20.1.10

PREVISÕES PARA 2010

Uma amiga jornalista que trabalhava na redacção de uma conhecida revista contou-me que ligaram para a astróloga de serviço, pedindo para lhes mandar rapidamente as previsões para essa semana, o que ainda não tinha feito; o fecho de redacção estava próximo e tinham apenas umas horas para a enviar para impressão. Alegando que já não tinha tempo para o fazer, a astróloga sugeriu que fossem aos arquivos buscar as previsões para a mesma semana referentes ao ano passado; justificou com um "sabem como é: não tem grande importância, os ciclos anuais andam todos, mais ou menos à volta do mesmo". Houve alguma risota indignada na redacção mas enfim, lá se publicou...

Sem pretender minimamente esconder a proveniência do seguinte texto, digo-vos frontalmente que ele foi retirado de um post que publiquei neste blog em 29 de Dezembro de 2006, referindo-se às minhas previsões para 2007; podem considerá-lo válido para 2010, ok? 

"Segundo a astrologia da Oceânia, 2007 estará sob a influência do signo do Ornitorrinco. Tal como o animal que lhe dá nome, este será um ano de contradições e absurdos. As condições climatéricas extremas dominarão na natureza e várias figuras públicas mundiais morrerão durante o próximo ano. Em Portugal o governo de José Sócrates continuará a impôr-nos dificuldades não sendo de excluir uma vistoria fiscal a todas as empresas portuguesas na ânsia de encontrar alguma moeda perdida no chão. As novelas continuarão a dominar o panorama audio-visual e os Xutos e Pontapés continuarão a tocar. Só para concluír direi, para quem desconhece a astrologia Oceânica, que todos os anos são regidos pelo signo do Ornitorrinco."

Quem é que continua a pensar que a atitude da astróloga foi assim tão descabida?... 

19.1.10

ONDE PÁRA A INFÂNCIA?

Uma tendência que se tinha vindo a acentuar nos últimos anos, acabou por se confirmar em 2009: a infância morreu! Muito do entretenimento de BD e filmes que se dirigia a um target dos 5 aos 9 anos sofreu um re-styling, cresceu e tornou-se adolescente. Hoje a carga sexual desceu as escadas da adolescência e chegou ao patamar da infância, ou melhor: todos os que passam a fase de bebé, por volta dos 4 anos, são imediatamente seduzidos a arrepiar caminho, a subir sofregamente os degraus que conduzem ao patamar da pré-adolescência. Como ninguém quer ser o último nem gosta de ficar pelo caminho, assim que percebem que os seus amigos estão a subir a escadaria de interesses, precipitam-se em direcção a eles mesmo não percebendo bem atrás do que correm… Assim, é ver uma multidão de crianças numa ânsia desenfreada para chegar o mais rapidamente possível ao patamar seguinte. Como os verdadeiros pré-adolescentes não querem ser vistos ao pé de bebés, fogem em direcção ao patamar superior e assim sucessivamente até aos adultos que independentemente da idade recusam-se a sair do patamar dos 21 anos: o culto da juventude arrasa tudo, mesmo os velhos têm vergonha de não estar na moda…

O resultado é que a zona dos 5 aos 9 anos ficou vazia, apenas com algumas crianças perdidas. E porque é que esta zona ficou deserta? Porque as multinacionais assim como “montam e desmontam a tenda” nos locais economicamente mais vantajosos perceberam que é mais rentável “puxar” os seus habitantes naturais para outro local. O objectivo é apenas um: abreviar rapidamente esse espaço temporal inútil de 4 a 5 anos, rentabilizar as crianças, torná-las consumidoras, cônscias do sentido da utilidade, encaminhá-las tão breve quanto possível para a roda do trabalho/consumo. As crianças precisam de muito tempo para brincar, interagir com os pais, não fazer nada mas isso está a ser totalmente negado pela sociedade em geral...

