7.3.19

Conan Osíris, o Algoz



O primeiro contacto que tive com este artista foi feito sem preconceitos, mostraram-me num telemóvel a sua actuação no Festival. Mas assim que ouço 1- uma guitarra portuguesa ou 2- cantores ou cantoras abrir a goela com a voz colocada num registo "à fado", a minha repulsa não tem explicação, confesso. Acho que toda a gente tem direito a fazer o que quer, eu tenho a possibilidade de me recusar a ouvir. Nas últimas décadas desenvolvi uma repulsa orgânica por ouvir o que não gosto, nem por piada para depois dizer mal. Bastam-me uns acordes para perceber se continuo a ouvir ou paro. Também foi assim com o Salvador Sobral. Não acompanhei esse festival mas ouvi tanto ruído à volta dele que fui ver o que era. Arrebatou-me logo e por isso não percebo porque mais de metade das pessoas o arrasavam. Toda a gente parece ter ideias muito claras do que é uma "música de festival", e aquela "não era"... Não me interessa se um gajo canta com esgares ou com colheres penduradas na tromba, isso é uma coisa de cada um desde que o trabalho tenha substância e a imagem coerente com o trabalho. Mas as pessoas em geral não têm critério, anda tudo alienado, e quando o Sobral ganhou passou a ser o maior. Vendo que o absurdo é premiado e sem perceber o que presta ou não, o público receia passar por parvo. É o terreno ideal para todo o tipo de disparates singrar, "um gajo sabe lá se acha aquilo mau e depois dizem que não é?" Eu não gosto disto, não me interessa se sou estou agarrado a um formato tradicional, se ganha o Festival da Eurovisão, um Óscar ou toda a gente diz que é o maior. Mas não acho que seja um caso de vergonha nacional. Os festivais, o que passa nas rádios, o que tem notoriedade social é-me indiferente, se não gosto não consumo e não preciso de confirmação alheia, nem acho que eu seja melhor ou pior que ninguém. Só acho que o grande público tem pouco critério, de resto estou-me borrifando se o artista A existe ou não existe, se B tem sucesso ou não, se representa Portugal ou o Burkina Faso. Este artista pode ganhar a Eurovisão? Claro, tem todas as condições para isso. E esse facto fará mudar a minha opinião? Claro que não, o que ouvi não me toca em nenhuma dimensão para eu conseguir ouvir os restantes 3/4. É inegavelmente um rapaz sensível, mas o que apresenta não traz nada de novo, inspirador, é outrossim o mensageiro da destruição de algo velho - uma coisa que nem ele tem noção - e nessa perspectiva consigo respeitá-lo. Tendemos a considerar aqueles que vêm aplicar o golpe final como menos dignos, mas alguém tem que fazer esse serviço, não é? Aliás, se as circunstâncias propiciam o aparecimento de carrascos isso é sinal de que há coisas que já deviam estar mortas, temos pena mas é a lei da vida. O Conan Osíris aparece para aplicar a morte, é um algoz. 

Enviaram-me um link duma entrevista dele que achei interessante. Ouvi sem qualquer filtro como já tinha ouvido a tal música. Aborreci-me ao fim de algum tempo. Saí do Youtube, comecei a pensar numa resposta para a amiga que o enviou e voltei para verificar uma coisa: o vídeo tem 10 minutos, vi 3 minutos e meio. A música só consigo ouvir até pouco mais de entrar a voz, imagino que sejam uns 40 segundos. Logo, suportei mais a ouvir o artista falar que a escutar a sua obra. Tem aptidões humanas, tipo pensamento lógico, criatividade, fala, etc, mas parece um hominídeo adulto não completamente formado. A linguagem é mais que primária mas não é a expressão verbal que me aborrece, são os processos mentais que geram essa expressão. Outro dia acerca do QI li que quanto mais perto uma pessoa estiver do nível médio de QI dum público, mais fácil é para ela comunicar com esse público. Os processos mentais que este rapaz revela na expressão levam-me a suspeitar dum baixo QI. E isto também me levanta uma nova questão: suspeito que o nível médio de inteligência do público que se interessa, assiste, e vota no Festival é baixo. Logo o que este rapaz fala e produz, mesmo soando bizarro para esse público, toca-o de alguma maneira, consegue que o entendam. Poderá ser o máximo desvio daquilo que acham normal, mas situa-se no seu patamar de compreensão. Depois de ver a entrevista descansei o espírito porque agora percebo o que senti, e assumo que não tenho paciência para isto, acho aborrecido demais para me suscitar interesse. Não significa que eu seja melhor, mais feliz ou com mais sucesso que ele, significa que os nossos níveis de inteligência não permitem uma ligação, por isso nem consigo detestar, só quero distância. É bizarro mas nunca o julguei pela forma porque é bizarro; essa é talvez a opinião do tal público que votou nele. A bizarria para mim vem do conteúdo, da total ausência de empatia mental, de um quociente próximo do meu para me interessar. Como também não tenho empatia emocional, qual é o interesse?

Se encarar isto pela perspectiva dum produto do "music business" não há nada a comentar, há gostos para tudo, cada um come o que quer. Se vir esta obra duma perspectiva artística já me preocupa um pouco mais. Do conjunto da entrevista e da audição do tema ressalta a impressão de que estou perante uma pessoa confusa, vítima de bullying sonoro, com a cabeça entupida de pensamentos alheios, com o espírito cheio de nódoas negras de sons e ruídos. A criação artística não é possível sem “silêncio”, sem o criador de alguma forma se proteger do exterior, sem se escutar a si próprio, ficando disponível para captar o que emana dum “Campo”, onde tudo o que foi, está a ser e será criado já existe em forma de onda quântica. Acho que este rapaz nem percebe que o seu processo resume-se a uma contínua exposição a agressões sonoras exteriores, e depois, por uma necessidade de equilíbrio orgânico, precisa de responder a essa pressão, como o reflexo do pontapé quando um médico bate com o martelinho no joelho. Ele não cria, ele monta, edita o que outrém mastigou e cuspiu. Nem sequer inventa as peças; vai buscá-las todas feitas aqui e ali, e monta-as à sua maneira, como se em vez de comprar um produto feito, por exemplo um carro, ele dissesse “também sou capaz de fazer um carro com peças soltas”. Fazer à sua maneira um produto como os outros têm não é propriamente arte; isto é só porque tem jeito para a mecânica e bate-chapa, também consegue fazer uma coisa que anda. Não há uma ideia original, uma filosofia de base, uma visão pessoal do mundo que depois é materializada através de processos artísticos. O que há é uma intenção de dizer “eu também faço, mesmo sem ter grande capacidade nem meios”. E por isso me soa confrangedor, parece um Fiat Panda "tuning" montado com peças apanhadas nos salvados. A imagem e a obra deste rapaz têm para mim o mesmo significado duma árvore de Natal feita com garrafas de plástico, montada por crianças do ensino básico, e orientadas por educadoras que pretendem passar a ideia que com isso se está a incutir uma consciência ecológica nos miúdos. Se há uma ideia nem é dele, é de outros mentores, ele só a executa conforme sabe. É tudo tão infantilizado que julgo ser por aí que consegue tocar a sensibilidade do público que o ouve. A criatividade é própria das crianças, e por isso acaba por passar uma sensação de genuinidade, pureza, ideias próprias, de ainda não ter sido socializado como os adultos. É neste ponto que o público "mainstream" aquele que há muito vive numa realidade formatada, alternativa à sua essência humana, se sente tocado pelo Conan. Para mim esta música podia ter sido foi feita com vários microfones espalhados pela Feira Popular que se ligam a uma mesa, onde as pistas são misturadas à sua maneira, amplificadas e vertidas cá para fora. É original pelo facto de misturar ao seu gosto os ruídos alheios, acrescentando mais uma pista de ruído -a sua voz- com palavras que nem precisam de fazer sentido umas com as outras nem sequer no seu todo. Por exemplo: disse na entrevista que ficou fascinado com a palavra bibelot, julgo que seja tanto pelo que significa como pela fonética da palavra. Vamos imaginar: se lhe juntar o som “E” pode “criar” Bibelot de pé, Bibelot no Canapé, Zé do Bibelot, ou Pontapé no Bibelot, só para dar 4 possibilidades. A seguir pega em outras peças giras da Feira da Ladra, raspa-lhes um pedaço ou adiciona-lhes outra coisa, e cola tudo numa sequência ligada com verbos, pronomes, e adjectivos até encher o espaço da pista reservada à voz. Já está, isto é ser original, ninguém se lembrou antes. Como é novo e dá sinais de pouca cultura não deve saber que os Beatles, por exemplo, às vezes usavam esse sistema antes de encontrarem a letra final; durante a fase de composição da música, "Yesterday" cantava-se "Scrumbled Eggs" seguido dum chorrilho de incoerências... Se entretanto lhe explicarem talvez passe a dizer que tem um estilo propositadamente cru, que a sua obra pretende expor as entranhas do processo criativo; mas como pelo que vi não deve saber, aquilo que mostra é uma maquette de qualquer coisa que não tem vergonha de mostrar publicamente a meio do processo, passando por acabado. Também não sei se alguma vez iríamos ouvir o "produto final" (e se seria melhor), não o vejo com nenhuma vontade de seguir caminhos "tradicionais". E mais uma vez, como compreenderão, ao contrário de alguns imbecis eu nunca teria nada a apontar ao aspecto do rapaz, afinal ele até é coerente com o som: rude, com as pontas "por aparar".   

