8.5.13

Fado

Já percebi que isto causa espanto a muita gente mas cá vai: eu como músico e mais concretamente como compositor, raramente ouço música! Tenho a cabeça cheia dela desde que nasci e simplesmente não há espaço para mais cá dentro; se for do mesmo, é fisicamente insuportável! Aquilo que procuro para me distrair é… o silêncio. Se porventura tenho vontade de ouvir música, geralmente é erudita, quase sempre instrumental, qualquer coisa que me deslumbre artisticamente. Quando ouço rádio no carro e procuro outras estações além da Antena 2, a minha motivação é mais a curiosidade mercantil, avaliação da potencial concorrência, ou desejar genuinamente apreciar uma boa ideia, bem trabalhada por técnicos ou arranjadores. Mas aqui não estou a falar de música como arte e sim de entretenimento bem feito. O mesmo se passa em relação a concertos ao vivo: vou a alguns de música erudita e tirando isso chega-me e sobra-me o que eu próprio produzo, não tenho grande motivação para absorver o lixo decibélico dos outros; juro que não é presunção mas apenas um fastio orgânico. 


Com o entretenimento televisivo é igual, seria incapaz de ver mais que cinco minutos de algo que me aborreeeeece (e há muito), e por exemplo, DVDs de espectáculos com bandas ao vivo é para mim uma das coisas mais absurdas da vida. Já ninguém me tenta pôr a assistir a uma coisa dessas mas de vez em quando ainda lá está e comentam "- olha, olha, agora vem o solo dele", um som que já ouvi antes enquanto fico a olhar para um tipo a fazer habilidades com os dedos num bacalhau de madeira ligado à electricidade; o que é que há para ver? Ó pá, a sério? Preferia ver um japonês a tropeçar numa cadeira e a enfiar a cabeça num bolo de chantilly. E já agora, que raio é um concerto unplugged? É um conjunto de bacalhaus de madeira que já ressoam acusticamente mas continuam ligados à corrente? Por amor de Deus, são só truques de marketing… Sou um gajo inculto e seco? Talvez, não me interessa!


Outra coisa que não consigo mesmo é ouvir mais que um fado por trimestre, é como favas guisadas para algumas pessoas. Antigamente o fado cheirava mal, era grosso como um carapau embrulhado numa folha do Diário Popular, misturando o sangue vivo do peixe com tinta das impressoras do Bairro Alto. As letras falavam de nobrezas caceteiras, paixões e facadas, sexo canalha, filhos da puta que meteram os cornos, e era cantado em guetos (e bem, que é o seu lugar); as intérpretes tinham níveis de testosterona mais elevados que eles, aliás, mais elevados que um gorila no cio, envergavam vestes funerárias do pescoço aos pés, possuíam um tórax do tamanho dum barril e as vozes marinadas com o conteúdo do mesmo, geralmente carrascão do Cartaxo ou Teobar. Por acaso, escrevendo sobre isto vem-me uma ligeira nostalgia sobre este tipo de entretenimento… 
Agora e sobretudo depois de se tornar património imaterial da humanidade, o fado cheira a velas aromáticas e a incenso, está em qualquer lounge-cafe com papel de parede às riscas e sofás com design, ouve-se entre chás exóticos e fondues de frutas com chocolate. As letras falam de amor, ah ah ah, sobretudo no sentido fraternal e budista do termo, de jovens que compraram a primeira casa, enfim do que se quiser desde que seja chill e não meta sangue. Os intérpretes fazem yoga no camarim, antes de cantar gargarejam chás delicados feitos com água do Luso, eles têm níveis mais elevados de estrogéneo que elas (vestidas pela Fátima Lopes), e frequentemente há na composição dos acompanhantes um jovem guedelhudo e cheio de estilo a tocar contrabaixo, que mesmo não confessando, preferia estar noutra cena mas enquanto for moda e der para fazer umas tournées ao estrangeiro, em salas tipo CCB, ganha a vida num projecto giro onde o fado é encarado sob uma nova abordagem, cruzando-se com linguagens musicais diversas… e… e… e… Foda-se! Bem me podem encher os ouvidos com ideologias postiças de roupagens, cores, ambiências, que a mim sabem-me sempre a salmão de viveiro acompanhado com legumes ultra-congelados e regados com Lambrusco: o peixe é cor-de-rosa, não tem espinhas, nunca lhe vi o sangue, os legumes têm um tamanho estranhamente formatado e o vinho é doce com bolhinhas internacionais; podia ser aqui ou em Tóquio mas pronto, o de cá tem uma guitarra e uma voz cristalina arrastada em português, logo é fado…



