurar pela minha alma em como daqui a dois mil anos toda a gente irá culpar a era de Aquário pela desordem então instalada, depositando grande esperança na que se segue, a de Capricórnio, ansiando organização e prosperidade. Parece-vos absurdo? Não se convençam disso, tudo muda com o tempo; o que se passa é que estou a falar de uma moda que só virá daqui a 2000 anos e como tal não tem o mínimo interesse ou credibilidade neste momento. É tão óbvio que até chateia! Já agora, também chateia um bocado saber que não restará o mínimo grão de pó de mim ou destas palavras para provar que estou certo mas isto é mesmo assim, não há nada a fazer...

Não me interpretem mal, não quero de forma alguma dizer que o que aí vem não é melhor; basta pensar onde estava a humanidade entre 24 a 26 mil anos atrás quando entrámos na última era de Aquário; nessa altura não era igualmente fabulosa?… Há de facto uma contínua evolução mas o espaço e o tempo são demasiado grandes para as nossas vidinhas; por isso não acredito em milagres instantâneos nem fomento esperanças ridículas, sobretudo quando estas implicam espezinhar ou esquecer o que já foi feito. Fim do mundo em 2012? Ofereço-vos desde o futuro uma emoção mais forte e real: finalmente se provou que o nosso sol faz parte de um sistema binário, ou seja, o sol e o seu séquito, juntamente com outra estrela e o respectivo sistema giram os dois à volta de qualquer coisa ainda não definida! Não vos quero maçar muito com pormenores mas a esta altura já consigo sentir à distância o desinteresse dos leitores: “-só isso?” Pois é, só isto, mas pensem nas implicações filosóficas que trará à nossa maneira de ver o mundo e a nós próprios!

No mesmo espaço contemporâneo, o Islão vive no século XV, os cristãos no XXI, os judeus no LVIII! Quanto ao tal fim do mundo, nunca se esqueçam que a Terra e o resto do universo estão-se um bocado a cagar para a nossa cronologia do tempo: se tudo tiver que acabar um dia, até pode ser à noite, será na altura que lhes der na real gana; se por acaso for numa data específica prevista por alguém, isso não será mais que uma espectacular coincidência que em princípio não deixará seguidores para glorificar o visionário. De que serve então anunciá-lo? Tirando os bem intencionados avisadores, a maior parte das vezes as previsões catastróficas servem para que um ou alguns mortais mantenham um ascendente ético, intelectual ou material sobre os demais; é um acto desesperado de alguém que quer ganhar ou pelo menos, não perder poder mas aos olhos de um deus qualquer acima do universo conhecido todos nós devemos parecer completamente patéticos na nossa demanda pela imortalidade.

As pessoas e as coisas vão-se todas e as ideias só se mantêm enquanto forem sentidas e vividas; se outras novas preencherem o nosso coração, “adeus ó vai-te embora” da nossa vida, despachada para as páginas de um livro: o que sucedeu, por exemplo, à espectacular e poderosa família de deuses egípcios que reinaram durante mais de 30 séculos? Seria efectivamente uma pena mas morrer não me tira o sono: transformar-me naturalmente em pó será apenas um regressar à forma donde vim. Aquilo que me dá insónias são as mortes que já provocámos por egoísmo de bem-estar momentâneo ou por não aceitar que as nossas vidas ou ideias têm um fim; que espécie tão ridícula… Se querem acreditar em algo, acreditem nisto: nós não somos um princípio mas temos um princípio; nós não somos um fim mas temos um fim; nós somos e temos um meio!

5.11.09

A TRADIÇÃO DAS FESTAS

… e assim se passou mais uma festividade, desta feita o Halloween. Na minha época, no Portugal de 2034 já nos estamos a preparar para o dia de Acção de Graças em que tradicionalmente todas as famílias se juntam à volta dum peru antecipando as festividades do natal em que as famílias se juntam à volta de um bacalhau, um cabrito, outro peru, enfim, vai variando conforme as regiões… Comparando com 2009, algumas datas de festividades mudaram mas o que não varia são os temas das festividades regulares e sincronizadas no mundo inteiro. O maior contributo partiu obviamente dos Estados Unidos, que conseguiram pôr o mundo a celebrar o dia da terra a 22 de Abril e o dia da independência a 4 de Julho como já o tinham feito com o dia de S.Valentim, o Halloween e o dia de Acção de Graças. Não são feriados, há que continuar a laborar, são apenas dias em que o comércio se movimenta e os consumidores compram objectos alusivos a essas celebrações.