Um dia ainda virá mais cedo mas por enquanto, a despedida da fase pré-primária marca afinal a despedida de toda a infância. É a época em que a conspiração empresas/estado e os próprios pais, já doutrinados com esta filosofia de utilidade, começam a encher a cabeça dos filhos com preocupações, tarefas e trabalhos. Haverá algum pai, nas sociedades capitalistas urbanas que queira ver os seus filhos fora de actividades formativas como a informática, o inglês, a música, a natação, andar a cavalo, etc.? Os exemplos de quem não tem essas possibilidades estão aí à vista por todo o lado, sob a forma de miúdos pobres ou desamparados que não têm actividades extra-curriculares e brincam na rua, à mercê dos mais terríveis prognósticos: marginalidade e deficiente preparação para integrar um mercado que subtilmente entrou no nosso léxico quotidiano, o mercado de trabalho; o tal que permite ter condições para consumir (viver).

A imprevisibilidade do génio humano dá azo a excepções mas basicamente já está tudo mais ou menos previamente organizado: as crianças que não tiveram investimento na sua formação são canalizadas para a marginalidade ou empregos como caixas de supermercado, operários, seguranças, etc. No entanto, o mais curioso é que as que tiveram um bárbaro investimento parental, aquelas cujos pais dinamizaram a economia consumindo livros, actividades físicas, computadores, formação específica, psicólogos e sei lá mais o quê, nem assim se livram de serem apenas “normais”, já que o tal mercado de trabalho está saturado de licenciados! Depois dos sacrifícios, da escravatura duma vida e de terem esturrado uma fortuna a educar os filhos, quando chegam a esse beco sem saída é que os pais compreendem na carne aquilo que distingue à partida os casos de sucesso: é, não só a formação, mas sobretudo a família de origem. Por isso, há tantos interessados em começar a criar essas raízes que dão estatuto (perante o resto da sociedade é mais importante que o dinheiro), sendo que a forma mais prosaica de as conseguir é através do mundo do espectáculo; até os ricos lá andam e qualquer macaco com um talento especial pode salientar-se e criar uma dinastia. Agora os pais procuram nos filhos a mais leve inclinação, o mais ténue talento que permita vingar nesta área, de modo a canalizar todo o seu esforço para a formação de especialistas em entretenimento. Infelizmente, a grande maioria acaba por denegrir as nobres artes circenses, tornando-se imitações pobres de palhaços ricos.

Até aos 4 anos, o entretenimento é baseado no estímulo visual de cores garridas, sobretudo primárias: o Noddy usa t-shirt azul, calções vermelhos, barrete azul, lenço amarelo às bolas vermelhas e sapatos vermelhos; o Ruca só muda a cor da t-shirt para amarelo, os sapatos têm atacadores verdes e é careca; o Bob Construtor tem um macacão azul, camisa aos quadrados amarela e laranja, sapatos com as mesmas cores e capacete amarelo. A partir desta idade passamos imediatamente para o estímulo 3D ou dos brilhantes made in China, usados até escalões etários impensáveis há uns anos. Já restam poucos heróis animais ou em desenhos animados, salta-se por cima de toda a infância e o que é oferecido às crianças a partir dos 5 anos são novelas com actores humanos sobre o dia-a-dia das escolas, séries de feiticeiros e magias, séries sobre o mundo do espectáculo, séries acerca de séries, assexuadas, sim, mas onde se discutem namoros, os primeiros beijos, gravidezes e abortos, casamentos e divórcios… É interessante notar que a Disney que sustentou o seu crescimento na divulgação de histórias com animais, seja agora uma das locomotivas desta nova ideologia antropomorfizada: hoje os heróis continuam a ter um passado familiar mais ou menos conturbado ou nebuloso, frequentam a escola e são vedetas do show-biz. Tudo me leva a crer que se o Ruca transpusesse a barreira etária dos 4 anos, imediatamente os seus pais se divorciavam e mesmo assim já levava um ano de bónus sobre a média dos casamentos…

