21.4.13

Momentos áureos


Há umas semanas, o Fernando Alvim contactou-me aqui no futuro, através da 11ª dimensão, para escrever umas coisas dirigidas a uma rubrica que tem no jornal Metro. Depois de o ter lido na versão on-line, constatei que por razões mais que prováveis de espaço, o texto me foi amputado em 76,43%; verdade seja dita que ninguém me falou em limitações e eu não conhecia o tamanho da rubrica mas por uma questão de coerência na organização do pensamento e da escrita, aproveito para reproduzir aqui integralmente o que lhe enviei. Era suposto relatar cinco dos meus momentos áureos e cinco projectos.


MOMENTOS ÁUREOS

Da inconsciência

Durante a adolescência comecei a conquistar gradualmente alguma independência dos meus pais e consegui convencê-los a deixarem-me ir fazer campismo selvagem… sozinho! Todos os anos lá ia eu para o sudoeste alentejano com a trouxa às costas. Um dia estava na praia a olhar para a ilha do Pessegueiro e pensei "porque raio não haveria eu de lá ir"? Entre a malta que íamos conhecendo, contavam-se lendas sobre o castelo em ruínas, sobre um túnel secreto que ligava a ilha ao continente, tudo muito à moda d'"Os Cinco" da Enyd Blyton; o único problema é que há um mar a separar e nada para nos levar lá. O único problema? Para um imbecil de 15 anos isso não é um problema, é um desafio! Esperei a maré baixa e fui a nadar até lá, a única coisa que levava comigo eram os calções de banho. Após uma travessia complicada cheguei, pesquisei a ilha e finalmente fiquei no sítio mais alto a admirar o oceano sem obstáculos visuais, de costas para os "cobardes" na praia. Só que o silêncio e a solidão fez-me meditar: será isto o que o Neil Armstrong sentiu? Sim, conquistei a Lua… e depois? A vacuidade do objectivo tornou-se claro, o que restou foi uma fanfarronice juvenil masculina! Ou seja: fui à procura da glória e encontrei auto-conhecimento… Já vi no Google Earth que a distância percorrida são uns meros 600 metros, ida e volta (12 piscinas olímpicas) mas recentemente passei lá, vi a ilha da praia e meus amigos: não faço ideia como cheguei e voltei; mesmo assim impressiona!


Eu e o meu irmão quando fugimos de casa e fomos à boleia para Coimbra em cima dos faróis dum Simca 8. Para quem acha estranho, devo recordar que os sobrinhos do Pato Donald viajavam no porta-bagagens do carro do tio, os putos penduravam-se nos eléctricos e ainda hoje se viaja em cima dos comboios na Índia


Do absurdo

Nos primeiros tempos das minhas lides musicais pelos anos 80 com bandas rock, andávamos país fora a fazer espectáculos que muitas vezes eram comprados por agentes locais; apesar de não sermos ninguém em termos mediáticos, esses agentes faziam questão de nos levar a casa deles a jantar e apresentavam-nos à família e amigos que miraculosamente apareciam por acaso naquele dia. Éramos exibidos com tanto orgulho que nós próprios se não tivéssemos discernimento poderíamos julgar que éramos seres importantes; felizmente para a minha saúde mental, eu próprio sempre me senti mais Gungunhana que princesa Diana. Numa dessas ocasiões em plena aldeia do interior alentejano, acabado o repasto em casa do agente, eu e a restante comitiva, músicos, técnicos, etc dirigimo-nos à única tasca da aldeia para as inevitáveis bicas. Ora bem, vamos lá contar entre quem quer e quem não quer café, o que daria aí uns 12. Pedido feito ao dono da tasca, a resposta veio ríspida: "-Isso é que era bom!!! Não fazia mais nada do que ficar aqui a noite toda tirando caféis só para vocês…" Perante isto tivemos de ser criativos e encontrar uma saída, sabem qual foi? Simples: fomos lá dois a dois pedi-los e assim o homem serviu toda a gente.

