Na minha estranha viagem pelo ano de 2008, pude constatar que deve ter havido um terramoto, no mínimo semelhante ao de 1755; nenhum dos meus acompanhantes o admitiu mas verifiquei que não há sítio em Lisboa que não esteja em obras. A avenida da liberdade, ao meu tempo considerada de uma largueza absurda, estava toda entupida de coches mas sem cavalos, embora os meus acompanhantes me garantissem que os têm, às vezes até às duas centenas! Ora bem: bastou-me ter feito umas contas simples para concluír que só naquela extensão de meia légua, à chamada “hora de ponta”, estariam imobilizados uns 500 coches e à volta de uns 30000 cavalos; é obra!!! Chamem-me antigo mas esta tropa toda parece-me uma tremenda asneirada e nem sequer contabilizei o milhar de asnos que se encontrariam cativos dentro dos coches. O cenário repetia-se em quase todas as artérias da capital e arredores… Também me disseram que os cavalos desses coches são alimentados por um líquido tão caro e raro que quase todas as guerras desta época se despoletam pelo seu controle. Comida para cavalo é motivo de conflitos e escravidão de pessoas e estados?
Posso afirmar que aboli a escravatura nas Índias portuguesas; foi-me dito que essa medida já se estendeu a todo o território nacional mas francamente não a vislumbrei. E pior, parece que agora é tudo ao contrário: no meu tempo os escravos querem libertar-se do trabalho, em 2008 são eles próprios que o procuram e não lhes dão. Observei milhares deles numa manifestação, exigindo trabalhar em condições miseráveis e mesmo assim ninguém os quer!… Vi uma hasta pública das finanças do estado onde foram leiloados vários escravos vestidos duma forma humilhante, de xadrez, pertencentes a um tal Boavista Futebol Clube; também ninguém os quis… Visitei um local a que chamam de “ginásio” onde dezenas de escravos eram levados ao limite da exaustão física, só que em vez de trabalharem a céu aberto corriam em passadeiras como hamsters em rodinhas numa gaiola; outros puxavam pesos, quiçá treinando para puxar carroças, incentivados a esforçar-se mais e mais pelos gritos duns negreiros, tudo ao som duns tambores que não consegui ver quem tocava. O estranho é que eles gostavam de ser torturados, aparentemente só para obter um corpo semelhante ao dos escravos. Até o próprio chefe do governo tenta mostrar que é igual a eles: vi-o a correr todo suado com um sorriso, mas amarelo, tipo esgar enjoado…
Já que falo nisso, Portugal agora é governado por um homem chamado Sócrates mas acho que este nome serve só para transmitir um certo estatuto intelectual. De manhã vai correr em calções (e depois nesta época ainda zombam da minha cabeleira...), à tarde assina papéis e à noite é apupado pelo povo. Se me apupassem assim mandava logo enforcá-los, por pouco mais, até reduzi algumas famílias poderosas a pó! Contaram-me que ele não é assim tão bruto, aparenta um intelecto refinado e parece que até tem formação em engenharia, completa… Portanto, o método agora é diferente; vai engendrando “esquemas” que estrangulam aos poucos, envenenam lentamente e não só para alguns: está a reduzir todas as famílias não poderosas a cinzas! Mesmo assim tem algo semelhante a mim: enquanto governante chamaram-me “déspota esclarecido”; vejo que esse tal engenheiro me quer imitar os passos...
Reformei o ensino e tornei obrigatório o uso da língua portuguesa, sobretudo no Brasil mas basta ver como os jovens comunicam através dum sistema chamado sms para perceber que foi um esforço inglório. Tentei ler vários desses textos que se revelaram absolutamente indecifráveis para mim, com uma absurda profusão da letra k e símbolos como parêntesis, dois pontos, etc. Os meus acompanhantes abriram-me uma caixa de correio numa coisa chamada internet para receber informações preciosas do resto do mundo. Ao fim de 1 hora estava cheia de mensagens que diziam: "mine is bigger than yours" e “get a bigger pennis”; fiquei aterrorizado e só desejei que não fosse “in my ass”. Por falar nisso, não me estou a sentir muito bem e parece-me estar a ver imagens etéreas dos Távoras todos queimados, rindo-se malevolamente e a chamarem-me com o dedinho. Ai, que me está a doer o peito, pôrra! Que dor tão agu
A partir daqui os escritos pararam. Os historiadores, inadvertidamente, acabariam por interferir com a história já que o velho Marquês faleceu de ataque cardíaco, um dia antes da data oficial da sua morte. Nunca ficou provado mas é natural que o teor das mensagens recebidas na mail box tenham causado a sua morte prematura. Por fim, ele até chegaria a viajar ao ano 2033, mas no estado de "rigor mortis", onde foi deixado 24 horas numa arca frigorífica; durante todo o dia 5 de Maio de 1782, um actor do século XXI fez de Marquês no século XVIII e no dia 6 o corpo do falecido foi transportado para o passado, tendo aí substituído o seu sósia vivo.


















