A confusão mental tem implícita a seguinte falácia: esta obra foi feita segundo a lei da sobrevivência com o menor esforço; não é preciso ter concebido uma razão para ela existir, simplesmente faz-se e posteriormente arranja-se a explicação. Não é um processo de elevação mental, artística ou interventiva, é antes um impulso animal, como comer, dormir ou defecar, uma necessidade biológica. A lei da sobrevivência com o menor esforço é a mesma que leva um casal a ter um filho por que calhou, ou sem ter condições para isso. Depois podem justificá-lo de mil e uma maneiras maravilhosas, acima de todas o amor, mas na verdade foi um "vamos a isto e logo se vê". Grande parte desses casais dura no máximo 3 anos antes de se separar, mas as suas "obras" ficam aí toda a vida e até são um empecilho à necessidade de arranjar mais momentos propícios "à criação" com outros parceiros. Quero com este exemplo dizer que o rapaz não tem consciência do que está a fazer, e receber um feedback tão positivo do público significa apenas que as circunstâncias permitem que uma actividade tenha sucesso. O público está farto de determinados modelos, e o modelo do Conan preenche os requisitos para ter sucesso, não significa que o seu modelo seja bom, são duas coisas diferentes. Mas se quem não gosta dele o critica é burro. O rapaz já aí andava e se passou a ter visibilidade é porque as condições para isso se proporcionaram. Por muito que nos justifiquemos com a pobreza do que nos é oferecido, cabe a cada um seleccionar o que come. Se agora estão chateados por terem de o engolir, a "culpa" é do público, não é dele. Inchem!

Quanto mais o tipo de figuras do show biz como o Conan sente necessidade de justificar a sua obra centrando as atenções naquilo que eles próprios são, menos importante é o que produzem. Se a obra vale por si, o seu criador não precisa de a explicar nem desviar constantemente o foco para o seu eu. Senão é só um produto, um produto composto de vários ingredientes, todos importantes para manter a coesão. Façam a seguinte experiência: a imagem do rapaz é o que é mas se a tirarem da equação o que é que fica? Ooops, pois é, a música não vale nada. Façam outra experiência: tirem ou o açúcar, ou a cor, ou o gás, ou a cafeína, ou o design da Coca-Cola. São capazes de jurar que seriam doidos pelo sabor da noz de cola? A minha questão com o Conan é só uma: isto é um produto que não aprecio, de resto não tenho nada contra a pessoa ou o que faz. 

Lembram-se do produto dos irmãos Sobral que esteve no mesmo mercado competitivo? Eu relembro: uma composição inspiradíssima, um arranjo competentíssimo, uma interpretação adequada, independentemente de se gostar ou não das pessoas, do estilo ou da forma, cheira a bom, eleva o espírito. É um modelo que inspira os outros a copiar, a reproduzir, e nesta perspectiva, mesmo sendo só um único produto musical descontextualizado duma obra, chega a ser uma peça de arte. Por isso nesse ano me interessei pelo Festival, o que nunca tinha acontecido antes nem depois. O sucesso da relação entre o Conan Osíris e o público alienado é uma alegoria do dito popular "com ferro matas, com ferro morrerás". O público foi sufocando dentro de si a criatividade e o pensamento crítico que qualquer humano tem, o Conan aparece como um algoz misericordioso que vem acabar com a agonia e ceifar de vez essas coisas. E finalmente para vos provar que não tenho nada contra o rapaz vou-vos contar a minha atitude em relação ao Eurofestival. No ano do Sobral ouvi as primeiras três "canções", aborreci-me e a seguir baixei o som até ele chegar; ouvi-o até ao fim e depois voltei a tirar o som às seguintes. Após o inferno que deve ter sido o desfile musical fiquei com atenção às votações confiante de que ganharia. Lembro-me que em 2019 não ouvi nenhum concorrente, muito menos o Conan, ahahahah. Quando se chegou às votações fiquei atento, confiante de que ganharia. Ganhou! O meu coração ficou na mesma mas o meu cérebro ficou feliz. Afinal o Conan também conseguiu aplicar o mesmo princípio na Europa: com ferro matas, com ferro morrerás. Parabéns. Nesta e noutras actividades Portugal percebeu o caminho para vingar na lógica de mercado 

8.5.13

Fado

Já percebi que isto causa espanto a muita gente mas cá vai: eu como músico e mais concretamente como compositor, raramente ouço música! Tenho a cabeça cheia dela desde que nasci e simplesmente não há espaço para mais cá dentro; se for do mesmo, é fisicamente insuportável! Aquilo que procuro para me distrair é… o silêncio. Se porventura tenho vontade de ouvir música, geralmente é erudita, quase sempre instrumental, qualquer coisa que me deslumbre artisticamente. Quando ouço rádio no carro e procuro outras estações além da Antena 2, a minha motivação é mais a curiosidade mercantil, avaliação da potencial concorrência, ou desejar genuinamente apreciar uma boa ideia, bem trabalhada por técnicos ou arranjadores. Mas aqui não estou a falar de música como arte e sim de entretenimento bem feito. O mesmo se passa em relação a concertos ao vivo: vou a alguns de música erudita e tirando isso chega-me e sobra-me o que eu próprio produzo, não tenho grande motivação para absorver o lixo decibélico dos outros; juro que não é presunção mas apenas um fastio orgânico. 


Com o entretenimento televisivo é igual, seria incapaz de ver mais que cinco minutos de algo que me aborreeeeece (e há muito), e por exemplo, DVDs de espectáculos com bandas ao vivo é para mim uma das coisas mais absurdas da vida. Já ninguém me tenta pôr a assistir a uma coisa dessas mas de vez em quando ainda lá está e comentam "- olha, olha, agora vem o solo dele", um som que já ouvi antes enquanto fico a olhar para um tipo a fazer habilidades com os dedos num bacalhau de madeira ligado à electricidade; o que é que há para ver? Ó pá, a sério? Preferia ver um japonês a tropeçar numa cadeira e a enfiar a cabeça num bolo de chantilly. E já agora, que raio é um concerto unplugged? É um conjunto de bacalhaus de madeira que já ressoam acusticamente mas continuam ligados à corrente? Por amor de Deus, são só truques de marketing… Sou um gajo inculto e seco? Talvez, não me interessa!