 
  A carrinha que levou a banda numa viagem ao vulcão dos Capelinhos

Do tempo

Em 1987, com a cabeça cheia de sonhos larguei o sol de Lisboa e fui para a sombria Londres à procura duma carreira musical. Respondi a um anúncio do NME para vocalista duma banda com as características que eu apreciava, fiz a audição e fiquei. No dia do primeiro ensaio marcado para as 15 horas, como qualquer bom português saí de casa 10 minutos antes; devo ter chegado próximo das 15,30h e ninguém aqui consegue imaginar a indignação violenta com que fui recebido: queriam correr-me imediatamente da banda por causa do atraso. Eu nem conseguia reagir tal era a estranheza sobre minha suposta falha e só pensava que "estes gajos não regulam bem". No meio do caos preparatório do linchamento, o guitarrista, lançou a dúvida no ar: "-esperem lá, nós dissemos-lhe 15 ou 15,30h?" Nesse momento as nuvens abriram-se, comecei a ouvir cantatas de Bach e apareceu um anjo que me segredou em português ao ouvido: "-aproveita, pá!" Percebi imediatamente a janela de oportunidade e com a maior desfaçatez do mundo, qual Egas Moniz descalço e de corda ao pescoço respondi com vozinha sumida: "-Pois; a mim disseram-me 15,30h!" Ninguém consegue imaginar a súbita transfiguração do KKK: desfizeram-se em desculpas, todos genuinamente arrependidos de me terem crucificado sem razão. Fiquei tão impressionado com este rigor e tão envergonhado de ter enganado os totós, que desde aí raramente me atraso; quando acontece até fico mal disposto… mesmo em Portugal!




                                     A minha viagem em busca do pote de ouro


Da manutenção da dignidade e candura perante as adversidades

Há uns anos fui a Cuba e aluguei um jipe para andar à solta pela ilha. Logo no primeiro dia perdi-me e pedi ajuda a uns transeuntes; eles perguntaram-me se podia levar uma senhora que me indicaria o caminho. No trajecto fiquei a saber que ela era médica e ganhava 20 dólares por mês; um dólar era a gorjeta normal deixada por quem pedia um café no hotel... Quando chegámos pedi à senhora que aceitasse 20 dólares pelo serviço prestado, levando-me ao destino. Recusou veementemente, mas o que é isso? Também era só um mês de ordenado oferecido por alguém que nunca mais vai ver na vida… Em Havana fui abordado por um indivíduo amistoso que se ofereceu como guia e desconfiado perguntei-lhe quanto me iria custar a "gentileza"; ainda mais desconfiado fiquei quando me disse que era de graça, fazia-o pelo prazer do contacto com estrangeiros. Lá aceitei e entre as várias visitas a sítios de interesse pedi-lhe para me encontrar com músicos; "no big deal", é uma cena nossa, todos os meus colegas o fazem: levamos material para dar, entre cordas, palhetas, etc, qualquer coisa que possa acrescentar alguma dignidade à qualidade artística que geralmente já têm. Ao fim do dia ia deixá-lo quando veio "o" pedido: ora bem, o que será? Já cá faltavam as letras pequeninas do contrato; foi isto que ele disse: "- João, podes ir ali comprar-me um pacote de leite em pó para a minha filha? Dá para 15 dias, custa 6 dólares e se eu for comprar tenho de ficar naquela fila (enorme); se fores tu, por seres estrangeiro com dólares passas à frente…" Este rapaz esteve a tarde toda a servir de guia, a inundar-me o coração de simpatia e isto foi o que ele pediu em troca… Já agora, não sei se disse mas um dólar era a gorjeta normal que se deixava por um café pedido no hotel.



Em viagem de carro com a minha filha pequenina, ao sair duma curva deparamo-nos com uma imagem semelhante a esta, ela aponta para o céu e diz: "-papá, olha ali Deus!"