Não se espantem, não há nada de novo nisto! Quando a lógica de poder era exercida através do temor pelo sobrenatural, no ocidente, o cristianismo apoderou-se de todas as festas pagãs e transformou-as em celebrações religiosas; por exemplo, a mais conhecida de todas, o solstício de Inverno, como sabem, chama-se agora o natal. O tempo passou, mantiveram-se todas as festas mas mais uma vez foram travestidas na sua essência. Durante vários séculos pertencemos ao rebanho de Deus que nos castigava ou recompensava através dos seus representantes terrenos. Por um breve período de transição chamaram-nos cidadãos, educando-nos com a ilusão de que tínhamos liberdade de escolha e preparam-nos para o que somos hoje: consumidores, máquinas biológicas de processar o que nos oferecem!

Assim, quase sem darmos por isso, o calendário anual ajustou-se a interesses económicos que nos obrigam a ter de consumir determinados produtos, todos supérfluos, claro, sob pena de nos sentirmos desajustados; para uma espécie que tem na sua essência hábitos sociais, o pior que pode acontecer a um dos seus indivíduos é sentir-se à margem dos outros… Em 2034 as coisas não são muito diferentes, vamos tendo umas festas regulares que nos ajudam a suportar e sobretudo a esquecer que somos manipulados através dos nossos próprios instintos. As economias emergentes em 2009 conseguiram marcar pontos ao longo dos anos e associar alguns aspectos culturais locais a celebrações mundiais; não se esqueçam que nos dias de hoje, se uma festa for celebrada 3 anos seguidos passa a ser uma “tradição”!

Como o natal calhava muito em cima do ano novo, adoptou-se o ano novo chinês que é lá para fins de Janeiro, o que deu a oportunidade aos consumidores de ao fim de mais um mês de trabalho terem outra vez dinheiro para gastar; o 13º mês já não existe: as empresas poupam e os consumidores têm um mês para juntar recursos para estoirar na passagem de ano em viagens ou explosivos; o lobby das armas trabalhou bem… Em Fevereiro celebra-se o dia de S.Valentim, onde os namorados oferecem provas do seu amor (uma sequela do natal) e entre esse mês e Março temos o Carnaval à moda brasileira (é preciso comprar máscaras), sendo que 47 dias depois há a Páscoa, o antigo equinócio da Primavera, agora o paraíso do chocolate e sobretudo dos comerciantes suíços e alemães. Em Abril, graças à eficiência de Al Gore temos o dia da Terra, em que se celebra a impossibilidade de mais países além das potências que já produzem, poderem criar indústrias porque dão cabo do planeta; tradicionalmente oferecem-se flores, e vasos com plantas a qualquer pessoa (estamos todos no mesmo barco); bom trabalho do lobby holandês nos Estados Unidos.

Em Maio temos o dia da Mulher, uma ideia da Rússia em que tradicionalmente se oferecem Matrioskas de todos os tamanhos mas só com o invólucro exterior; é como um Kinder Surpresa para mulheres: lá dentro podem estar as mais variadas prendas, dependendo da capacidade económica do comprador. Em Junho há o dia da Criança, outra sequela do natal, em que se pode dar qualquer coisa mas a tradição manda que se ofereçam consolas de jogos ou filmes japoneses às crianças. Em Julho celebra-se o dia da independência dos Estados Unidos, uma espécie de usurpação do dia da tomada da Bastilha, ou melhor, uma versão aperfeiçoada e actual. Tradicionalmente compram-se uniformes e bandeiras, uma sequela do Carnaval, fazem-se desfiles e celebra-se a liberdade, sobretudo de compra, dos consumidores.

Se no final de Outubro já havia o Halloween (outra sequela do Carnaval), o dia dos mortos perdeu significado por ser muito perto dessa data. A Índia agarrou a oportunidade e instituiu-se pelo mundo fora a celebração dos mortos e da renovação espiritual em Agosto; agora, no pino do sol e da vida celebra-se a lembrança que de um dia para o outro podemos ir desta para melhor! A época de banhos que já era sagrada em Portugal ganhou mais misticismo, o potente lobby da cera patrocinou a sua instituição e agora, tradicionalmente, toda a gente compra velas para pôr a boiar nos rios. O feriado da Ascenção de Nossa Senhora ficou literalmente a ver navios mas em breve a nossa cultura iria absorver o espírito da celebração: as velas vendidas em Fátima com formas de braços, dedos, pés, etc, são agora lançadas sobretudo ao rio Trancão, o mais parecido com o Ganges, pelo menos em sujidade. Em Setembro celebra-se o dia dos avós, uma vitória do lobby das indústrias farmacêuticas. No dia 23 o Outono da Terra mistura-se simbolicamente com o Outono da vida e como é da tradição, oferecem-se Viagras aos avôs e Aspirinas às avós. Como já vimos, no final de Outubro há o Halloween e no final de Novembro o dia da Acção de Graças onde aqui em Portugal continuamos sem saber muito bem o que é mas as explorações avícolas apreciam o nosso empenho nessa festa.