Outra coisa que não consigo mesmo é ouvir mais que um fado por trimestre, é como favas guisadas para algumas pessoas. Antigamente o fado cheirava mal, era grosso como um carapau embrulhado numa folha do Diário Popular, misturando o sangue vivo do peixe com tinta das impressoras do Bairro Alto. As letras falavam de nobrezas caceteiras, paixões e facadas, sexo canalha, filhos da puta que meteram os cornos, e era cantado em guetos (e bem, que é o seu lugar); as intérpretes tinham níveis de testosterona mais elevados que eles, aliás, mais elevados que um gorila no cio, envergavam vestes funerárias do pescoço aos pés, possuíam um tórax do tamanho dum barril e as vozes marinadas com o conteúdo do mesmo, geralmente carrascão do Cartaxo ou Teobar. Por acaso, escrevendo sobre isto vem-me uma ligeira nostalgia sobre este tipo de entretenimento… 
Agora e sobretudo depois de se tornar património imaterial da humanidade, o fado cheira a velas aromáticas e a incenso, está em qualquer lounge-cafe com papel de parede às riscas e sofás com design, ouve-se entre chás exóticos e fondues de frutas com chocolate. As letras falam de amor, ah ah ah, sobretudo no sentido fraternal e budista do termo, de jovens que compraram a primeira casa, enfim do que se quiser desde que seja chill e não meta sangue. Os intérpretes fazem yoga no camarim, antes de cantar gargarejam chás delicados feitos com água do Luso, eles têm níveis mais elevados de estrogéneo que elas (vestidas pela Fátima Lopes), e frequentemente há na composição dos acompanhantes um jovem guedelhudo e cheio de estilo a tocar contrabaixo, que mesmo não confessando, preferia estar noutra cena mas enquanto for moda e der para fazer umas tournées ao estrangeiro, em salas tipo CCB, ganha a vida num projecto giro onde o fado é encarado sob uma nova abordagem, cruzando-se com linguagens musicais diversas… e… e… e… Foda-se! Bem me podem encher os ouvidos com ideologias postiças de roupagens, cores, ambiências, que a mim sabem-me sempre a salmão de viveiro acompanhado com legumes ultra-congelados e regados com Lambrusco: o peixe é cor-de-rosa, não tem espinhas, nunca lhe vi o sangue, os legumes têm um tamanho estranhamente formatado e o vinho é doce com bolhinhas internacionais; podia ser aqui ou em Tóquio mas pronto, o de cá tem uma guitarra e uma voz cristalina arrastada em português, logo é fado…



É claro que quando se é excepcional, não interessa se o género é fado ou cantares tradicionais da Conchichina. A forma não interessa, o conteúdo não precisa de ser criado com truques, já lá está. A Amália podia cantar Metallica que tudo ficava soberbo na voz dela; o José Afonso
podia ter cantado Pump up the Jam e nós iríamos sentir a força poética duma mensagem; o Carlos Paredes
podia ter criado Opa Gangnam Style na guitarra que a imaginação dançava por territórios de saudade. Isso é que seria novo fado, de Lisboa, de Coimbra, de todo o lado. A ter que ouvir uma vez por trimestre, que seja o velho fado onde a guitarra rima sempre com uma forma bizarra, e é cantado pelas vetustas Hermínias e Cesaltinas;
ou então cantado pelas novas Sandras de tules dos chineses e os Rubens de sapatos de verniz, que vão aparecendo nas inenarráveis noites do fado (só comparáveis a uma eternidade de festivais de gaitas de foles que é como imagino o inferno), e que nunca saem do guetto como os novos "cleans" fadistas.



Como já antes tinha feito, Pedro Ayres de Magalhães teve a ousadia de criar nos anos 80 um projecto absolutamente original (sem guitarra portuguesa), chamado Madredeus, gerindo-o com um cuidado raro no nosso país. Nunca fui um fã exaltado mas reconheço a valia artística e comercial do produto, bem como a sua coragem. Recentemente ouço desdenhar bastante deste projecto, o que é curioso: a nova vaga do fado pode dizer que não tem nada a ver mas parece-me claramente uma pálida versão da sua ideia mastigada em conjunto com o título de fado; só que ele também não tem culpa que existam aí meninas à pazada, cantando com trinados na voz, que nunca viveram as circunstâncias em que se sente o fado mas julguem que sim, que cresceram a ouvir Madredeus, Dulce Pontes com sintetizadores ou a Whitney Houston e ache que a sua voz pura mas timbrada por gerações de malhão, ruralidade e alcoolismo podem fazer mais sucesso num género como o fado do que no R'n'B. Com este perfil, quem não gosta de cantar em português faz carreiras como a Áurea (lá se perdeu mais uma nova fadista); quem gosta do português vai para o fado. Mas o Pedro não tem culpa que estes todos não sejam fadistas nem saibam bem o que são, o que querem é surfar na onda do sucesso. Este foi um projecto tão importante que posso até jurar que a Amália morreu a pensar que, mesmo não sendo fadista, a Teresa Salgueiro seria a sua melhor herdeira. Já sei que os tempos e as circunstâncias tornam impossível uma nova Amália ou um novo Eusébio mas o resto da malta escusava de ser tão oca.

Assim, parece que a renovação no fado afinal se fará apenas e sempre ao som duma guitarra e com o surgimento de um intérprete único, que se pode dar ao luxo de ultrapassar os limites à sua vontade. O velho tem um estilo e maneirismo conhecidos, não passa daquilo, e o novo que tem aparecido soa-me a fado canção mas agora cantado e tocado por gente culta e bem relacionada nos média nacionais. 

Para terminar gostaria de deixar o meu sincero apreço pelo trabalho de fundamentação ideológica realizado pelo Rui Vieira Nery, pela persistência do presidente e da câmara de Lisboa em levar o fado até ao reconhecimento das instituições internacionais. O trabalho deles está feito e muito bem, os artistas que façam o deles.

21.4.13

Momentos áureos


Há umas semanas, o Fernando Alvim contactou-me aqui no futuro, através da 11ª dimensão, para escrever umas coisas dirigidas a uma rubrica que tem no jornal Metro. Depois de o ter lido na versão on-line, constatei que por razões mais que prováveis de espaço, o texto me foi amputado em 76,43%; verdade seja dita que ninguém me falou em limitações e eu não conhecia o tamanho da rubrica mas por uma questão de coerência na organização do pensamento e da escrita, aproveito para reproduzir aqui integralmente o que lhe enviei. Era suposto relatar cinco dos meus momentos áureos e cinco projectos.


MOMENTOS ÁUREOS

Da inconsciência

Durante a adolescência comecei a conquistar gradualmente alguma independência dos meus pais e consegui convencê-los a deixarem-me ir fazer campismo selvagem… sozinho! Todos os anos lá ia eu para o sudoeste alentejano com a trouxa às costas. Um dia estava na praia a olhar para a ilha do Pessegueiro e pensei "porque raio não haveria eu de lá ir"? Entre a malta que íamos conhecendo, contavam-se lendas sobre o castelo em ruínas, sobre um túnel secreto que ligava a ilha ao continente, tudo muito à moda d'"Os Cinco" da Enyd Blyton; o único problema é que há um mar a separar e nada para nos levar lá. O único problema? Para um imbecil de 15 anos isso não é um problema, é um desafio! Esperei a maré baixa e fui a nadar até lá, a única coisa que levava comigo eram os calções de banho. Após uma travessia complicada cheguei, pesquisei a ilha e finalmente fiquei no sítio mais alto a admirar o oceano sem obstáculos visuais, de costas para os "cobardes" na praia. Só que o silêncio e a solidão fez-me meditar: será isto o que o Neil Armstrong sentiu? Sim, conquistei a Lua… e depois? A vacuidade do objectivo tornou-se claro, o que restou foi uma fanfarronice juvenil masculina! Ou seja: fui à procura da glória e encontrei auto-conhecimento… Já vi no Google Earth que a distância percorrida são uns meros 600 metros, ida e volta (12 piscinas olímpicas) mas recentemente passei lá, vi a ilha da praia e meus amigos: não faço ideia como cheguei e voltei; mesmo assim impressiona!


Eu e o meu irmão quando fugimos de casa e fomos à boleia para Coimbra em cima dos faróis dum Simca 8. Para quem acha estranho, devo recordar que os sobrinhos do Pato Donald viajavam no porta-bagagens do carro do tio, os putos penduravam-se nos eléctricos e ainda hoje se viaja em cima dos comboios na Índia


Do absurdo

Nos primeiros tempos das minhas lides musicais pelos anos 80 com bandas rock, andávamos país fora a fazer espectáculos que muitas vezes eram comprados por agentes locais; apesar de não sermos ninguém em termos mediáticos, esses agentes faziam questão de nos levar a casa deles a jantar e apresentavam-nos à família e amigos que miraculosamente apareciam por acaso naquele dia. Éramos exibidos com tanto orgulho que nós próprios se não tivéssemos discernimento poderíamos julgar que éramos seres importantes; felizmente para a minha saúde mental, eu próprio sempre me senti mais Gungunhana que princesa Diana. Numa dessas ocasiões em plena aldeia do interior alentejano, acabado o repasto em casa do agente, eu e a restante comitiva, músicos, técnicos, etc dirigimo-nos à única tasca da aldeia para as inevitáveis bicas. Ora bem, vamos lá contar entre quem quer e quem não quer café, o que daria aí uns 12. Pedido feito ao dono da tasca, a resposta veio ríspida: "-Isso é que era bom!!! Não fazia mais nada do que ficar aqui a noite toda tirando caféis só para vocês…" Perante isto tivemos de ser criativos e encontrar uma saída, sabem qual foi? Simples: fomos lá dois a dois pedi-los e assim o homem serviu toda a gente.