Longe vão os tempos do Pluto, que significa Plutão em inglês e apareceu com esse nome para capitalizar a popularidade da descoberta em 1930 do novo planeta que ao fim duns anos se provou ser um aldrabão, tendo-nos enganado durante décadas em relação à sua importância: afinal não passa de um reles calhau! De qualquer forma a mascote do rato Mickey era um cão normal. Andava pelado sobre 4 patas, ao contrário do Pateta, o melhor amigo de Mickey, um cão que andava todo vestido, erecto e falava. Mickey, namorada e sobrinhos eram todos pretos e só tinham direito a usar uma t-shirt, com as partes pudibundas ao léu; a Minnie andava nua da cintura para baixo mas com luvas e sapatos de salto alto… A sua melhor amiga era uma vaca, Clarabela, que tinha um “amigo especial“, como agora se diz, o Horácio, um cavalo! Sobre o ramo dos patos o panorama físico e psicológico não era mais policromático: todos brancos, também andavam nus da cintura para baixo, nunca se soube quem eram os pais, apenas existiam tios e sobrinhos e a Margarida era uma pata que namorava com o Donald mas mantinha-se sempre aberta à sedução do Gastão; com um era pata, com o outro uma p… Só a inocência relativa à época em que estas personagens apareceram, permitiu que nunca tivéssemos reparado nestas poucas-vergonhas…

Agora a Moranguinho, um bebé que já foi rechonchudo, tornou-se uma menina de formas esguias, a Turma da Mônica cresceu, as personagens ganharam maminhas, acne, penteados jovens, skates e telemóveis, a Barbie ganhou carta de condução, bebés, enfim todos subiram de escalão etário. Aqueles que mantiveram os desenhos originais, no mínimo mudaram a ideologia para um nível acima e se antigamente eram os maiores da rua deles, hoje lutam pelo planeta contra os mais terríveis vilões. Enquanto os super-poderes dos defensores da humanidade foram crescendo, os dos arqui-inimigos também se incrementaram e as lutas cada vez mais titânicas passaram a incluir todo o universo. Como anda tudo à bulha no mesmo palco, a Terra e como já são heróis e malfeitores a mais no mesmo espaço, muitas batalhas são travadas em dimensões paralelas às nossas ou em locais imaginários, criados numa primeira fase pelos vídeo-jogos. Os miúdos sabem todos os pormenores destes conflitos mas não fazem a mínima ideia quem foi Hitler ou a extensão dos estragos causados pelo seu ódio. A mim, por exemplo, continua a fazer-me imensa confusão a inconveniente ausência do Homem-Aranha, o Super-Homem ou o Capitão América durante o ataque às torres gémeas no dia 11 de Setembro de 2001…

15.1.10

GORDOS

Em Janeiro de 2010 tinha 48 anos, agora em 2035, tenho 73. É verdade que não tenho obesos na família, o que reduz bastante essa tendência mas passei os últimos 30 e tal anos sentado em frente a um computador sem nunca fazer exercício, o único que faço é de casa para o café; continuo a não engordar! É estranho… Será porque aos primeiros sinais de obesidade parava de ingerir porcarias, tipo snacks, hamburgers, bebidas com gás, deixei de comer mais do que precisava e acabei com os jantares alarves? Bastou isto? Nunca fiz dieta e só durante uma fase da minha vida andei num ginásio, no entanto mantenho-me sempre no mesmo peso. Parece milagre, não? Como não acredito em prodígios nem acredito que pertença a uma espécie rara de humanos, só consigo concluir a partir da minha própria experiência o seguinte: a justificação do sedentarismo como motivo para a obesidade parece-me demasiado empolada. 


