Como dizia um participante num fórum, as pessoas tendem a votar nos partidos como se fossem um clube: eu sou deste, tu és daquele… Por isso, podem mudar os líderes do PS e do PSD que a massa crítica de votantes lhes garante sempre o primeiro ou segundo lugar. Os comunistas ainda são um caso à parte mas caminham a passos largos para o mesmo que os outros partidos de segunda linha, CDS/PP e BE mais posicionados nos extremos: vivem dos seus líderes.
Se tivesse mantido uma linguagem conservadora de direita o CDS andaria ainda a lutar para arranjar deputados suficientes para encher um táxi. Graças à excelente maleabilidade política, uma constante presença mediática, onde se martelam os mesmos assuntos duma forma "serena" e "responsável", Paulo Portas conseguiu formar um carácter único no imaginário do eleitorado que lhe garante uma marca pequena mas registada. Se sair do partido, este volta a ser engolido pelo PSD. Se não forem estúpidos, neste momento deve ser um dos partidos com dirigentes mais reverenciais porque por enquanto vão brincando aos importantes, à pala do Portas…
A esquerda na actual conjuntura está totalmente em desvantagem! A direita pode dizer que quer o bem dos patrões porque estes proporcionarão o bem dos trabalhadores; a esquerda tem princípios mais rígidos e não pode querer o bem dos patrões em primeiro lugar. Não é por acaso que por toda a Europa os partidos de direita têm cimentado as suas posições no contexto de crise em que vivemos. Então, à esquerda resta a opção de resistir e é aqui que se distinguem completamente o papéis e por consequência os resultados obtidos pelo PCP e o BE. Os comunistas têm uma lógica "negativa" nunca na vida irão governar mas o Bloco foi constituído numa lógica "positiva", num futuro ideal poderiam governar ou ser parceiros de governo: são intelectuais de esquerda, com uma visão moderna da esquerda, um modelo social e económico de esquerda… Pois: a conjuntura ultrapassou-os e agora onde é que eles cabem?
Como sempre, a esquerda partiu-se em inúmeras visões e não é por acaso que por isso é vista como mais "culta": pensam por si, são individualistas com um sonho colectivo; na direita pensam todos o mesmo mas com o sonho de se tornarem individualistas. A esquerda neste momento está confinada à resistência, à "negatividade" e quais são os partidos mais bem qualificados para isso? PCP e MRPP! Não é espantoso que o PCP tenha recuperado o quarto lugar e o MRPP tenha sido o primeiro partido a seguir aos grandes? Para mim não. Partidos comunistas têm um líder e uma indistinta massa colectiva a trabalhar para o mesmo, são como uma colmeia (a APU chegou mesmo a ter essa imagem nos seus cartazes).
Ao contrário, no Bloco, há "sensibilidades" e "personalidades" que não tardarão a amolar as lâminas uns contra os outros; são uma esquerda demasiado amaciada com intelectuais e cujos actos concretos enquanto deputados na assembleia não surtiram efeito. No PC e no MR, liderados por um ex-operário metalúrgico e um advogado de causas perdidas, arregaçam-se as mangas, cagam-se paredes e escadas, organiza-se a malta para chamar os bois pelos nomes e literalmente andar à porrada! PCP e MRPP consubstanciam a face legal da ilegalidade e é isso que os pobres querem neste momento; não precisam de discutir o sexo dos anjos mas de guerra, combater o fogo com fogo! Num contexto de prosperidade estes dois não servem para nada mas agora são necessários e os mais confiáveis para essa tarefa; existem há tempos imemoriais, sobreviveram à queda do meteorito, às extinções em massa, lutando sempre com os mesmos dirigentes e... ainda cá estão. Votar neles? É de caras! Nos outros há dúvidas. Para andar à porrada não se vota em símbolos fofinhos ou humanistas mas em foices e martelos!
Na área da esquerda o Bloco desfez-se também para ajudar a construir o PAN, Partido dos Animais e da Natureza uma espantosa surpresa só para quem está fora do contacto com as pessoas sobretudo dos meios urbanos. Enquanto o projecto político do Bloco alimentou o PC e o MRPP, o projecto "positivo" de sociedade encontrou uma via de expressão através do PAN. Para quem não leu o seu programa, a sigla ajudou a captar alguns votos mas também pode ter deitado fora outros: é que o modelo de sociedade proposto vai muito além da designação, embora esta possa resumir o resultado final. Pareceu-me uma proposta inovadora, uma opção real a longínquo prazo e falando em 2011, até revolucionária! Pode demorar séculos a concretizar mas é uma via com futuro, uma das poucas opções possíveis daqui a uns anos. O PAN conseguiu hoje aquilo que mais nenhum outro partido ofereceu aos eleitores: a possibilidade de sonhar com um futuro melhor, uma verdadeira utopia! Será que conseguirá manter vivo o sonho, ou apagar-se-á como tantos outros pequenos se apagaram? (Já sei mas não digo).
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