 
  A carrinha que levou a banda numa viagem ao vulcão dos Capelinhos

Do tempo

Em 1987, com a cabeça cheia de sonhos larguei o sol de Lisboa e fui para a sombria Londres à procura duma carreira musical. Respondi a um anúncio do NME para vocalista duma banda com as características que eu apreciava, fiz a audição e fiquei. No dia do primeiro ensaio marcado para as 15 horas, como qualquer bom português saí de casa 10 minutos antes; devo ter chegado próximo das 15,30h e ninguém aqui consegue imaginar a indignação violenta com que fui recebido: queriam correr-me imediatamente da banda por causa do atraso. Eu nem conseguia reagir tal era a estranheza sobre minha suposta falha e só pensava que "estes gajos não regulam bem". No meio do caos preparatório do linchamento, o guitarrista, lançou a dúvida no ar: "-esperem lá, nós dissemos-lhe 15 ou 15,30h?" Nesse momento as nuvens abriram-se, comecei a ouvir cantatas de Bach e apareceu um anjo que me segredou em português ao ouvido: "-aproveita, pá!" Percebi imediatamente a janela de oportunidade e com a maior desfaçatez do mundo, qual Egas Moniz descalço e de corda ao pescoço respondi com vozinha sumida: "-Pois; a mim disseram-me 15,30h!" Ninguém consegue imaginar a súbita transfiguração do KKK: desfizeram-se em desculpas, todos genuinamente arrependidos de me terem crucificado sem razão. Fiquei tão impressionado com este rigor e tão envergonhado de ter enganado os totós, que desde aí raramente me atraso; quando acontece até fico mal disposto… mesmo em Portugal!




                                     A minha viagem em busca do pote de ouro


Da manutenção da dignidade e candura perante as adversidades

Há uns anos fui a Cuba e aluguei um jipe para andar à solta pela ilha. Logo no primeiro dia perdi-me e pedi ajuda a uns transeuntes; eles perguntaram-me se podia levar uma senhora que me indicaria o caminho. No trajecto fiquei a saber que ela era médica e ganhava 20 dólares por mês; um dólar era a gorjeta normal deixada por quem pedia um café no hotel... Quando chegámos pedi à senhora que aceitasse 20 dólares pelo serviço prestado, levando-me ao destino. Recusou veementemente, mas o que é isso? Também era só um mês de ordenado oferecido por alguém que nunca mais vai ver na vida… Em Havana fui abordado por um indivíduo amistoso que se ofereceu como guia e desconfiado perguntei-lhe quanto me iria custar a "gentileza"; ainda mais desconfiado fiquei quando me disse que era de graça, fazia-o pelo prazer do contacto com estrangeiros. Lá aceitei e entre as várias visitas a sítios de interesse pedi-lhe para me encontrar com músicos; "no big deal", é uma cena nossa, todos os meus colegas o fazem: levamos material para dar, entre cordas, palhetas, etc, qualquer coisa que possa acrescentar alguma dignidade à qualidade artística que geralmente já têm. Ao fim do dia ia deixá-lo quando veio "o" pedido: ora bem, o que será? Já cá faltavam as letras pequeninas do contrato; foi isto que ele disse: "- João, podes ir ali comprar-me um pacote de leite em pó para a minha filha? Dá para 15 dias, custa 6 dólares e se eu for comprar tenho de ficar naquela fila (enorme); se fores tu, por seres estrangeiro com dólares passas à frente…" Este rapaz esteve a tarde toda a servir de guia, a inundar-me o coração de simpatia e isto foi o que ele pediu em troca… Já agora, não sei se disse mas um dólar era a gorjeta normal que se deixava por um café pedido no hotel.



Em viagem de carro com a minha filha pequenina, ao sair duma curva deparamo-nos com uma imagem semelhante a esta, ela aponta para o céu e diz: "-papá, olha ali Deus!"


Dum conceito desconhecido

Não sei se se lembram mas há uns anos houve um programa na SIC chamado "Na casa do Toy"; era um reality-show que retratava o dia-a-dia do artista. Um dia o Toy convidou-me a mim e dois amigos meus para irmos a casa dele, jantarmos em Setúbal e irmos assistir a um jogo entre o seu Vitória e o nosso Sporting; aceitámos, 'bora lá para a palhaçada. Chegados a casa dele sentámo-nos os três num sofá e ficámos à espera. Na sala estava só um puto, um sobrinho do Toy que não parava sossegado: ele era saltos nas cadeiras, golpes de kung-fu no ar, parecia completamente alterado pela presença duma plateia; alguém entrou e disse que "o miúdo é terrível, ah ah ah, vejam só que outro dia partiu o braço à irmã em directo, tá quieto ó não sei quantos"… Mas a inquietação do não sei quantos continuou, embora nós nos tivéssemos mantido completamente indiferentes ao seu espectáculo; até que finalmente chegou a esperada abordagem emocional, é normal, somos todos macacos: os nossos telemóveis estavam em cima duma mesa, o puto estica o braço em direcção a eles e diz "-empresta-me o telemóvel". Eu respondi calmo mas firme: "-Não." A mão dele parou subitamente no ar, ficou extremamente confuso, via-se no olhar que estava a processar mentalmente o conceito da palavra mas o cérebro não conseguia compreendê-la, e ao fim duns segundos em silêncio que pareceram horas só conseguiu dizer: "Não???" "Não" -repeti eu. Recolheu o bracinho e cabisbaixo saiu da sala com a cabeça a entrar em fusão. É natural: "Não"? Que palavra era aquela?

 
Eu e dois amigos vestidos a preceito para viajar até à casa do Toy

PROJECTOS MARAVILHOSOS

1- Já tenho o filho, já escrevi o livro, falta-me plantar a árvore. Talvez seja melhor adiar ao máximo essa acção porque uma vez concluída devo ficar perto de cumprir o meu propósito na vida. Gostaria de plantá-la aqui mas suspeito que o farei noutro continente mais propício ao crescimento.

2- Quando me sair o jackpot do euromilhões fico com 10% para mim, família e amigos e 50% ficam a render de modo a alimentar continuamente duas fundações que levam os outros 40% à cabeça: a primeira vai apoiar projectos artísticos de pessoas sem meios mas com talento, de preferência em português e a segunda vai apoiar projectos de investigação pura na área da ciência. Hoje em dia a maior parte dos crânios trabalham para empresas que apenas desenvolvem produtos comerciais, o que não significa que sejam avanços realmente úteis para a humanidade; às vezes são-no por tabela, como os relacionados com a guerra. Contudo, não desdenharemos o registo de patentes e uma utilização lucrativa de qualquer coisa que se descobrir, a um preço justo. Desconfio que a segunda fundação é uma utopia porque facilmente seríamos destruídos por estados ou por entidades desconhecidas.

3- Uma vez apareceu-me para assinar um contrato de edição que na sua cláusula 16 dizia textualmente: "a editora é detentora dos direitos do artista para o território nacional, todos os países da Terra, sistema solar e espaço que o circunscreve". Só gostava de saber o que é que eles sabem que eu não sei, a sério! Espaço que circunscreve o sistema solar? Dasss! Com a minha esperteza saloia ainda pensei que podia vender CDs à socapa em Júpiter mas agora já sei que nem na galáxia de Andrómeda fujo à jurisdição da editora.

4- Já agora, um dia também gostaria de saber se "eles" andam aí, seja no fundo do mar, dentro da Terra, na Lua, algures no espaço ou noutras dimensões; saber se somos "irmãos" ou um rebanho criado para seu usufruto; saber se alguns de nós sabem disso e são os seus cães de guarda. Saber se vivemos num holograma criado para nos distrair.

5- O quinto projecto é consequência e realiza todos os outros: construir algo que me permita viajar à velocidade da luz, para outras dimensões e por buracos de verme; assim também viajarei no tempo. Irei aos confins do sistema solar para plantar a árvore do projecto 1 e fugir à jurisdição da editora do projecto 3, vou a outras dimensões e portanto realizo o projecto 4, vou à futura sexta-feira e realizo o projecto 2; como bónus vou ao passado, levo o George Michael à Alemanha dos anos 20, apresento-o ao Hitler e meto uma cunha para ele entrar na faculdade de arquitectura de Viena. Podia ser que com as necessidades sexuais e artísticas satisfeitas o palhaço acalmasse, senão morria atropelado num infeliz acidente. Este também promete ser a continuação do primeiro momento áureo e uma prova que temos dificuldade em aprender: uma fanfarronice masculina mas agora... senil.



