7.6.11

SÓCRATES: YOU'RE FIRED!

Dizem que à falta de opções, a democracia ainda é a melhor forma de governo; plenamente de acordo, nunca conseguiria viver num país regido por uma ditadura mas não me peçam para abraçar entusiasticamente a democracia e acreditar nela. Já a meio dos anos 80, numa cadeira de sociologia política leccionada por Miguel Esteves Cardoso a que eu assistia, aprendi que neste modelo governativo, de facto, o voto, estructuralmente, não muda nada! Tal como fazem os políticos, não me alongarei sobre as razões que levam a isto mas irei simplesmente constatar alguns factos.

Em primeiro lugar, como já se previa e sabia, a crónica vencedora das noites eleitorais foi a abstenção! Voltarei a ela noutro post porque merece uma reflexão mais aprofundada e porque é nela que reside o segredo da ilusão que é a democracia. Vamos agora aos pequenos dramas e glórias pessoais que em concreto nos condicionarão a todos na nossa vida diária. Um dos objectivos destes textos é tentar ver a realidade de outro ângulo (neste caso, através do futuro); muitas vezes só temos consciência disso quando alguém emocionalmente fora, geográfica ou culturalmente nos dá a sua perspectiva.


Hoje ouvi um repórter francês destacado em Portugal há algum tempo comentar as eleições e não podia estar mais de acordo; dizia ele que quando olhou para as televisões e viu o José Alberto Carvalho e a Judite de Sousa na TVI, o Moniz e o Rangel na RTP e o Sousa Tavares na SIC ficou bastante confuso; se me perguntassem ontem em que canal estavam eu também erraria quase tudo. Essa confusão aumentou para o jornalista quando ouviu o discurso de vitória do Passos Coelho: se fechasse os olhos poderia estar a ouvir o Sócrates na sua versão mais esquerdista...

Com maior estrondo do que seria previsível José Sócrates caiu: a soberba e a magia não deram para mais. Em primeiro lugar que fique bem esclarecido o seguinte: pode ser só uma questão de “energias” mas nunca gostei do homem já desde os tempos do Ministério do Ambiente, imaginem o que sentia enquanto primeiro-ministro e ia assistindo a maiorias absolutas, votações expressivas, vitórias por inépcia adversária… Por incrível que pareça, só agora nesta última fase de descalabro senti nele algum espírito patriota e vontade de defender tudo aquilo que ajudou a destruir. Seria só instinto de sobrevivência? Segundo os agentes económicos e políticos foi também a fase em que fez mais porcaria; curioso… A título pessoal, acabou por pagar bem caras a presunção e orgulho que arrastou durante dois mandatos; presunção, porque de facto era o mais brilhante de todos, e porque se deixou apanhar nas teias do orgulho de o ser. Actualmente é difícil encontrar alguém com tanto golpe de rins, maleabilidade, capacidade de iludir e simultaneamente convicção/teimosia para levar até ao fim os seus intentos; ou seja: como político, ficará na história; vamos ver é de que forma… Está bem que Portugal é um país pequeno mas para mim é incrível que Sócrates tenha realizado a sua “obra“ praticamente sozinho, o que numa democracia ocidental do século XXI acaba por ser um feito notável; vamos ver é de que forma…

Por falar em aprender, há um reality show chamado The Apprentice, protagonizado por Donald Trump, famoso milionário norte-americano; o seu lema é "it's nothing personal, it's just business". Qualquer democracia ocidental tende a dirigir-se para o conceito de empresa e um dirigente nacional não será mais que um gestor dessa empresa. Como já percebeu há muito tempo ou talvez só agora, Sócrates não deveria levar muito a peito o ter sido corrido da governação: à partida, como nas grandes empresas, ele só lá foi posto por cunha ou porque "alguém" reparou nele ou no seu talento. A sua substituição não é nada pessoal, a sério, e se ele acha o contrário, veja o que está prestes a acontecer com o colega Zapatero: desde ter perdido as últimas eleições, passando pelo ataque dos pepinos, o fogo manter-se-á cerrado até à sua saída; já é só o único não conservador num governo europeu (embora a questão esquerda/direita também seja hoje um folclore para divertir as massas). Para Sócrates, sair de cena foi o único desfecho possível, chegou ao fim do jogo, e se o fez com dignidade ou falta dela, perdoem-me a insensibilidade à la Trump mas é completamente irrelevante. Parece que ele fez a cama onde haveria de se deitar mas a sua saída também foi legitimada "democraticamente" através do voto popular que sentenciou: "Sócrates: you're fired!

