Nas férias da Páscoa, em 2011 a minha filha ligou-me de casa da avó às 8 horas da manhã e parecendo-me que estava a acordar disse-me com uma voz dramática e grave: "- Pai, ontem estava no computador, deixei-o ligado e saí mais ou menos por uma hora; quando cheguei estava tudo morto!!!" Confesso que fiquei um pouco preocupado e perguntei-lhe: "- Tudo morto o quê? O computador, o ecrã, a impressora?…" enquanto em milésimos de segundo no meu cérebro saltitavam em pânico opções cada vez mais absurdas (as flores lá de casa, animais de estimação que não existem, a avó?)… "-Não, pai: os Sims! (Para quem não sabe, os Sims são um jogo electrónico de simulação de vida, onde se podem criar e controlar as vidas de pessoas virtuais) Continuando: "- Deixei o jogo em play e quando cheguei estavam contas por pagar, trabalhos de casa espalhados pelo chão, restos de comida por todo o lado e três túmulos dentro de casa…"
Podemos pensar que este jogo mostra uma perspectiva redutora da vida mas, no mínimo, o seu criador fornece entretenimento juntamente com o seu ponto de vista pessoal. Apesar de ser só um jogo, logo submetido a uma lógica comercial e que a mim em particular não aquece nem arrefece, consigo encontrar inúmeras analogias com a vida "real". Porquê real entre aspas? Como sabem vivo no ano 2036, portanto o que vou dizer não é resultado de qualquer brilhantismo intelectual mas sim fruto do conhecimento desta época: que se saiba, existem 11 dimensões, ao contrário das 3 que julgávamos existentes em 2011; por isso vos escrevo a partir do futuro como se estivesse aí. Onze dimensões parecem-vos absurdas?
Experimentem desenhar uma paisagem com várias pessoas numa folha de papel; esse desenho é uma representação da realidade a duas dimensões, comprimento e largura, certo? Agora imaginem que essas pessoas na folha de papel tinham realmente vida; como acham que elas percepcionariam o mundo onde estão? A duas dimensões! Ou seja: se continuássemos a desenhar, essas pessoas que viam o mundo a duas dimensões simplesmente constatariam que novos riscos tinham sido acrescentados, sem conseguir perceber como eles lá foram parar. Num estágio civilizacional avançado deste micro-cosmos, talvez as suas leis da física explicassem muita coisa mas só uma teorização matemática muito evoluída faria com que eles compreendessem, mesmo sem continuar a ver, que aqueles riscos só poderiam ser feitos por algo que possuísse mais uma dimensão. Não se esqueçam que apesar de suspeitarem da existência desse tal objecto (o lápis) a única coisa que eles poderiam ambicionar alguma vez ver seria o (para nós) microscópico ponto de contacto da ponta do lápis com o papel, nunca o objecto tridimensional em si.
E que dizer das questões filosófico/religiosas que seriam levantadas acerca disto? O tal "lápis" faz o desenho sozinho ou há alguém a manipulá-lo? E finalmente, qual é o objectivo de qualquer uma destas duas identidades, o deus que desenha ou o deus que manipula o que desenha? Mal sabem eles que o seu criador pode ser uma criança na escola e que o desenho foi feito por esse deus mas mandado executar por um outro superior. E assim sucessivamente… Bom, pelo menos já sabem que se algum dos vossos rabiscos de infância se incendiar ou explodir sozinho foi porque atingiram um grau de civilização elevado que os levou à auto-destruição…
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