  
A minha máquina de viajar no tempo


22.12.12

Mais um apocalipse que falhou!


...E pronto lá sobrevivemos a mais um apocalipse! Para os meus três fiéis seguidores não será nenhuma novidade mas para os outros que caiam aqui por acaso, convido-vos a lerem alguns dos textos que já publiquei sobre este assunto e acima de tudo que se lembrem que estou a escrevê-los em 2037, ou seja: se eu estou vivo na Terra daqui a 25 anos, certamente que pelo menos ainda há um quarto de século de vida no planeta pela frente. Sim ainda há vida, muita coisa mantém-se igual mas também ocorreram muitas mudanças e algumas revelações; querem saber?



Arqueólogos descobriram que a fabulosa civilização Maia que durante a semana dominava a estrutura celeste e o funcionamento do universo e ao fim-de-semana jogava futebol com cabeças humanas, afinal não se enganou quanto ao fim do mundo! O que aconteceu foi que com a sua tecnologia de Flintstones simplesmente se acabou a pedra para continuar a esculpir o calendário e por isso ele terminou abruptamente na folha de 21 de Dezembro de 2012…









O famoso chupa-cabras sobre o qual tanto se escreveu e até se tiraram algumas fotos que se provaram posteriormente ser falsas, afinal não é um mito! Ele existe mesmo mas o verdadeiro chupa-cabras é assim como este aqui ao lado















Em 2012 pensávamos que o homem mais poderoso do mundo era o presidente norte-americano, nessa época o Barak Obama. Afinal ele era apenas um holograma que nos iludiu durante anos e nem sequer era humano mas sim um ET! Este é o seu verdadeiro aspecto

















Em 2012, o ministro da economia (de QI), que ninguém sabe o nome nem conhece o frontispício, pensou, pensou e um dia teve uma epifania; eis o momento em que a revelou ao povo: a legislação ambiental da Europa está espartilhada, mais virada para delírios hippies do que preocupada com lucro e por isso os países asiáticos têm indústrias florescentes enquanto a nossa definha. Graças à sua espantosa intervenção, a indústria portuguesa continuou a não produzir um parafuso, o pão alentejano é fabricado em Xangai há décadas mas conseguiram-se alterar os parâmetros ambientais a bem da economia: passámos a armazenar os resíduos radioactivos dos Estados Unidos e agora as melgas do Barreiro têm este aspecto













Depois de ter gozado metade da vida a roubar músicas aos outros enquanto molhava o pão nas sopeiras, Frankenstony, p'ós amigos o Tony, gerou vários Toninhos, chegou ao topo da consagração nacional de fans e vendas mas… faltava-lhe algo; o quê? O afastamento definitivo do espectro da chico-espertice, o reconhecimento dos pares, do poder, do mundo! Assim, com as massas que foi juntando comprou uma orquestra com um nome prestigiado mas que convém não esquecer, está à venda para quem a conseguir pagar; gravar com o trombonista do Prince ou com o técnico de som da Shakira, pff; agora com a orquestra sinfónica de Londres, é de rei. Não conheço o resultado mas deve ser parecido com ver o Abel Xavier a passear em cuecas na catedral de S.Pedro. Francamente não retenho na memória qualquer melodia ou letra do artista, só o nome dele; porquê? Porque imaginem que estão num elevador com outra pessoa e começa a cheirar mal; se eu não fui não preciso de lhe baixar as calças para confirmar. Fui esperto não acham? E original? Ele também: se os espanhóis têm os Iglésias porque é que não podemos ter um clã que assenta na mesma lógica? O pai produz azeite e os filhos Red Bull... Já agora, acham que o Tony parou de lutar? Pois fiquem a saber que anos mais tarde o Presidente da República até lhe chegou a dar uma daquelas medalhas do 10 de Junho! Fogo, essa é que derrotou os detractores… Por ser naturalmente "humilde" nunca o afirmou em público mas através dum aparelho que agora há, o pensómetro, foi escutada na sua cabeça esta discussão com um dos colegas de profissão, um daqueles invejosos do seu sucesso: "- já vendeste tanto como eu? - Não… - Já encheste Olympias e Atlânticos? - Não… - Então cala-te!" Toma e embrulha! Não nasceu nobre mas com feitos acumulados laboriosamente conseguiu comprar um título de comendador; que carreira, hein? Lá vai ele a abrir por aí acima: tchauzinho, pá...

7.6.11

SÓCRATES: YOU'RE FIRED!

Dizem que à falta de opções, a democracia ainda é a melhor forma de governo; plenamente de acordo, nunca conseguiria viver num país regido por uma ditadura mas não me peçam para abraçar entusiasticamente a democracia e acreditar nela. Já a meio dos anos 80, numa cadeira de sociologia política leccionada por Miguel Esteves Cardoso a que eu assistia, aprendi que neste modelo governativo, de facto, o voto, estructuralmente, não muda nada! Tal como fazem os políticos, não me alongarei sobre as razões que levam a isto mas irei simplesmente constatar alguns factos.

Em primeiro lugar, como já se previa e sabia, a crónica vencedora das noites eleitorais foi a abstenção! Voltarei a ela noutro post porque merece uma reflexão mais aprofundada e porque é nela que reside o segredo da ilusão que é a democracia. Vamos agora aos pequenos dramas e glórias pessoais que em concreto nos condicionarão a todos na nossa vida diária. Um dos objectivos destes textos é tentar ver a realidade de outro ângulo (neste caso, através do futuro); muitas vezes só temos consciência disso quando alguém emocionalmente fora, geográfica ou culturalmente nos dá a sua perspectiva.


Hoje ouvi um repórter francês destacado em Portugal há algum tempo comentar as eleições e não podia estar mais de acordo; dizia ele que quando olhou para as televisões e viu o José Alberto Carvalho e a Judite de Sousa na TVI, o Moniz e o Rangel na RTP e o Sousa Tavares na SIC ficou bastante confuso; se me perguntassem ontem em que canal estavam eu também erraria quase tudo. Essa confusão aumentou para o jornalista quando ouviu o discurso de vitória do Passos Coelho: se fechasse os olhos poderia estar a ouvir o Sócrates na sua versão mais esquerdista...

Com maior estrondo do que seria previsível José Sócrates caiu: a soberba e a magia não deram para mais. Em primeiro lugar que fique bem esclarecido o seguinte: pode ser só uma questão de “energias” mas nunca gostei do homem já desde os tempos do Ministério do Ambiente, imaginem o que sentia enquanto primeiro-ministro e ia assistindo a maiorias absolutas, votações expressivas, vitórias por inépcia adversária… Por incrível que pareça, só agora nesta última fase de descalabro senti nele algum espírito patriota e vontade de defender tudo aquilo que ajudou a destruir. Seria só instinto de sobrevivência? Segundo os agentes económicos e políticos foi também a fase em que fez mais porcaria; curioso… A título pessoal, acabou por pagar bem caras a presunção e orgulho que arrastou durante dois mandatos; presunção, porque de facto era o mais brilhante de todos, e porque se deixou apanhar nas teias do orgulho de o ser. Actualmente é difícil encontrar alguém com tanto golpe de rins, maleabilidade, capacidade de iludir e simultaneamente convicção/teimosia para levar até ao fim os seus intentos; ou seja: como político, ficará na história; vamos ver é de que forma… Está bem que Portugal é um país pequeno mas para mim é incrível que Sócrates tenha realizado a sua “obra“ praticamente sozinho, o que numa democracia ocidental do século XXI acaba por ser um feito notável; vamos ver é de que forma…

Por falar em aprender, há um reality show chamado The Apprentice, protagonizado por Donald Trump, famoso milionário norte-americano; o seu lema é "it's nothing personal, it's just business". Qualquer democracia ocidental tende a dirigir-se para o conceito de empresa e um dirigente nacional não será mais que um gestor dessa empresa. Como já percebeu há muito tempo ou talvez só agora, Sócrates não deveria levar muito a peito o ter sido corrido da governação: à partida, como nas grandes empresas, ele só lá foi posto por cunha ou porque "alguém" reparou nele ou no seu talento. A sua substituição não é nada pessoal, a sério, e se ele acha o contrário, veja o que está prestes a acontecer com o colega Zapatero: desde ter perdido as últimas eleições, passando pelo ataque dos pepinos, o fogo manter-se-á cerrado até à sua saída; já é só o único não conservador num governo europeu (embora a questão esquerda/direita também seja hoje um folclore para divertir as massas). Para Sócrates, sair de cena foi o único desfecho possível, chegou ao fim do jogo, e se o fez com dignidade ou falta dela, perdoem-me a insensibilidade à la Trump mas é completamente irrelevante. Parece que ele fez a cama onde haveria de se deitar mas a sua saída também foi legitimada "democraticamente" através do voto popular que sentenciou: "Sócrates: you're fired!