Dum conceito desconhecido

Não sei se se lembram mas há uns anos houve um programa na SIC chamado "Na casa do Toy"; era um reality-show que retratava o dia-a-dia do artista. Um dia o Toy convidou-me a mim e dois amigos meus para irmos a casa dele, jantarmos em Setúbal e irmos assistir a um jogo entre o seu Vitória e o nosso Sporting; aceitámos, 'bora lá para a palhaçada. Chegados a casa dele sentámo-nos os três num sofá e ficámos à espera. Na sala estava só um puto, um sobrinho do Toy que não parava sossegado: ele era saltos nas cadeiras, golpes de kung-fu no ar, parecia completamente alterado pela presença duma plateia; alguém entrou e disse que "o miúdo é terrível, ah ah ah, vejam só que outro dia partiu o braço à irmã em directo, tá quieto ó não sei quantos"… Mas a inquietação do não sei quantos continuou, embora nós nos tivéssemos mantido completamente indiferentes ao seu espectáculo; até que finalmente chegou a esperada abordagem emocional, é normal, somos todos macacos: os nossos telemóveis estavam em cima duma mesa, o puto estica o braço em direcção a eles e diz "-empresta-me o telemóvel". Eu respondi calmo mas firme: "-Não." A mão dele parou subitamente no ar, ficou extremamente confuso, via-se no olhar que estava a processar mentalmente o conceito da palavra mas o cérebro não conseguia compreendê-la, e ao fim duns segundos em silêncio que pareceram horas só conseguiu dizer: "Não???" "Não" -repeti eu. Recolheu o bracinho e cabisbaixo saiu da sala com a cabeça a entrar em fusão. É natural: "Não"? Que palavra era aquela?

 
Eu e dois amigos vestidos a preceito para viajar até à casa do Toy

PROJECTOS MARAVILHOSOS

1- Já tenho o filho, já escrevi o livro, falta-me plantar a árvore. Talvez seja melhor adiar ao máximo essa acção porque uma vez concluída devo ficar perto de cumprir o meu propósito na vida. Gostaria de plantá-la aqui mas suspeito que o farei noutro continente mais propício ao crescimento.

2- Quando me sair o jackpot do euromilhões fico com 10% para mim, família e amigos e 50% ficam a render de modo a alimentar continuamente duas fundações que levam os outros 40% à cabeça: a primeira vai apoiar projectos artísticos de pessoas sem meios mas com talento, de preferência em português e a segunda vai apoiar projectos de investigação pura na área da ciência. Hoje em dia a maior parte dos crânios trabalham para empresas que apenas desenvolvem produtos comerciais, o que não significa que sejam avanços realmente úteis para a humanidade; às vezes são-no por tabela, como os relacionados com a guerra. Contudo, não desdenharemos o registo de patentes e uma utilização lucrativa de qualquer coisa que se descobrir, a um preço justo. Desconfio que a segunda fundação é uma utopia porque facilmente seríamos destruídos por estados ou por entidades desconhecidas.

3- Uma vez apareceu-me para assinar um contrato de edição que na sua cláusula 16 dizia textualmente: "a editora é detentora dos direitos do artista para o território nacional, todos os países da Terra, sistema solar e espaço que o circunscreve". Só gostava de saber o que é que eles sabem que eu não sei, a sério! Espaço que circunscreve o sistema solar? Dasss! Com a minha esperteza saloia ainda pensei que podia vender CDs à socapa em Júpiter mas agora já sei que nem na galáxia de Andrómeda fujo à jurisdição da editora.

4- Já agora, um dia também gostaria de saber se "eles" andam aí, seja no fundo do mar, dentro da Terra, na Lua, algures no espaço ou noutras dimensões; saber se somos "irmãos" ou um rebanho criado para seu usufruto; saber se alguns de nós sabem disso e são os seus cães de guarda. Saber se vivemos num holograma criado para nos distrair.

5- O quinto projecto é consequência e realiza todos os outros: construir algo que me permita viajar à velocidade da luz, para outras dimensões e por buracos de verme; assim também viajarei no tempo. Irei aos confins do sistema solar para plantar a árvore do projecto 1 e fugir à jurisdição da editora do projecto 3, vou a outras dimensões e portanto realizo o projecto 4, vou à futura sexta-feira e realizo o projecto 2; como bónus vou ao passado, levo o George Michael à Alemanha dos anos 20, apresento-o ao Hitler e meto uma cunha para ele entrar na faculdade de arquitectura de Viena. Podia ser que com as necessidades sexuais e artísticas satisfeitas o palhaço acalmasse, senão morria atropelado num infeliz acidente. Este também promete ser a continuação do primeiro momento áureo e uma prova que temos dificuldade em aprender: uma fanfarronice masculina mas agora... senil.



  
A minha máquina de viajar no tempo