Aqui em 2035 lembro-me como todos nós recebemos em 2010 o penúltimo papa e voltei a emocionar-me com a candura e fé dos portugueses; um povo como este nasceu para ser “papado” mas as coisas não deveriam ser assim! Quem tem consciência disso, em vez de se aproveitar e nos explorar, podia dar um sinal claro de evolução civilizacional respeitando-nos, tal como deveríamos todos fazer o mesmo com a natureza. Somos um povo infantil e na sua vertente mais positiva estamos ao nível das tribos “perdidas” de África, da Oceânia e da Amazónia, alegres e criativos; esta é uma identidade que é urgente preservar como forma de garantir a diversidade e em última análise, garantir a própria continuidade da espécie humana. Na sua vertente mais negativa somos melancólicos, invejosos e desconfiados; pois eu nunca vi tamanha alegria, entrega e devoção a alguém como a que dispensamos aos papas que nos visitam. João Paulo II arrastava multidões em quase todo o lado mas para além disso, em Portugal teve também uma ligação única e pessoal. Com a visita ao nosso país, Bento XVI praticamente limpou a imagem bolorenta e ganhou novo fôlego para o seu ego e o da Igreja! Fantástico! Se as coisas estiverem a correr mal no Vaticano, já sabem: uma visita a Portugal relança a carreira!
Ninguém quer pensar nisso, aliás, a fé deve andar sempre longe do pensamento racional mas quem o faz sabe bem que a religião organizada é um dos maiores embustes da humanidade. Não sei muito bem o que são anti-Cristos nem sei se os católicos considerarão Leão X, que reinou entre 1513 e 1521 como tal; numa carta dirigida a um cardeal, este papa escreveu que “desde tempos imemoriais que se sabe quão proveitosa nos tem sido esta fábula de Jesus Cristo”… Talvez a minha questão seja simplesmente esta: eu gostava de acreditar mas não consigo! Se quiserem saber em que acredito, digo-o frontalmente: no génio humano! No génio para criar deuses, mitos, tecnologia, construir civilizações, destruir outras, enfim, sobreviver egoisticamente a todo o custo no imediato mesmo que isso implique a não sobrevivência a longo prazo. O grande problema é este: vivemos num mundo de matéria e não há volta a dar a isto! Os deuses faraós morriam, Cristo também e eu já não me estou a sentir nada bem… Esta angústia existencial é o que as religiões tentam acalmar dizendo que nos falta Deus nas nossas vidas, logo é melhor acreditar que os faraós foram para outro lado, Cristo ressuscitou e eu posso continuar descansado a ser explorado porque quando morrer serei recompensado. Talvez até seja meritório acalmar o espírito num estágio mais infantil, precisamos de confiança para crescer mas à medida que o fazemos, o processo deveria consistir na desmistificação das fábulas e concentrarmo-nos na nossa evolução, sabendo que somos frágeis. A nossa insegurança pessoal não deveria dominar toda a existência; assumir num estágio adulto que somos temporários dar-nos-ia a oportunidade de progredirmos enquanto civilização.
Podemos não compreender quase nada do nosso mundo mas pelo menos, pelo estudo da história já sabemos que há sempre uma coisa que leva a outra, determinadas circunstâncias criam outras, ou seja, não sabemos donde veio e o que provoca mas sabemos como funciona; este é um dos poucos factos que podemos ter como certos, certo? Continuando este raciocínio: se nunca se conseguiu uma prova cabal da existência de outras civilizações fora da Terra, como querem logo que eu queime etapas e tenha a certeza que algum ser divino nos criou? Mais facilmente acreditaria em extra-terrestres que em Deus! De todos os nossos irmãos seres vivos da Terra somos os únicos que possuem uma civilização tecnológica, nunca vi formigas a construir foguetões para ir ao espaço, portanto, primeiro seria necessário saber se há outro tipo de irmãos no universo, só depois poderíamos cruzar informação para tentar conhecer a mãe. Não havendo troca sexual para gerar, o termo “mãe” parece-me mais correcto; além disso “pai” é um termo com uma origem demasiado suspeita porque na nossa espécie primata são os machos que dominam. Se as hienas filosofarem, provavelmente acreditam em Deusa que teve uma filha, Crista, que veio ao mundo para salvar a hienidade…
Várias vezes assisti pela televisão às celebrações do 13 de Maio em Fátima e fui informado de vários milagres associados à fé, como entrevados que se levantam e cancros que se curam; sim, é incrível mas dentro do fantástico leque de possíveis milagres há um bastante simples para o anunciado poder de Deus e que desde sempre me intrigou ele não ter capacidade para o realizar: fazer crescer membros em amputados! Segundo os crentes, Ele foi capaz de criar o universo, pôr planetas a mexer, sóis a brilhar mas isso parece-me uma simples constatação preguiçosa: vemos algo e atribuímos-lhe um significado que depois é perpetuado conforme o potencial de quem o inventa. Os fantásticos milagres relatados na Bíblia não mais se repetiram, não há vivos que o confirmem nem registos em vídeo no YouTube, e os mais pequenos a que hoje temos direito são quase todos explicados pela incómoda e por vezes odiada ciência. E mais: não é preciso ter fé para eles acontecerem, para obter algumas curas milagrosas e até para mortos acordarem nas morgues; agora, uma coisa tão fácil para Deus como fazer crescer um membro num amputado, torna-se impossível neste cruel mundo material. Há portanto uma clara selecção no tipo de milagres que Deus executa: aqueles que a ciência pode explicar. Assim, quase que posso garantir o seguinte: se alguma vez a minha vida for transformada por um milagre não será por causa da minha fé em Deus. Então para que precisamos dele? Sejamos honestos: só para nos agarrarmos a algo em momentos de aflição que podem ser superados pelo génio humano e para evitar os desvarios desse mesmo génio; já que nem a pena de morte pode travar pelo medo alguns dos nossos irmãos, tem-se mantido esta forma de controle dum Big Father que tantos dividendos tem trazido aos seus agentes. Os pontos donde retiram o seu poder são as zonas da "alma" ou "espírito", algo ainda não definido, mas em concreto se pode dizer que é um filão que lhes permitirá talvez continuar a explorar eternamente.
Em resumo: apesar de tudo, a matéria é a única coisa que conhecemos vagamente, tudo o resto são esperanças, incertezas e fé. Fora da matéria, acredito que quando morrer, ou seja, quando esta organização atómica do qual sou composto e me dá consciência se desfizer a minha noção de mim vai exactamente para o mesmo local onde eu estava antes de nascer: no nada! Algumas moléculas do meu desorganizado corpo irão desaparecer e outras continuarão a existir associadas a organismos vivos ou não vivos. Com sorte, algumas das moléculas que passaram por mim viverão no futuro numa rocha à beira-mar, numa flor de laranjeira ou nos olhos de uma criança.