PEDRITO DE PORTUGAL

O grande vencedor do sistema que manda nas nossas vidas foi o Pedro Passos Coelho; vai ser ele a cara laroca que daqui a uns anos já mete nojo e o povo andará a insultar. Alguém duvida que "Passos" e "Coelho" não sejam motes para piadas dada a facilidade que ele próprio tem em se pôr a jeito para o ridículo? Até agora tem passado a imagem que é tão bom rapaz como pateta. Não foi uma maldade interna do partido terem posto a Manuela Ferreira Leite a lutar contra o Sócrates e esperarem o momento certo para ele entrar em cena? Onde é que andaram os apoios internos até chegar a altura ideal de deitar abaixo o odioso primeiro-ministro? O santo Pedro ainda julga que foi tudo obra sua e convence-se de que é ele o Messias; ainda acaba por se convencer que a malta votou nele pela positiva.

É certo que com o tempo esquecer-se-á que era apenas um boneco do maior partido da oposição que concentrou os votos de protesto do povo do "centro"; e aí, meus amigos, preparem-se para assistir a disparates continuados, resultado da constante luta interna entre consciência de humildade e desejo de manifestações do ego. Começou logo na própria noite da vitória eleitoral: primeiro esperou controlada e civilizadamente pela declaração do seu futuro parceiro de governo Paulo Portas e só então apareceu a falar da vitória com um discurso aparentemente humilde; depois da declaração e para surpresa geral abriu as goelas e pôs-se a cantar com a sua linda voz de barítono o hino nacional, após o que voltou à pose séria e institucional para responder às perguntas dos jornalistas. Se a sua actuação terá feito corar de vergonha o Paulinho das feiras, imagino os arrepios na espinha que causou na elite do partido!!!… Durante o dia lá deve ter pensado que precisava de um programinha organizado para causar impacto, uma entrada à maneira, de modo a deixar uma marca da sua personalidade. Não é só por causa deste episódio mas garanto aos humoristas que haverá pano para mangas nos próximos tempos: o seu acentuado auto-controle será quebrado em momentos emocionalmente críticos, expondo uma contradição de carácter que irá fazer rir. E como já manifestou a intenção de se apropriar do Ministério da Cultura, ambição natural para quem é um zero, manda e tem talento circense preparem-se para ter no primeiro-ministro um misto de funcionário público, rei, e bobo da corte. 

A SEGUNDA LINHA

Como dizia um participante num fórum, as pessoas tendem a votar nos partidos como se fossem um clube: eu sou deste, tu és daquele… Por isso, podem mudar os líderes do PS e do PSD que a massa crítica de votantes lhes garante sempre o primeiro ou segundo lugar. Os comunistas ainda são um caso à parte mas caminham a passos largos para o mesmo que os outros partidos de segunda linha, CDS/PP e BE mais posicionados nos extremos: vivem dos seus líderes.

Se tivesse mantido uma linguagem conservadora de direita o CDS andaria ainda a lutar para arranjar deputados suficientes para encher um táxi. Graças à excelente maleabilidade política, uma constante presença mediática, onde se martelam os mesmos assuntos duma forma "serena" e "responsável", Paulo Portas conseguiu formar um carácter único no imaginário do eleitorado que lhe garante uma marca pequena mas registada. Se sair do partido, este volta a ser engolido pelo PSD. Se não forem estúpidos, neste momento deve ser um dos partidos com dirigentes mais reverenciais porque por enquanto vão brincando aos importantes, à pala do Portas…

A esquerda na actual conjuntura está totalmente em desvantagem! A direita pode dizer que quer o bem dos patrões porque estes proporcionarão o bem dos trabalhadores; a esquerda tem princípios mais rígidos e não pode querer o bem dos patrões em primeiro lugar. Não é por acaso que por toda a Europa os partidos de direita têm cimentado as suas posições no contexto de crise em que vivemos. Então, à esquerda resta a opção de resistir e é aqui que se distinguem completamente o papéis e por consequência os resultados obtidos pelo PCP e o BE. Os comunistas têm uma lógica "negativa" nunca na vida irão governar mas o Bloco foi constituído numa lógica "positiva", num futuro ideal poderiam governar ou ser parceiros de governo: são intelectuais de esquerda, com uma visão moderna da esquerda, um modelo social e económico de esquerda… Pois: a conjuntura ultrapassou-os e agora onde é que eles cabem?


Como sempre, a esquerda partiu-se em inúmeras visões e não é por acaso que por isso é vista como mais "culta": pensam por si, são individualistas com um sonho colectivo; na direita pensam todos o mesmo mas com o sonho de se tornarem individualistas. A esquerda neste momento está confinada à resistência, à "negatividade" e quais são os partidos mais bem qualificados para isso? PCP e MRPP! Não é espantoso que o PCP tenha recuperado o quarto lugar e o MRPP tenha sido o primeiro partido a seguir aos grandes? Para mim não. Partidos comunistas têm um líder e uma indistinta massa colectiva a trabalhar para o mesmo, são como uma colmeia (a APU chegou mesmo a ter essa imagem nos seus cartazes).

Ao contrário, no Bloco, há "sensibilidades" e "personalidades" que não tardarão a amolar as lâminas uns contra os outros; são uma esquerda demasiado amaciada com intelectuais e cujos actos concretos enquanto deputados na assembleia não surtiram efeito. No PC e no MR, liderados por um ex-operário metalúrgico e um advogado de causas perdidas, arregaçam-se as mangas, cagam-se paredes e escadas, organiza-se a malta para chamar os bois pelos nomes e literalmente andar à porrada! PCP e MRPP consubstanciam a face legal da ilegalidade e é isso que os pobres querem neste momento; não precisam de discutir o sexo dos anjos mas de guerra, combater o fogo com fogo! Num contexto de prosperidade estes dois não servem para nada mas agora são necessários e os mais confiáveis para essa tarefa; existem há tempos imemoriais, sobreviveram à queda do meteorito, às extinções em massa, lutando sempre com os mesmos dirigentes e... ainda cá estão. Votar neles? É de caras! Nos outros há dúvidas. Para andar à porrada não se vota em símbolos fofinhos ou humanistas mas em foices e martelos!

Na área da esquerda o Bloco desfez-se também para ajudar a construir o PAN, Partido dos Animais e da Natureza uma espantosa surpresa só para quem está fora do contacto com as pessoas sobretudo dos meios urbanos. Enquanto o projecto político do Bloco alimentou o PC e o MRPP, o projecto "positivo" de sociedade encontrou uma via de expressão através do PAN. Para quem não leu o seu programa, a sigla ajudou a captar alguns votos mas também pode ter deitado fora outros: é que o modelo de sociedade proposto vai muito além da designação, embora esta possa resumir o resultado final. Pareceu-me uma proposta inovadora, uma opção real a longínquo prazo e falando em 2011, até revolucionária! Pode demorar séculos a concretizar mas é uma via com futuro, uma das poucas opções possíveis daqui a uns anos. O PAN conseguiu hoje aquilo que mais nenhum outro partido ofereceu aos eleitores: a possibilidade de sonhar com um futuro melhor, uma verdadeira utopia! Será que conseguirá manter vivo o sonho, ou apagar-se-á como tantos outros pequenos se apagaram? (Já sei mas não digo).

17.5.11

NOVAS AVENTURAS DOS CINCO

Como sabem eu vivo em 2036 portanto é do meu conhecimento o resultado das eleições do vosso próximo 5 de Junho; não esperem que o revele aqui, apenas tecerei algumas considerações para que pensem bem no assunto. Quem ganha já toda a gente sabe, portanto digo só que apesar de irmos assistir a algumas trocas na geografia política, não esperem grandes transformações no vosso dia-a-dia; a não ser para muito pior, claro! Preparem-se porque agora é "elas vão morder".