Não sei se repararam mas quase todas estas festas são no final do mês; pode ser um mero acaso que elas coincidam com a altura em que toda a classe trabalhadora passou a receber o seu ordenado mas o movimento comercial agradece e aproveita-o. Só mais uma nota final: os franceses continuam a produzir carros, armas, foguetes, filmes, a manter o seu espaço em África e no Canadá mas soçobraram novamente ao tentar impor o seu diazito de inspiração francófona. O lobby anglófono já lhes tinha tirado influência cultural, territorial, a maçonaria, a fraternidade, a igualdade, o dia da liberdade e mais recentemente não conseguiram fazer vingar internacionalmente o dia do Obélix que em França se celebra comprando um menir e deixando-o à ombreira da porta para conjurar o perigo que é o céu lhes cair um dia na cabeça. Durante uma semana só se come javali, bebem-se poções alucinogénicas, usam-se capacetes com asas e fazem-se orgias. Estes gauleses são loucos…

15.10.09

O QUE É QUE UMA SIMPLES ACTRIZ DIZ SOBRE NÓS PRÓPRIOS?

Em 2009, durante uns dias de Outubro, um facto agitou o orgulho nacional: o desrespeito duma actriz brasileira para com Portugal. Francamente: a indignação nacional só tem paralelo na patetice desta actriz! Julgo que este vídeo faz parte de um programa de entretenimento em que ela optou por querer parecer engraçada aos olhos dos seus conterrâneos, recorrendo à piada do preconceito; é natural no ser humano desejar aprovação duma plateia e lá, o recurso ao estereótipo lusitano é tão garantido como as caralhadas do Fernando Rocha por cá. Toda a gente no estúdio se riu mas eles é que ficam mal, não? O programa, de saias, ao dar cobertura àquilo assume que é uma capoeira de galinhas tontas que falam e riem de trivialidades; não tem mal nenhum, a sério! Apenas confirmam que são leves, descontraídas, parvas e que colocam o papel da mulher nesses termos; esta é, aliás, uma das funções dos média nos países do terceiro mundo, sobretudo nos muito ricos e cuja riqueza é escandalosamente mal distribuída.

Se vamos pelo caminho do preconceito, penso que os americanos em geral, são assim, tendo dinheiro acham que podem comprar tudo: amigos, beleza, bem estar, valores, a aprovação dos outros, saúde, enfim... É o espelho duma cultura materialista jovem, às vezes infantilizada, que goza com os velhos e que cada vez está mais disseminada pelo mundo. Não tem mal, só se torna negativa quando tenta impôr esses padrões como referenciais para toda a humanidade que não os aceita ou lhes resiste. Daí a estupefacção do norte-americano comum com a derrota na guerra no Vietname e com a resistência ao extremo estupidamente(?) suicida dos iraquianos.

O único respeito/temor que culturas jovens têm é a quem é mais rico e poderoso que eles. Há uns anos houve uma indignação nacional no Brasil quando num episódio dos Simpsons, Rio de Janeiro foi retratada como uma cidade cheia de macacos deambulando pelas ruas; porquê? Estão fartos da analogia com os nossos parentes símios ao recordar-lhes que são um país caótico ou porque lhes lembram que são uma sociedade maioritariamente amulatada e de clima quente? Talvez por isso grande parte dos brasileiros, ao explicar o seu país ponha bastante ênfase no facto de existir uma região ao sul com invernos rigorosos onde só vivem descendentes de alemães...

Conheço as américas e digo-vos: se ficarmos num hotel de luxo do Brasil e se pedirmos um elefante cor-de-rosa no quarto, eles arranjam-no! Desde que haja dinheiro para isso, vale tudo... Casos como os do "técnico", tenho às dezenas em hotéis brasileiros mas aqui ninguém iria achar graça (o preconceito lusitano sobre os brasileiros já encara como natural esses comportamentos) e se fosse dito numa tertúlia de tontas não se tornaria num caso nacional no Brasil. Já agora: o 3 virado ao contrário foi a coisa mais absurda que encontraram em Sintra? Isto são pessoas que nunca se afastaram muito do quarto do hotel. O ego nacional em Portugal ficou tão ferido que acho que já ninguém reparou como no final do vídeo, a própria tonta foi gozada pela apresentadora!

Aparentemente, o que mais indignou as consciências lusitanas foi o facto de ela cá vir com frequência "aproveitar-se" dos portugueses, fazendo espectáculos ou angariando receitas, sei lá, nunca vi nada dela, e dizer que ama o país, como até o refere no vídeo em que tenta fazer as pazes... Primeiro temos que compreender que ela é uma actriz, por amor de Deus! Dizer que ama ou não ama tem a mesma relevância que um papagaio que diz uma asneira: pode chocar-nos mas é um ser irracional que repete o que lhe ensinaram. Agora, se acham que ela vem cá "mamar", no mínimo sejamos magnânimos e pelo menos concedamos-lhe a tradicional opção de engolir ou deitar fora; ao pé da fonte parece que ela escolheu a segunda... De facto, esta cena só me parece ser uma de duas coisas: uma miúda imbecil da primária a fazer porcarias com cuspo ou uma actriz porno a deitá-"lo" fora. Talvez a verdade esteja numa mistura das duas...

