Dizem que à falta de opções, a democracia ainda é a melhor forma de governo; plenamente de acordo, nunca conseguiria viver num país regido por uma ditadura mas não me peçam para abraçar entusiasticamente a democracia e acreditar nela. Já a meio dos anos 80, numa cadeira de sociologia política leccionada por Miguel Esteves Cardoso a que eu assistia, aprendi que neste modelo governativo, de facto, o voto, estructuralmente, não muda nada! Tal como fazem os políticos, não me alongarei sobre as razões que levam a isto mas irei simplesmente constatar alguns factos.
Em primeiro lugar, como já se previa e sabia, a crónica vencedora das noites eleitorais foi a abstenção! Voltarei a ela noutro post porque merece uma reflexão mais aprofundada e porque é nela que reside o segredo da ilusão que é a democracia. Vamos agora aos pequenos dramas e glórias pessoais que em concreto nos condicionarão a todos na nossa vida diária. Um dos objectivos destes textos é tentar ver a realidade de outro ângulo (neste caso, através do futuro); muitas vezes só temos consciência disso quando alguém emocionalmente fora, geográfica ou culturalmente nos dá a sua perspectiva.
Hoje ouvi um repórter francês destacado em Portugal há algum tempo comentar as eleições e não podia estar mais de acordo; dizia ele que quando olhou para as televisões e viu o José Alberto Carvalho e a Judite de Sousa na TVI, o Moniz e o Rangel na RTP e o Sousa Tavares na SIC ficou bastante confuso; se me perguntassem ontem em que canal estavam eu também erraria quase tudo. Essa confusão aumentou para o jornalista quando ouviu o discurso de vitória do Passos Coelho: se fechasse os olhos poderia estar a ouvir o Sócrates na sua versão mais esquerdista...
Com maior estrondo do que seria previsível José Sócrates caiu: a soberba e a magia não deram para mais. Em primeiro lugar que fique bem esclarecido o seguinte: pode ser só uma questão de “energias” mas nunca gostei do homem já desde os tempos do Ministério do Ambiente, imaginem o que sentia enquanto primeiro-ministro e ia assistindo a maiorias absolutas, votações expressivas, vitórias por inépcia adversária… Por incrível que pareça, só agora nesta última fase de descalabro senti nele algum espírito patriota e vontade de defender tudo aquilo que ajudou a destruir. Seria só instinto de sobrevivência? Segundo os agentes económicos e políticos foi também a fase em que fez mais porcaria; curioso… A título pessoal, acabou por pagar bem caras a presunção e orgulho que arrastou durante dois mandatos; presunção, porque de facto era o mais brilhante de todos, e porque se deixou apanhar nas teias do orgulho de o ser. Actualmente é difícil encontrar alguém com tanto golpe de rins, maleabilidade, capacidade de iludir e simultaneamente convicção/teimosia para levar até ao fim os seus intentos; ou seja: como político, ficará na história; vamos ver é de que forma… Está bem que Portugal é um país pequeno mas para mim é incrível que Sócrates tenha realizado a sua “obra“ praticamente sozinho, o que numa democracia ocidental do século XXI acaba por ser um feito notável; vamos ver é de que forma…
Por falar em aprender, há um reality show chamado The Apprentice, protagonizado por Donald Trump, famoso milionário norte-americano; o seu lema é "it's nothing personal, it's just business". Qualquer democracia ocidental tende a dirigir-se para o conceito de empresa e um dirigente nacional não será mais que um gestor dessa empresa. Como já percebeu há muito tempo ou talvez só agora, Sócrates não deveria levar muito a peito o ter sido corrido da governação: à partida, como nas grandes empresas, ele só lá foi posto por cunha ou porque "alguém" reparou nele ou no seu talento. A sua substituição não é nada pessoal, a sério, e se ele acha o contrário, veja o que está prestes a acontecer com o colega Zapatero: desde ter perdido as últimas eleições, passando pelo ataque dos pepinos, o fogo manter-se-á cerrado até à sua saída; já é só o único não conservador num governo europeu (embora a questão esquerda/direita também seja hoje um folclore para divertir as massas). Para Sócrates, sair de cena foi o único desfecho possível, chegou ao fim do jogo, e se o fez com dignidade ou falta dela, perdoem-me a insensibilidade à la Trump mas é completamente irrelevante. Parece que ele fez a cama onde haveria de se deitar mas a sua saída também foi legitimada "democraticamente" através do voto popular que sentenciou: "Sócrates: you're fired!
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