Sócrates. O grande líder socialista tem andado muito mais amargo do que já era: num jogo constante de mentiras de duvidosos objectivos, valha-nos o facto de pelo menos não conseguir esconder publicamente o azedume público que nos é transmitido através da comunicação social; desde a queda do governo que esse azedume se transformou em raiva ácida e se fosse a vocês tinha cuidado para não o enervar muito se estiverem à frente dele! Longe vão os tempos dos delírios narcisistas, do culto duma imagem civilizada que não renegava parecenças físicas com o galã George Clooney. Envelheceu e tornou-se negativo em tudo: foi-se o cabelo grisalho, sobram os brancos, foi-se a vaidade, sobra a presunção, foi-se a confiança na vitória, sobram as ameaças para o PSD de que terão uma grande decepção em Junho, foram-se os PEC's sobrou a porcaria dos restos do FMI; rosnou, rosnou mas lá ficou com o ossito e com ele ainda vai fazer um banquete com o sangue dos adversários até ao dia das eleições. É muito inteligente, ainda torna as dificuldades em oportunidades e agarra-se a tudo o que sabe fazer mossa nos outros; afinal não há osso mais amargo e duro de roer que ele! Acabará enxotado pelos votos no tal domingo mas far-se-á despedir ele próprio assumindo os erros, blá blá blá, congratulando os vencedores, abrindo a porta para novos dirigentes, enfim: a treta do costume. Vai desaparecer de cena até que...




Passos Coelho. O emergente grande líder social-democrata mal se sentiu debaixo dos focos das luzes da ribalta transfigurou-se: passou de um modesto e sombrio político para mais um insuportável vaidoso! Tem remoques, faz ameaças, levanta a voz... Ainda não é governo nem fez a ponta dum corno mas já tem uma biografia onde se auto-intitula o Obama de Massamá! Agora já percebo porque disse que era o "mais africano de todos os candidatos", Ahh ya, pois... faz sentido. A malta é que ainda não tinha lá chegado mas se há traço forte no seu carácter, deve ser a coerência, sim, deve ser, pois... Deixem passar o tempo e logo se vê. O amadorismo e o pé-de-chinelo parecem ensombrar todas as suas acções: da falta de apoio interno ao apoio do Nobre, dos pentelhos do Catroga ao Hitler Sócrates, das gorduras do estado a capacho da troika, tem sido um carnaval de afirmações. É difícil ser-se tão saloio mas este sub...urbano Tino de Rans consegue manter um invejável nível diário de lançamento de pérolas: anteontem deveríamos estar gratos pelo juro do FMI ser tão alto (merecemos um castigo), ontem manifestou a intenção de acabar com o Ministério da Cultura que para ele deve ser uma gordura estúpida que só absorve meios e dinheiro! Se já escreveu um livro, toca viola-baixo e foi casado com uma das Doce porque carga de água não terá tanta ou mais capacidade que muitos dos emproados intelectuais que por lá andaram a "mamar"? Há gajos que dedicam a vida toda a uma obra e há um país com vários gajos e gajas desses que tem um património de séculos mas o Coelho, nos tempos livres é que vai gerir isso tudo. Se não fosse tão ridículo era para chorar mas no mínimo convençam-se do seguinte: o traço mais marcante deste homem revelar-se-á numa terrível luta interna entre o desejo de brilhar e a educação/limitação que o faz manter-se humilde; que drama... Vem aí um capacho, um cãozinho ordeiro que quer mostrar serviço aos donos. Quem são os donos? Pfff nem eu sei, nem sei se ele próprio sabe, tal é o nível de domesticação que atingiu: são entidades como os espíritos, não têm forma nem as suas moléculas se reúnem numa matéria identificável; apenas sei que governam o mundo através do poder económico.


   

Paulo Portas. Só na república das Bananas isto seria possível: Santana Lopes "esqueceu-se" de o avisar que seria ministro do Mar e antes, no governo de Durão Barroso, Paulo Portas foi Ministro da Defesa, um indivíduo com mais esqueletos no armário que a Família Adams. Todas as pastas ministeriais são vulneráveis ao controle externo mas a da Defesa é a mais emblemática, certo? Não deveriam ser designadas para esses cargos as pessoas potencialmente menos corruptíveis? Se fossem só os submarinos alemães os únicos corpos escondidos... Como prova a própria carreira de Barroso, essa foi uma escolha feita a dedo. Assim, se algum dos escolhidos fugir às orientações dos seus donos já sabe que tem sempre a ameaça do escândalo ali ao virar da esquina; é garantia total de que se "Portam bem". Depois de ter vivido os seus momentos de glória como ministro e ter sido largado depois de usado, eis que Portas volta à carga e não é com pouco: atira-se sem pudor à hipótese de ser Primeiro-ministro, arroga-se nesse direito! Julgo que como acontece no futebol muitas vezes, o que ele está a fazer é um "discurso para dentro": está a lembrar aos seus donos que se portou bem no passado e perante a desconfiança deles em relação aos outros dois, vai mostrando que pode ser uma alternativa a pensar, assim lhe dêem oportunidade. Tem a maquinazinha dele toda montada, as sondagens, os estudos de imagem, etc e agora anda a passear uma pose de verdadeiro estadista moderno ocidental, com três ou quatro frases-chave, falando para as câmaras de TV com um capacete na cabeça se visita um estaleiro ou dando sem pudor uma beijoca na bochecha duma velha suada se visita uma feira; são fragmentos de imagens que ficam na retina dos eleitores (segundo os racionais estudos dos especialistas). Anda confiante num bom resultado, provavelmente com razão, já que as condições de crise económica favorecem as palermices oportunistas de direita. Uma coisa é certa: ganhar não ganha mas vai ficar colado aos vencedores; quanto apostam?...




Francisco Louçã. Por um lado lembra-me um Álvaro Cunhal do século XXI e por outro parece uma "sandes" mista de destreza mental, vocação eclesiástica e a boca cheia de "esquerda"; faz falta ao espectro político uma esquerda activa, sim, e ele tem sido o polícia de serviço mas se morresse, naqueles milésimos de segundo em que a vida passa num flash antes de abandonar o corpo iria perceber que o seu voluntarismo e espírito de missão fizeram com que fosse sempre enganado, até pelos seus correlegionários. Consigo imaginá-lo rodeado de novas tecnologias, jovens portugueses inteligentes, jovens criativos, jovens tolerantes, jovens com vontade de mudar, jovens sem causa e jovens com causa mas o facto é que tanta juventude e amálgama de interesses paga-se cara: quando se trata de agir no jogo político têm sido os papalvos de serviço! Fazem sempre aquilo que se espera que façam. Mesmo tendo em conta as previsíveis posições do Partido Comunista, o Bloco de Esquerda acaba por ser o partido mais controlável, sobretudo porque acha que não é. É tão óbvio que deve dar uma grande vontade de rir à matilha do poder. Toda a agenda do Bloco pode ser controlada: primeiro, porque na perspectiva de quem está no poder, as suas propostas são irrealizáveis, e segundo, se quiserem levá-los a votar verde, basta ameaçar com vermelho. Por falar em ameaça: pode ser que me engane mas o seu resultado eleitoral cheira-me a desgraça; lembram-se do PRD do Eanes, confiante antes de deitar abaixo o então governo? Na altura a populaça do centro (a que decide governos) também já estava farta de esquerda.




Jerónimo de Sousa. O Partido Comunista é um equívoco vivo mas não tenho a mais pequena dúvida que Jerónimo de Sousa é uma pessoa verdadeiramente afável e sensível; consigo imaginá-lo a dormir mal à noite sabendo que não sei quantas funcionárias não sei de que empresa foram para a rua. O problema é que o partido está aprisionado numa lógica da qual não se consegue libertar: tem orgulho no passado, quer-se modernizar mas não tem como; se tentassem apresentar uma linguagem "mais moderna" estariam a ser falsos, coisa que nunca farão. Novas tecnologias para o PCP é a "internet e isso assim"... Já mudaram para APU, CDU, mudaram para a cor azul mas toda a gente sabe que são comunistas e vermelhos; não vale a pena... Estão em aparente desvantagem em relação ao Bloco de Esquerda, excepto numa coisa: anjinhos é que não são! Já cá andam há muito tempo e têm sabido manter-se vivos, aglutinados, negociando posições mesmo depois do colapso da ideologia que lhes deu origem. Como os crocodilos que já existiam antes dos dinossauros, sabem esperar a sua vez, viram opções à esquerda aparecer, desaparecer e eles ainda se mantêm; condições sociais favoráveis não faltarão de futuro para que se possam levantar um pouco mais. Mas... não passam disto, brilham como o fogo fátuo. 