Estou-me borrifando para o caso, não subscrevo abaixo-assinados, o que este episódio me merece é uma reflexão sobre nós próprios: se vamos sobrevalorizar, só nos enterramos, caramba! Que raio de país é este tão pequeno que se indigna com os comentários de uma actriz qualquer? É por ser brasileira? Que ressentimento feio... O nosso analfabetismo e pouco interesse por valores culturais é que hipotecam a nossa grandeza, não nos permitindo rir do que tem graça, desvalorizar o que não tem importância e indignarmo-nos com o que é verdadeiramente chocante. Porque é que não vi tamanha indignação em Portugal quando os guerrilheiros Taliban metralharam e dinamitaram Budas milenares no Afeganistão? Porque hoje somos pequenos! Aquilo está muito longe e não é nosso; se fôssemos grandes, também sentiríamos aquilo como nosso; como somos pequenos, o pouco que temos é defendido com unhas e dentes e ganha uma dimensão quase religiosa. Para nós, aquela cabeça de vento cuspiu no Santo Sudário!

Se tivessemos real respeito e conhecimento pela nossa história saberíamos que o Mosteiro dos Jerónimos simboliza o nosso triunfo mundial na demanda das Índias; a América não "existia", não nos interessava a nós nem a nenhuma potência mundial da época dos descobrimentos. Vasco da Gama morreu rico e respeitado com o troféu da Índia no bolso enquanto Colombo morreu quase na miséria e convencido que também lá tinha chegado. Só para mostrar o seu conhecimento ao mundo, D.Manuel I mandou um obscuro capitão de mar (que tristemente já poucos em Portugal sabem dizer o nome) desempenhar uma tarefa que acredito que não fosse a mais apetecível para a elite dos marinheiros: descobrir oficialmente as terras a ocidente. Que amor próprio podem ter os brasileiros se o início da sua vida como "civilização" ocidental começa com um facto mediático protagonizado por um actor de segunda? De facto, não se sabe muito sobre Pedro Álvares Cabral; tal como Neil Armstrong que não tem curriculum de nenhuma bravura particular, ele foi lá pôr o pé, e como esses territórios ganharam importância no futuro, acabou deixando o nome para a posteridade.

Alguma vez mostrámos interesse pelo Brasil até ele se ter tornado apetecível economicamente? A partir daí só o explorámos e parece que só ligámos ao nosso "filho" quando ele se tornou adolescente e penso que esse facto também pesa no ressentimento infantil de que somos alvo por parte dos brasileiros. Fomos o pai, talvez mais descuidado que os outros europeus que obrigámos o filho desde cedo a trabalhar. Sabemos que ele tem de crescer e ultrapassar esse rancor, enquanto não o fizer não amadurece mas a nós cabe-nos a ingrata tarefa de tolerar e suportar as culpas de todos os seus próprios defeitos. Isso é respeitar a história e seguirmos a nossa própria vida. Retiremos lições dos erros e cresçamos também, o nosso caminho é diferente, somos mais velhos mas precisamos de voltar a ser grandes; isso só lá vai com tolerância!

12.8.09

EXERCÍCIO DE MEMÓRIA

Como sabem estas crónicas são escritas a partir do futuro portanto não é novidade para mim o que se passa no vosso presente. Apesar disso, não posso deixar de comentar aqui um acontecimento que comoveu o país em Agosto de 2009, a morte de Raul Solnado. Passei pela mesma comoção há 25 anos atrás quando a vivi e aprendi na altura uma coisa que mantenho até hoje: é preciso seleccionar muito bem o tipo e qualidade de material que se guarda na memória! Isto porquê? Porque apesar de gostar muito e admirar genuinamente o Raul, só após a sua morte e com a passagem de vários documentários sobre a sua vida é que me recordei da sua excelência! Foi preciso ele desaparecer para, na minha memória se puxar o brilho à minha admiração.


Numa época de superlativos em que as dimensões do espanto popular não param de aumentar, de bom para super, de super para hiper, de mega para giga, de giga para tera, de “espectáculo” para “cinco estrelas” de “cinco estrelas” para “não há palavras” prefiro manter como referências os melhores que já existiram e valorar daí para baixo; como antigamente se fazia nas boas escolas, nunca dar um 20; a escala dos muitos bons terminava no 18. Por exemplo, na música, os limites do génio humano, no conjunto da sua obra, com várias diferenças na forma como o atingiram, encontram-se personificados nas figuras de Bach, Mozart e Beethoven. Claro que cada um aprecia o que quer, alguns artistas até nos tocam mais pessoalmente por uma, mais obras ou circunstâncias mas nunca poderemos perder de vista o que de melhor foi feito sob pena de hipotecarmos o nosso próprio futuro. Este exercício de memória deveria ser feito com alguma regularidade, como quem vai ao ginásio: não só o corpo e o raciocínio claro devem ser exercitados mas, como rampa de lançamento para o futuro, devemos exercitar também a memória.