É claro que quando se é excepcional, não interessa se o género é fado ou cantares tradicionais da Conchichina. A forma não interessa, o conteúdo não precisa de ser criado com truques, já lá está. A Amália podia cantar Metallica que tudo ficava soberbo na voz dela; o José Afonso
podia ter cantado Pump up the Jam e nós iríamos sentir a força poética duma mensagem; o Carlos Paredes
podia ter criado Opa Gangnam Style na guitarra que a imaginação dançava por territórios de saudade. Isso é que seria novo fado, de Lisboa, de Coimbra, de todo o lado. A ter que ouvir uma vez por trimestre, que seja o velho fado onde a guitarra rima sempre com uma forma bizarra, e é cantado pelas vetustas Hermínias e Cesaltinas;
ou então cantado pelas novas Sandras de tules dos chineses e os Rubens de sapatos de verniz, que vão aparecendo nas inenarráveis noites do fado (só comparáveis a uma eternidade de festivais de gaitas de foles que é como imagino o inferno), e que nunca saem do guetto como os novos "cleans" fadistas.



Como já antes tinha feito, Pedro Ayres de Magalhães teve a ousadia de criar nos anos 80 um projecto absolutamente original (sem guitarra portuguesa), chamado Madredeus, gerindo-o com um cuidado raro no nosso país. Nunca fui um fã exaltado mas reconheço a valia artística e comercial do produto, bem como a sua coragem. Recentemente ouço desdenhar bastante deste projecto, o que é curioso: a nova vaga do fado pode dizer que não tem nada a ver mas parece-me claramente uma pálida versão da sua ideia mastigada em conjunto com o título de fado; só que ele também não tem culpa que existam aí meninas à pazada, cantando com trinados na voz, que nunca viveram as circunstâncias em que se sente o fado mas julguem que sim, que cresceram a ouvir Madredeus, Dulce Pontes com sintetizadores ou a Whitney Houston e ache que a sua voz pura mas timbrada por gerações de malhão, ruralidade e alcoolismo podem fazer mais sucesso num género como o fado do que no R'n'B. Com este perfil, quem não gosta de cantar em português faz carreiras como a Áurea (lá se perdeu mais uma nova fadista); quem gosta do português vai para o fado. Mas o Pedro não tem culpa que estes todos não sejam fadistas nem saibam bem o que são, o que querem é surfar na onda do sucesso. Este foi um projecto tão importante que posso até jurar que a Amália morreu a pensar que, mesmo não sendo fadista, a Teresa Salgueiro seria a sua melhor herdeira. Já sei que os tempos e as circunstâncias tornam impossível uma nova Amália ou um novo Eusébio mas o resto da malta escusava de ser tão oca.

Assim, parece que a renovação no fado afinal se fará apenas e sempre ao som duma guitarra e com o surgimento de um intérprete único, que se pode dar ao luxo de ultrapassar os limites à sua vontade. O velho tem um estilo e maneirismo conhecidos, não passa daquilo, e o novo que tem aparecido soa-me a fado canção mas agora cantado e tocado por gente culta e bem relacionada nos média nacionais. 

Para terminar gostaria de deixar o meu sincero apreço pelo trabalho de fundamentação ideológica realizado pelo Rui Vieira Nery, pela persistência do presidente e da câmara de Lisboa em levar o fado até ao reconhecimento das instituições internacionais. O trabalho deles está feito e muito bem, os artistas que façam o deles.