3.5.11

O REI LEÃO

No dia 2 de Maio de 2011 o presidente norte-americano anunciou a morte do terrorista mais procurado de sempre. Nesse dia, lembro-me que gostaria, como todo o mundo, de me sentir sinceramente aliviado pela notícia mas não conseguia mandar embora uma estranha sensação de cheiro a esturro. Vamos a ver se entendi: o Obama matou o Osama? Certo: mas quem é o Obama, desculpem, quem é o Osama? Aliás quem são os O_amas? A única coisa que sei é que um representa o bem e outro o mal…

Como já não sou bebé, sei que o mundo não se define a preto e branco e o que há mais até, são zonas cinzentas; os arquétipos têm servido para nos ensinar, educar e orientar moralmente mas num estágio mais adulto, a nossa experiência e capacidade de raciocínio permite-nos ver e dissertar sobre o que não vemos. O modo como em geral as notícias nos são dadas e em particular sobre este caso levam-me a suspeitar que o modelo simplista de mal e bem está deliberadamente a ser doutrinado para a populaça.

Aparentemente, ambos tiveram berço humilde mas enquanto a origem do Osama aparece bem documentada, a do Obama anda envolta em mistério; Osama significa leão, Obama nasceu sob o signo do leão. Curiosamente, os seus destinos levam para caminhos opostos: enquanto a vida do Obama aparece bem documentada, a do Osama anda envolta em mistério… O que é que se passa aqui? Bom, isso não faço ideia mas sei que ambos têm um espectacular poder de comunicação, um na sombra, outro debaixo das luzes da ribalta e pelo facto de serem dois zés-ninguém leva-me a pensar que serão apenas representações! Já nem quero chegar ao ponto de especular se serão reais mas esforçando-me por ser um pouco mais pragmático, o facto é que não passam de testas-de-ferro de um poder único, esse sim com pedigree!

A semana que passou foi pródiga em diversão mediática, olá se foi!!! A 29 de Abril na Europa o casamento do príncipe inglês, o do reino dos três leões, com lua-de-mel marcada para o Médio Oriente e a 30 de Abril, véspera de feriado no mundo inteiro, nos Estados Unidos um jantar na casa branca com várias celebridades do mundo do espectáculo, políticos, homens de negócios, etc. Nesse jantar o presidente fez uma piada acerca da sua certidão de nascimento, apresentando a prova irrefutável da sua veracidade: mostrou um trecho do filme da Disney, "O Rei Leão", onde se faz passar por Simba, o jovem leãozinho herdeiro do trono da selva e arruma a questão, ao ridicularizar os seus detractores; segundo as notícias que nos fornecem, foi na noite de 30 de Abril que Obama ordenou a operação que culminaria na madrugada de 2 de Maio com o anúncio da morte da encarnação do mal, Osama, ou neste caso Scar (o que deixou uma cicatriz no coração da população mundial), o maquiavélico tio de Simba que manteve um reinado de terror. Caramba, isto é mais que um filme, é um gozo puro, uma autêntica palhaçada mediática, anunciar o que vai fazer com um filme da Disney...


Querem mais? Dia 1 de Maio João Paulo II foi beatificado e a 30 de Abril, há 66 anos (ui, só falta outro 6...) Hitler suicidou-se embora a sua morte só tenha sido anunciada ao mundo a… 2 de Maio, voilá! É "chato" mas as sacanas das coincidências têm tendência a serem fabricadas e a salpicar aqui e ali estes acontecimentos. Assim, os que foram educados para serem exímios na comunicação e na prestação de serviços aos seus superiores têm todo o apoio dos simbolismos, dos meios e das celebridades disponíveis; como contrapartida podem vangloriar-se de ficar na história.

Eu não sei mas se fosse a vocês não gostaria de ser tratado como uma criança (de facto é como gado) e desconfiava de tanta coincidência, de tanta historinha engraçada. Passava uma vista de olhos pelas notícias mais pequenas desses dias, assuntos que não chamaram tanto a atenção, sei lá, avanços científicos, decisões políticas que parecem inócuas, ambiente… Pode ser que aí se encontrem alguns dados para pensar ou até algumas peças que faltam para completar o puzzle porque a história e as ciências provam que é natural para quem está no topo da cadeia alimentar, usar e divertir-se com os outros seres abaixo. E o que me parece é que isto tudo tem sido uma história pegada para nos adormecer antes do abate... 


P.S. Ah, ah, ah, também estou na fila do matadouro mas pelo menos vou-me rindo: noutra vertente, não há-de tardar quem diga que a morte do terrível leão seja o primeiro milagre do agora beato João Paulo II... Não admira: nesta história há despojos suficientes para distribuir por todos os sectores do controle de massas!

14.4.11

OS SENHORES DO TEMPO- 1ª PARTE

Nas férias da Páscoa, em 2011 a minha filha ligou-me de casa da avó às 8 horas da manhã e parecendo-me que estava a acordar disse-me com uma voz dramática e grave: "- Pai, ontem estava no computador, deixei-o ligado e saí mais ou menos por uma hora; quando cheguei estava tudo morto!!!" Confesso que fiquei um pouco preocupado e perguntei-lhe: "- Tudo morto o quê? O computador, o ecrã, a impressora?…" enquanto em milésimos de segundo no meu cérebro saltitavam em pânico opções cada vez mais absurdas (as flores lá de casa, animais de estimação que não existem, a avó?)… "-Não, pai: os Sims! (Para quem não sabe, os Sims são um jogo electrónico de simulação de vida, onde se podem criar e controlar as vidas de pessoas virtuais) Continuando: "- Deixei o jogo em play e quando cheguei estavam contas por pagar, trabalhos de casa espalhados pelo chão, restos de comida por todo o lado e três túmulos dentro de casa…"

Podemos pensar que este jogo mostra uma perspectiva redutora da vida mas, no mínimo, o seu criador fornece entretenimento juntamente com o seu ponto de vista pessoal. Apesar de ser só um jogo, logo submetido a uma lógica comercial e que a mim em particular não aquece nem arrefece, consigo encontrar inúmeras analogias com a vida "real". Porquê real entre aspas? Como sabem vivo no ano 2036, portanto o que vou dizer não é resultado de qualquer brilhantismo intelectual mas sim fruto do conhecimento desta época: que se saiba, existem 11 dimensões, ao contrário das 3 que julgávamos existentes em 2011; por isso vos escrevo a partir do futuro como se estivesse aí. Onze dimensões parecem-vos absurdas?

Experimentem desenhar uma paisagem com várias pessoas numa folha de papel; esse desenho é uma representação da realidade a duas dimensões, comprimento e largura, certo? Agora imaginem que essas pessoas na folha de papel tinham realmente vida; como acham que elas percepcionariam o mundo onde estão? A duas dimensões! Ou seja: se continuássemos a desenhar, essas pessoas que viam o mundo a duas dimensões simplesmente constatariam que novos riscos tinham sido acrescentados, sem conseguir perceber como eles lá foram parar. Num estágio civilizacional avançado deste micro-cosmos, talvez as suas leis da física explicassem muita coisa mas só uma teorização matemática muito evoluída faria com que eles compreendessem, mesmo sem continuar a ver, que aqueles riscos só poderiam ser feitos por algo que possuísse mais uma dimensão. Não se esqueçam que apesar de suspeitarem da existência desse tal objecto (o lápis) a única coisa que eles poderiam ambicionar alguma vez ver seria o (para nós) microscópico ponto de contacto da ponta do lápis com o papel, nunca o objecto tridimensional em si.


E que dizer das questões filosófico/religiosas que seriam levantadas acerca disto? O tal "lápis" faz o desenho sozinho ou há alguém a manipulá-lo? E finalmente, qual é o objectivo de qualquer uma destas duas identidades, o deus que desenha ou o deus que manipula o que desenha? Mal sabem eles que o seu criador pode ser uma criança na escola e que o desenho foi feito por esse deus mas mandado executar por um outro superior. E assim sucessivamente… Bom, pelo menos já sabem que se algum dos vossos rabiscos de infância se incendiar ou explodir sozinho foi porque atingiram um grau de civilização elevado que os levou à auto-destruição…