Ainda hoje persiste no imaginário colectivo a ideia romântica de um artista envolto em fumo, mergulhado em álcool ou drogas, deambulando pela noite, abraçado a musas reais ou imaginárias e com pactos com deuses ou diabos… O grande público julga que é assim que se cria e muitas vezes essa imagem acaba por se sobrepor ao próprio trabalho. Dois dos maiores mitos acerca do trabalho criativo de um artista prendem-se com os seguintes aspectos: 1- a dependência de substâncias, algo ou alguém que levam à inspiração, e 2- a necessidade de experimentar previamente o que descreve na sua criação.
Poucos conhecem devidamente a obra de Fernando Pessoa mas toda a gente sabe que ele "gostava de beber uns copos"; o foco neste aspecto da personalidade do criador parece ser mais excitante do que o trabalho em si, descrito pelos eruditos como fantástico mas muito longe da realidade da massa inculta ou desinteressada. Assim, um simples traço de comportamento aproxima mais o "génio" ao comum mortal; o "deus" tem um defeito que todos nós podemos ter e acaba precisamente por ser essa a razão que o torna "popular", é um de nós "mas em bom". Esse caminho tem provado ser o mais duradouro no tempo em termos de fama, basta constatar o sucesso das histórias dos míticos heróis helénicos ou de Cristo, por exemplo.
Bach, Mozart e Beethoven não seriam seguramente modelos de carácter, eram imperfeitos como qualquer um de nós mas a obra não reflecte necessariamente os fait-divers pessoais pelos quais os criadores são conhecidos. Não precisaram de viver todas as emoções que as suas obras nos provocam, simplesmente precisaram de ter conhecimento delas e souberam criá-las com técnica musical. A música transporta consigo inspiração que por vezes consideramos divina mas os criadores não são deuses; quanto muito foram antenas ou canais de transmissão dessa inspiração. Portanto, estes três exemplos tinham um talento fora do comum, estudaram e trabalharam. Quem tem esse tal talento sabe que a criação é um processo solitário, implica liberdade individual e silêncio; só quem não os tem é que julga que precisa de ver e ouvir tudo o que existe, provavelmente para encontrar o seu espaço, ser reconhecido como parte deste ou daquele movimento ou para sugar qualquer coisa a obras que já tinham nascido elas próprias de reciclagens anteriores.
Na área do show-business a definição de artista passou a englobar criadores, reprodutores de formas de arte, entertainers, cozinheiros, bailarinas de strip-tease, fabricantes de produtos, etc, etc e a promiscuidade entre a personalidade do novo "artista" e o que ele produz é a norma. A proliferação de gente vulgar leva a que a popularidade destas pessoas esteja inevitavelmente ligada à exibição de alguma faceta mais excêntrica do seu aspecto ou do seu carácter; podemos julgar que isso é mais comum nos nossos dias mas na verdade, sempre foi assim. Não temos consciência disso porque não há nenhum contemporâneo das famosas excentricidades das vedetas do show-biz do século XIX, as das vedetas dos anos 60 morrerão com quem as viveu na sua juventude, as da Lady Gaga serão esquecidas assim que surgir outra diva; tirando isso, o trabalho que ficou sobreviverá ao autor?…
Por outro lado, se hoje perguntarmos a alguém quem é, quase toda a gente tende a dizer o que faz; é a profissão que define a pessoa? Não deveria ser a profissão apenas uma extensão do que ela própria é? Hoje, no modelo de sociedade industrializado, o reconhecimento da individualidade e do nosso lugar na hierarquia está intimamente relacionado com a actividade que produzimos; logo, se não formos reconhecidos pela actividade não somos ninguém… Por isso toda a gente procura algum tipo de notoriedade mediática, acompanhar a moda em permanência, para se sentir alguém em vida e tenho a certeza que essa pessoa morrerá mais feliz se o conseguir plenamente; certo, mas o que deixou de si para inspirar gerações vindouras?
Sem uma obra, o espírito do tempo condenará ao esquecimento estas pessoas; para os artistas com obra uns serão lembrados como caricaturas e outros como retratos duma determinada época; muito poucos transcenderão o seu tempo, acabando por se tornar clássicos e como tal, modelos de intemporalidade a seguir. "Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de facto mais se revelam novos, inesperados, inéditos" - Italo Calvino.
E já agora Fernando Pessoa dizia que "a fama é para as actrizes e para os produtos farmacêuticos". Pois é: tirando a Aspirina e a Coca-Cola, assim de repente não me lembro de nenhum produto que tenha passado tantas gerações; actrizes, lembro-me de várias cuja lembrança morrerá comigo; só não morrerão se tiverem participado num filme de um daqueles realizadores que transcendem a época. A obra de Fernando Pessoa viverá eterna; e além disso, com ela, o homem que a criou.
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