PEDRITO DE PORTUGAL

O grande vencedor do sistema que manda nas nossas vidas foi o Pedro Passos Coelho; vai ser ele a cara laroca que daqui a uns anos já mete nojo e o povo andará a insultar. Alguém duvida que "Passos" e "Coelho" não sejam motes para piadas dada a facilidade que ele próprio tem em se pôr a jeito para o ridículo? Até agora tem passado a imagem que é tão bom rapaz como pateta. Não foi uma maldade interna do partido terem posto a Manuela Ferreira Leite a lutar contra o Sócrates e esperarem o momento certo para ele entrar em cena? Onde é que andaram os apoios internos até chegar a altura ideal de deitar abaixo o odioso primeiro-ministro? O santo Pedro ainda julga que foi tudo obra sua e convence-se de que é ele o Messias; ainda acaba por se convencer que a malta votou nele pela positiva.

É certo que com o tempo esquecer-se-á que era apenas um boneco do maior partido da oposição que concentrou os votos de protesto do povo do "centro"; e aí, meus amigos, preparem-se para assistir a disparates continuados, resultado da constante luta interna entre consciência de humildade e desejo de manifestações do ego. Começou logo na própria noite da vitória eleitoral: primeiro esperou controlada e civilizadamente pela declaração do seu futuro parceiro de governo Paulo Portas e só então apareceu a falar da vitória com um discurso aparentemente humilde; depois da declaração e para surpresa geral abriu as goelas e pôs-se a cantar com a sua linda voz de barítono o hino nacional, após o que voltou à pose séria e institucional para responder às perguntas dos jornalistas. Se a sua actuação terá feito corar de vergonha o Paulinho das feiras, imagino os arrepios na espinha que causou na elite do partido!!!… Durante o dia lá deve ter pensado que precisava de um programinha organizado para causar impacto, uma entrada à maneira, de modo a deixar uma marca da sua personalidade. Não é só por causa deste episódio mas garanto aos humoristas que haverá pano para mangas nos próximos tempos: o seu acentuado auto-controle será quebrado em momentos emocionalmente críticos, expondo uma contradição de carácter que irá fazer rir. E como já manifestou a intenção de se apropriar do Ministério da Cultura, ambição natural para quem é um zero, manda e tem talento circense preparem-se para ter no primeiro-ministro um misto de funcionário público, rei, e bobo da corte. 

A SEGUNDA LINHA

Como dizia um participante num fórum, as pessoas tendem a votar nos partidos como se fossem um clube: eu sou deste, tu és daquele… Por isso, podem mudar os líderes do PS e do PSD que a massa crítica de votantes lhes garante sempre o primeiro ou segundo lugar. Os comunistas ainda são um caso à parte mas caminham a passos largos para o mesmo que os outros partidos de segunda linha, CDS/PP e BE mais posicionados nos extremos: vivem dos seus líderes.