Conheci pessoalmente o Raul em 1991 numa altura em que com o seu filho e outro actor formámos a Fúria do Açúcar. Qualquer pessoa conseguirá imaginar o grau de excitação que me assolou quando o conheci: eu, entre outras coisas a tentar ser engraçado e tinha ali ao meu lado, dando conselhos, um mestre daqueles! É que ainda por cima, parte da sua brilhante carreira foi navegada por águas que eu pretendia trilhar nessa primeira fase do grupo, fazendo uma espécie de stand-up comedy e cantando! Contudo, devo dizer que acima da fineza do trato e humor, elegância intelectual e toque de qualidade que parecia acrescentar a todas as suas intervenções, aquilo que mais me marcou e pelo qual lhe estarei eternamente grato foi o ter-me proporcionado genuína alegria numa época em que ela escasseava: antes do 25 de Abril o país não era a preto e branco, era cinzento, e sempre que ele aparecia a minha vida coloria; há poucas coisas tão nobres na vida como essa! Daí o carinho e admiração popular duma geração mais velha e por aqueles que se interessam pelo humor, de gerações mais recentes.


Não se iludam acerca da importância que algumas pessoas ou situações possuem nas vossas vidas. O humor do Raul tem, sem dúvida, uma base intemporal mas as gerações que não o conhecem só poderão compreender como funcionou a 100% no público se o apreciarem contextualizado com a sua época. Muito do material que ele produziu tem de ser visto sob essa perspectiva e por isso não julguem vocês, jovens de 2009 que os vossos descendentes rirão com o mesmo entusiasmo com que vocês próprios riram a ver um sketch do Herman ou dos Gato Fedorento! Garanto-vos que os vossos netos quando olharem para o sketch do "eles falam, falam, falam" ficarão espantados com o riso que ele vos provoca enquanto pensam: "que graça é que isto tem?" A capacidade de intervenção, factor que devemos bastante ao Raul, só faz absoluto sentido no momento em que é usada; posteriormente o que fica é uma recordação, a sua utilidade esgota-se. Ainda bem que existem vários registos dele mas infelizmente terá de ficar na memória grande parte da sua obra, o que será sempre o drama dum actor que não se dedique só ao cinema, à televisão ou ao registo fonográfico. É esse exercício, o do que não ficou registado materialmente que deveremos sempre exercitar porque como bem sabemos, os registos físicos acabarão por aparecer aqui e ali sempre que interesses propagandísticos ou económicos manifestarem vontade; isso só nos leva a reagir, nunca a pensar por nós, e em última análise a sermos livres e felizes. Façam lá esse favor…

6.9.08

'TÁ-SE MAL É NA CRUZINHA...

Desde sempre, a influência cristã, isolamento, impotência, opressão ou sei lá o quê, moldaram nos portugueses um carácter predisposto ao sacrifício e à vitimização, como forma de atingir a glória; o que parece certo é que o nosso comportamento tem como base um ego inchado por um complexo que oscila entre a superioridade e a inferioridade. Assim, costumamos apregoar que os nossos queijos, vinhos, paisagens, petiscos, etc são “os melhores do mundo” ainda que quem faça esse tipo de afirmações raramente tenha saído do lugarejo onde vive. Ser o melhor ou pior implica uma comparação objectiva com outros mas isso aqui raramente sucede; somos os melhores mas duma forma subjectiva, não científica, ou seja: sabemos que o somos mas não temos como prová-lo ao mundo, que chatice! Deve ser por isso que não nos ligam nenhuma… Vociferamos contra o mau funcionamento do nosso sistema interno mas se chamarmos a atenção ao ponto de um estrangeiro escutar e ele tiver a infelicidade de concordar, então a nossa indignação não conhece limites: só nós é que estamos autorizados a dizer mal de nós próprios!

Por outro lado, aqueles aspectos do comportamento colectivo dos quais nos envergonhamos são para manter em segredo, uma espécie de cultura não documentada e transmitida secretamente de pai para filho, de colega em colega de modo a safarem-se na vida, a serem mais espertos que os outros. Entre esses pedaços de conhecimento encontram-se o “aproveitar ao máximo possível aquilo que não foi conseguido com o nosso esforço” como brindes, ofertas, subsídios, viagens, “não és mais do que eu” que se traduz em resistência à autoridade ou superiores hierárquicos e inveja pelas aquisições alheias e “comer pela calada ou pelo menos não ser comido”, que basicamente consiste em não fazer figura de urso; isso consegue-se tentando sempre ultrapassar os outros usando meios legais ou não e independentes do mérito pessoal.