No natal de 2009 resolvi passar para DVD bobines de filmes super 8 deixadas pelo meu pai, filmadas entre os anos 60 e 70 e que não via há uns 20 anos; a minha namorada, mais preocupada com essas questões reparou num pormenor: nem vou falar das crianças, mas em centenas de adultos que lá aparecem em mais de 4 horas de filmagens, só um era gordo! Quando andava na escola primária, na minha turma só havia um gordo, cuja alcunha era… o gordo! No liceu, mais do mesmo: havia um gordo na turma cuja alcunha era… o gordo! As histórias do menino Nicolau de Sempé e Goscinny que eu devorava e ainda leio, relatam as aventuras de uma turma de crianças onde uma delas é… gorda! Isto significa que no universo em que cresci a percentagem de gordos era tão baixa que um gordo era um freak, uma espécie única que se tornava notada por isso mesmo. Só para rematar devo-vos dizer que há alguns anos fizemos uma reunião de antigos alunos do liceu que nunca mais tinha visto e todos estavam disformes como se tivesse explodido uma bomba dentro deles; o único que estava magro era… o gordo! 


Que eu saiba, ninguém que aparece nos tais filmes passava fome e nós em particular comíamos que nem bestas e no entanto eram todos magros, em contraste com a percentagem de gordos que existe hoje. Que me lembre, as profissões eram maioritariamente sedentárias e ninguém fazia o mínimo exercício além de andar. O ideal de beleza feminina era muito mais “cheínho” nos anos 60 mas não tenho memória de tanta gorda como hoje; o que me lembro é dum ar “saudável”; hoje as mais cheias têm um ar doente. O que mudou? O parâmetro de avaliação? Talvez seja um pouco isso: hoje uma mulher, mesmo magra, já se acha uma gorda em potência mas esse facto também não explica tudo. O que se passa é que comemos imensos produtos processados que não existiam nessa época, ou eram consumidos de vez em quando, não regularmente. Depois, tudo o que é animal ou vegetal já cresceu à pressa, foi engordado à pressão para se tornar rentável o mais cedo possível. Quando ingerimos esses alimentos, parece que têm o mesmo efeito em nós: engordamos rapidamente! A seguir, toca a ir para o ginásio queimar violentamente mas acaba por ser um processo infinito porque ao continuar a ingerir este lixo, precisamos de exercício quase desumano para o eliminar. No momento em que se pára é o descalabro. Correr quilómetros por dia porquê? Somos todos geneticamente maratonistas, tipo Carlos Lopes? Veja-se o aspecto dele assim que parou de correr…


Tal como os animais e plantas que engordamos a um ritmo alucinante, somos máquinas de processar rapidamente. O motor do corpo tem as rotações puxadas ao máximo, muitas vezes ultrapassando os limites do risco vermelho que dá panne. Talvez para arrefecer a máquina, médicos e geneticistas passaram subitamente a recomendar a ingestão de quantidades absurdas de água. Sempre bebi um copito ou outro do precioso líquido mas de um dia para o outro “acordei” com recomendações de ingestão mínima de um litro por dia, e até já ouvi falar em dois litros diários!… Mas desde quando é que um ser humano precisa de andar acorrentado a um urinol? Está tudo louco? Acho que nem todos ensandeceram sobretudo se nos lembrarmos que uma garrafita de água mineral comprada numa bomba de gasolina custa quatro vezes mais que o combustível que pomos no depósito do carro! Hein? É verdade… Sempre a refilar com o preço dos combustíveis e mecanicamente damos uma moeda de 1€ por 0,25l de água… 


E eis-nos de volta ao mesmo assunto de sempre dos posts deste ano: tem tudo uma razão económica! Não quero adiantar muito mais sobre o futuro mas recordem-se da crise económica mundial de 2008: fomos estimulados a comprar ao máximo e de repente tiram-nos todas as formas de continuar a consumir. Quem tiver um emprego é um abençoado pelos deuses, mesmo que esteja a ganhar muito menos que há 20 anos, quando o objectivo era encher-nos de produtos. Agora preparem-se para uma crise mundial de alimentação e água! Depois de nos terem criado o vício de comer e beber lixo, nos terem engordado durante décadas já há planos para nos tirar tudo e pôr-nos ainda mais dependentes do que houver. Comecem a fazer o desmame daquilo em que estão viciados e a preparar uns jejuns, se não querem ser apanhados de surpresa; é que se não o fizerem, a fome que passarem, misturada com o pouco lixo que conseguirem comer daqui a uns anos, ainda vos tornará mais gordos…  

AVÉ NOVA DEUSA QUE NOS GUIA E PROTEGE!