Se tivesse mantido uma linguagem conservadora de direita o CDS andaria ainda a lutar para arranjar deputados suficientes para encher um táxi. Graças à excelente maleabilidade política, uma constante presença mediática, onde se martelam os mesmos assuntos duma forma "serena" e "responsável", Paulo Portas conseguiu formar um carácter único no imaginário do eleitorado que lhe garante uma marca pequena mas registada. Se sair do partido, este volta a ser engolido pelo PSD. Se não forem estúpidos, neste momento deve ser um dos partidos com dirigentes mais reverenciais porque por enquanto vão brincando aos importantes, à pala do Portas…

A esquerda na actual conjuntura está totalmente em desvantagem! A direita pode dizer que quer o bem dos patrões porque estes proporcionarão o bem dos trabalhadores; a esquerda tem princípios mais rígidos e não pode querer o bem dos patrões em primeiro lugar. Não é por acaso que por toda a Europa os partidos de direita têm cimentado as suas posições no contexto de crise em que vivemos. Então, à esquerda resta a opção de resistir e é aqui que se distinguem completamente o papéis e por consequência os resultados obtidos pelo PCP e o BE. Os comunistas têm uma lógica "negativa" nunca na vida irão governar mas o Bloco foi constituído numa lógica "positiva", num futuro ideal poderiam governar ou ser parceiros de governo: são intelectuais de esquerda, com uma visão moderna da esquerda, um modelo social e económico de esquerda… Pois: a conjuntura ultrapassou-os e agora onde é que eles cabem?


Como sempre, a esquerda partiu-se em inúmeras visões e não é por acaso que por isso é vista como mais "culta": pensam por si, são individualistas com um sonho colectivo; na direita pensam todos o mesmo mas com o sonho de se tornarem individualistas. A esquerda neste momento está confinada à resistência, à "negatividade" e quais são os partidos mais bem qualificados para isso? PCP e MRPP! Não é espantoso que o PCP tenha recuperado o quarto lugar e o MRPP tenha sido o primeiro partido a seguir aos grandes? Para mim não. Partidos comunistas têm um líder e uma indistinta massa colectiva a trabalhar para o mesmo, são como uma colmeia (a APU chegou mesmo a ter essa imagem nos seus cartazes).

Ao contrário, no Bloco, há "sensibilidades" e "personalidades" que não tardarão a amolar as lâminas uns contra os outros; são uma esquerda demasiado amaciada com intelectuais e cujos actos concretos enquanto deputados na assembleia não surtiram efeito. No PC e no MR, liderados por um ex-operário metalúrgico e um advogado de causas perdidas, arregaçam-se as mangas, cagam-se paredes e escadas, organiza-se a malta para chamar os bois pelos nomes e literalmente andar à porrada! PCP e MRPP consubstanciam a face legal da ilegalidade e é isso que os pobres querem neste momento; não precisam de discutir o sexo dos anjos mas de guerra, combater o fogo com fogo! Num contexto de prosperidade estes dois não servem para nada mas agora são necessários e os mais confiáveis para essa tarefa; existem há tempos imemoriais, sobreviveram à queda do meteorito, às extinções em massa, lutando sempre com os mesmos dirigentes e... ainda cá estão. Votar neles? É de caras! Nos outros há dúvidas. Para andar à porrada não se vota em símbolos fofinhos ou humanistas mas em foices e martelos!

Na área da esquerda o Bloco desfez-se também para ajudar a construir o PAN, Partido dos Animais e da Natureza uma espantosa surpresa só para quem está fora do contacto com as pessoas sobretudo dos meios urbanos. Enquanto o projecto político do Bloco alimentou o PC e o MRPP, o projecto "positivo" de sociedade encontrou uma via de expressão através do PAN. Para quem não leu o seu programa, a sigla ajudou a captar alguns votos mas também pode ter deitado fora outros: é que o modelo de sociedade proposto vai muito além da designação, embora esta possa resumir o resultado final. Pareceu-me uma proposta inovadora, uma opção real a longínquo prazo e falando em 2011, até revolucionária! Pode demorar séculos a concretizar mas é uma via com futuro, uma das poucas opções possíveis daqui a uns anos. O PAN conseguiu hoje aquilo que mais nenhum outro partido ofereceu aos eleitores: a possibilidade de sonhar com um futuro melhor, uma verdadeira utopia! Será que conseguirá manter vivo o sonho, ou apagar-se-á como tantos outros pequenos se apagaram? (Já sei mas não digo).