O que sucedeu ao infeliz Marco Fortes na China foi que cometeu a estupidez de revelar que usou esse conhecimento secreto em proveito próprio, algo que obviamente nos devemos coibir de comentar em público… Compreende-se: ele estava lá longe, relaxado, num ambiente cosmopolita, a curtir uma espécie de “Erasmus” do desporto, a beber uns copos e tal, nada de mal; quase todos os portugueses que lá estavam com ele sabem o que isso é, partilhavam o mesmo sentimento, sou capaz de jurar que o próprio jornalista que gravou as declarações nem se deve ter apercebido da suposta “gravidade”, apenas se tornou um caso porque descontextualizadas, a milhares de quilómetros de distância, as palavras pareceram quase ofensivas para os “ursos” que cá ficaram. Subitamente, todos os que andaram a descontar nos impostos para pagar a deslocação do Marco à China se sentiram “papados” e isso foi o pior que poderia ter sucedido ao infeliz; daí, mais tarde, em entrevista, ele ter acentuado que não se pode considerar subsídio o valor irrisório que recebeu, como se dissesse: “-Eh pá, eu posso ter muitos defeitos mas não vos enganei, hein?”
A sua inconfidência tornou-o automaticamente numa vítima destinada a aplacar a ira nacional e exigia um castigo exemplar: foi então necessário chicoteá-lo e crucificá-lo para que a nossa alma fosse salva! A sua exposição na cruz é também um aviso à navegação e no fundo toda a gente sabe, incluindo o próprio, que ele apenas foi um totó involuntário escolhido para ser mandado para a cruz. Azar e... ámen!

3.9.08

EU JÁ VIVI O VOSSO FUTURO

Este texto não foi escrito por mim mas vale a pena incluí-lo no blog, já que não poderia ser mais oportuno. São declarações do escritor, dissidente soviético, Vladimir Bukovsky sobre o Tratado de Lisboa


"É surpreendente que após ter enterrado um monstro, a URSS, se tenha construído outro semelhante: a União Europeia (UE). O que é, exactamente a União Europeia? Talvez fiquemos a sabê-lo examinando a sua versão soviética.
A URSS era governada por quinze pessoas não eleitas que se cooptavam mutuamente e não tinham que responder perante ninguém. A UE é governada por duas dúzias de pessoas que se reúnem à porta fechada e, também não têm que responder perante ninguém, sendo politicamente impunes.
Poderá dizer-se que a UE tem um Parlamento. A URSS também tinha uma espécie de Parlamento, o Soviete Supremo. Nós, (na URSS) aprovámos, sem discussão, as decisões do Politburo, como na prática acontece no Parlamento Europeu, em que o uso da palavra concedido a cada grupo está limitado, frequentemente, a um minuto por cada interveniente.
Na UE há centenas de milhares de eurocratas com vencimentos muito elevados, com prémios e privilégios enormes e, com imunidade judicial vitalícia, sendo apenas transferidos de um posto para outro, façam bem ou façam mal. Não é a URSS escarrada?
A URSS foi criada sob coacção, muitas vezes pela via da ocupação militar. No caso da Europa está a criar-se uma UE, não sob a força das armas, mas pelo constrangimento e pelo terror económicos.
Para poder continuar a existir, a URSS expandiu-se de forma crescente. Desde que deixou de crescer, começou a desabar. Suspeito que venha a acontecer o mesmo com a UE. Proclamou-se que o objectivo da URSS era criar uma nova entidade histórica: o Povo Soviético. Era necessário esquecer as nacionalidades, as tradições e os costumes. O mesmo acontece com a UE parece. A UE não quer que sejais ingleses ou franceses, pretende dar-vos uma nova identidade: ser «europeus», reprimindo os vosso sentimentos nacionais e, forçar-vos a viver numa comunidade multinacional. Setenta e três anos deste sistema na URSS acabaram em mais conflitos étnicos, como não aconteceu em nenhuma outra parte do mundo.
Um dos objectivos «grandiosos» da URSS era destruir os estados-nação. É exactamente isso que vemos na Europa, hoje. Bruxelas tem a intenção de fagocitar os estados-nação para que deixem de existir.
O sistema soviético era corrupto de alto a baixo. Acontece a mesma coisa na UE. Os procedimentos antidemocráticos que víamos na URSS florescem na UE. Os que se lhe opõem ou os denunciam são amordaçados ou punidos. Nada mudou. Na URSS tínhamos o «goulag». Creio que ele também existe na UE. Um goulag intelectual, designado por «politicamente correcto». Experimentai dizer o que pensais sobre questões como a raça e a sexualidade. Se as vossas opiniões não forem «boas», «politicamente correctas», sereis ostracizados. É o começo do «goulag». É o princípio da perda da vossa liberdade. Na URSS pensava-se que só um estado federal evitaria a guerra. Dizem-nos exactamente a mesma coisa na UE. Em resumo, é a mesma ideologia em ambos os sistemas. A UE é o velho modelo soviético vestido à moda ocidental. Mas, como a URSS, a UE traz consigo os germes da sua própria destruição. Desgraçadamente, quando ela desabar, porque irá desabar, deixará atrás de si um imenso descalabro e enormes problemas económicos e étnicos. O antigo sistema soviético era irreformável. Do mesmo modo, a UE também o é. (…)
Eu já vivi o vosso «futuro»…"

12.2.08

A VIAGEM DO MARQUÊS

Num projecto pioneiro da universidade de Lisboa, uma equipa de historiadores do meu presente, em 2033, foi mandada numa máquina do tempo até ao século XVIII. Dois dias antes da sua morte relatada em 6 de Maio de 1782, o Marquês de Pombal, a seu tempo membro da Real Academia de História, foi contactado por esta equipa e convidado a realizar uma viagem no tempo para que escrevesse um relato pessoal das suas memórias do futuro. A primeira paragem seria em 2008, a segunda em 2033; vejam agora o que ele escreveu:

Na minha estranha viagem pelo ano de 2008, pude constatar que deve ter havido um terramoto, no mínimo semelhante ao de 1755; nenhum dos meus acompanhantes o admitiu mas verifiquei que não há sítio em Lisboa que não esteja em obras. A avenida da liberdade, ao meu tempo considerada de uma largueza absurda, estava toda entupida de coches mas sem cavalos, embora os meus acompanhantes me garantissem que os têm, às vezes até às duas centenas! Ora bem: bastou-me ter feito umas contas simples para concluír que só naquela extensão de meia légua, à chamada “hora de ponta”, estariam imobilizados uns 500 coches e à volta de uns 30000 cavalos; é obra!!! Chamem-me antigo mas esta tropa toda parece-me uma tremenda asneirada e nem sequer contabilizei o milhar de asnos que se encontrariam cativos dentro dos coches. O cenário repetia-se em quase todas as artérias da capital e arredores… Também me disseram que os cavalos desses coches são alimentados por um líquido tão caro e raro que quase todas as guerras desta época se despoletam pelo seu controle. Comida para cavalo é motivo de conflitos e escravidão de pessoas e estados?

Posso afirmar que aboli a escravatura nas Índias portuguesas; foi-me dito que essa medida já se estendeu a todo o território nacional mas francamente não a vislumbrei. E pior, parece que agora é tudo ao contrário: no meu tempo os escravos querem libertar-se do trabalho, em 2008 são eles próprios que o procuram e não lhes dão. Observei milhares deles numa manifestação, exigindo trabalhar em condições miseráveis e mesmo assim ninguém os quer!… Vi uma hasta pública das finanças do estado onde foram leiloados vários escravos vestidos duma forma humilhante, de xadrez, pertencentes a um tal Boavista Futebol Clube; também ninguém os quis… Visitei um local a que chamam de “ginásio” onde dezenas de escravos eram levados ao limite da exaustão física, só que em vez de trabalharem a céu aberto corriam em passadeiras como hamsters em rodinhas numa gaiola; outros puxavam pesos, quiçá treinando para puxar carroças, incentivados a esforçar-se mais e mais pelos gritos duns negreiros, tudo ao som duns tambores que não consegui ver quem tocava. O estranho é que eles gostavam de ser torturados, aparentemente só para obter um corpo semelhante ao dos escravos. Até o próprio chefe do governo tenta mostrar que é igual a eles: vi-o a correr todo suado com um sorriso, mas amarelo, tipo esgar enjoado…

Já que falo nisso, Portugal agora é governado por um homem chamado Sócrates mas acho que este nome serve só para transmitir um certo estatuto intelectual. De manhã vai correr em calções (e depois nesta época ainda zombam da minha cabeleira...), à tarde assina papéis e à noite é apupado pelo povo. Se me apupassem assim mandava logo enforcá-los, por pouco mais, até reduzi algumas famílias poderosas a pó! Contaram-me que ele não é assim tão bruto, aparenta um intelecto refinado e parece que até tem formação em engenharia, completa… Portanto, o método agora é diferente; vai engendrando “esquemas” que estrangulam aos poucos, envenenam lentamente e não só para alguns: está a reduzir todas as famílias não poderosas a cinzas! Mesmo assim tem algo semelhante a mim: enquanto governante chamaram-me “déspota esclarecido”; vejo que esse tal engenheiro me quer imitar os passos...

Reformei o ensino e tornei obrigatório o uso da língua portuguesa, sobretudo no Brasil mas basta ver como os jovens comunicam através dum sistema chamado sms para perceber que foi um esforço inglório. Tentei ler vários desses textos que se revelaram absolutamente indecifráveis para mim, com uma absurda profusão da letra k e símbolos como parêntesis, dois pontos, etc. Os meus acompanhantes abriram-me uma caixa de correio numa coisa chamada internet para receber informações preciosas do resto do mundo. Ao fim de 1 hora estava cheia de mensagens que diziam: "mine is bigger than yours" e “get a bigger pennis”; fiquei aterrorizado e só desejei que não fosse “in my ass”. Por falar nisso, não me estou a sentir muito bem e parece-me estar a ver imagens etéreas dos Távoras todos queimados, rindo-se malevolamente e a chamarem-me com o dedinho. Ai, que me está a doer o peito, pôrra! Que dor tão agu

A partir daqui os escritos pararam. Os historiadores, inadvertidamente, acabariam por interferir com a história já que o velho Marquês faleceu de ataque cardíaco, um dia antes da data oficial da sua morte. Nunca ficou provado mas é natural que o teor das mensagens recebidas na mail box tenham causado a sua morte prematura. Por fim, ele até chegaria a viajar ao ano 2033, mas no estado de "rigor mortis", onde foi deixado 24 horas numa arca frigorífica; durante todo o dia 5 de Maio de 1782, um actor do século XXI fez de Marquês no século XVIII e no dia 6 o corpo do falecido foi transportado para o passado, tendo aí substituído o seu sósia vivo.

4.2.08

D-Mail: a minha contribuição!

Como estou a escrever do futuro digo-vos desde já que em 2008 propuz os próximos artigos à D-Mail e todos, sem excepção foram sendo aceites ao longo dos anos! Por isso nunca julguem que já viram tudo e que nada mais vos poderá surpreender!


Anãozinho Repelente de Intrusos

Quem não gosta de um doce e simpático anãozinho à entrada de casa? Pois é; mas sempre que alguém tocar à campaínha eis que… o anãozinho liberta um assustador Rottweiler que causará danos cardíacos a carteiros e cobradores de dívidas e fará soltar umas boas risadas entre os amigos, depois de se recomporem do susto, claro; ufa!… Uma ideia simpática para oferecer à sua sogra ou surpreender os convidados.


Prato falante com contador de calorias

Um novo e moderno design para este utilíssimo prato falante com contador de calorias! Diz-lhe em voz alta quantas calorias têm os alimentos no prato e dá-lhe conselhos dietéticos. Poderá ouvir essas indicações no modo “compreensivo”, com a voz do Fernando Mendes, ou “repreensivo”, com a voz da Sofia Aparício, bastando para isso, apenas mudar de posição num botão. Engraçado para toda a gente, mas especialmente útil para quem tenha dificuldade em suster a gula. Funciona com pilha incluída.


Jantes anti-cães

É muito frustrante chegar ao pé do seu carro e ter as rodas todas mijadas pelos cães!… Isso acabou, graças a estas inovadoras jantes com desenho de um jornal dobrado! Ao aproximar-se do seu carro qualquer cão relacionará imediatamente as palavras “mau”, “feio” e “não se faz” ao castigo de levar com um jornal no focinho. Ideal, também, para os afugentar quando perseguem carros em andamento. Disponível em três versões: jornal pesado, médio ou leve; referências “Expresso”, “Diário de Notícias” ou “Destak”.


Afugentador de ladrões por infra-sons

Indispensável para quem tem medo de ladrões, este aparelho emite um feixe dirigido de infra-sons. Uma vez apontado na direcção do meliante, age sobre o seu sistema digestivo, provocando-lhe imediatamente um estado de desconforto no baixo ventre e imobilizando-o em dolorosos espasmos. É eficaz num raio de 6 metros. Ideal para todos aqueles que gostam de caminhar livremente, sem se sentirem ameaçados por gatunos. Funciona com uma pilha de 9V e vem fornecido com um prático e útil guarda… chuva.


Almofada de alfinetes/Boneco de vudú Sócrates

Finalmente, uma solução eficaz para juntar todos os alfinetes espalhados pela casa e aliviar o peso dum dia vivido em Portugal! Daqui para a frente, para descarregar o stress, basta pegar em alfinetes e espetá-los naquele boneco antipático que lhe anda a dar cabo da vidinha toda. Com modo de voz incluído. Muito prático para ter no seu sofá enquanto assiste às notícias pela televisão. Útil e verdadeiramente original!

Simpático Baú

Aqui está a solução para os sonhos de todas as pessoas arrumadas: um simpático e prático baú onde poderá livrar-se de vez de todos os desperdícios inúteis comprados na D-Mail. Basta deixá-lo todas as noites à porta de casa e como que por milagre, tudo o que lá está dentro desaparecerá. Na verdade, a eliminação é efectuada por uma equipa de simpáticos duendes viajando num mágico camião verde que engole e devora o conteúdo deste baú. Uma óptima ideia para a namorada ou para uma amiga super-organizada!