De vez em quando são lançados uns iscos para ocupar aquilo que julgamos ser o nosso pensamento, a nossa opinião particular, quando, na verdade, estamos apenas a responder emocionalmente a estímulos exteriores. O último exemplo mais mediático, foi o laborioso trabalho prometido e executado para aprovar uma lei que permite o casamento gay. Geraram-se discussões acaloradas, a esquerda aplaudiu mas reclamou mais, um indivíduo socialmente influente disse que embora seja de direita, considerou essa aprovação um sinal de evolução civilizacional e o papa, talvez o mais anedótico de todos, justificou a sua oposição argumentando que esses casamentos põem em causa a reprodução da espécie; deve julgar que há poucos humanos no mundo e estes só se fazem com uma anilha no dedo. Ou será que a comunicação social só passou estas declarações infelizes retiradas dum contexto mais lato para achincalhar um dos mais conhecidos defensores do matrimónio à maneira "clássica"?…


Esta discussão é como um arbusto em que toda a gente debate a ramagem mas todos se esquecem de falar sobre a raiz. Escrevo sobre o assunto porque não ouvi ninguém referir as verdadeiras razões desta aprovação que são de natureza puramente económica, senão não o teriam feito, óbvio! É claro que medidas destas não vivem desacompanhadas de uma intenção de desgastar instituições que nos habituámos a respeitar. É como se os novos bispos, discípulos da matéria dissessem: "-meus amigos, as regras agora são outras e somos nós que as ditamos em nome do rigor orçamental". É também uma forma de dizer que nada escapa à nova deusa, a prepotente Economia; tudo está debaixo da sua alçada, a mais poderosa de todas! Se há instituições que se baseavam noutros princípios e iam sobrevivendo escondidas num sobretudo assobiando para o lado, não existirá o menor pejo em humilhá-las se oferecerem resistência. Não esqueçamos que a pouco e pouco, tudo se tem convertido a esta religião; a bem ou a mal como em todas.


Sou heterossexual (acho eu) e prezo de tal forma essa instituição que em mais de 48 anos de vida nunca me considerei apto para a abraçar. Receio de não ter a certeza se, por exemplo, a fidelidade conjugal seria até ao fim da vida? Talvez… O matrimónio era para sempre, um passo muito sério que se dava cuidadosamente e até os meus pais só o contraíram ao fim de 40 anos de convívio! Em países como o nosso, mais conservadores habituámos-nos a olhar com desdém para a prática dos casamentos por dá cá aquela palha, nos países mais liberais mas ainda chegará o dia em que a piada que foi a vida conjugal de Elisabeth Taylor será respeitada! Em 1928, sobre Portugal, Fernando Pessoa escrevia que "ninguém sabe que coisa quer, ninguém conhece que alma tem, nem o que é mal nem o que é bem"; pois bem: a partir de agora já temos liberdade legal para brincar aos casados e como o mais certo é não se ter a certeza se o acordo matrimonial é eterno, existe sempre a possibilidade de outro acordo: o divórcio! Concretamente o que foi feito foi incorporar mais uma instituição que assentava sobre valores éticos numa lógica capitalista: o casamento é um contrato material e ponto final. Os votos já não são trocados perante um padre representante de Deus na Terra que só permite a união entre sexos diferentes mas perante um bispo representante da nova deusa.


À luz da ciência e bem vistas as coisas, morfologicamente os sexos até podem ser definidos mas interiormente somos uma mistura química de percentagens de sexos diferentes. Os mais desequilibrados para um dos lados podem ter quase a certeza que pertencem a um género específico mas os mais equilibrados quimicamente são de que género? O matrimónio é uma tarefa complicada e não seria por muita gente ter desrespeitado os votos conjugais que a instituição perderia valor: vários reis tiveram amantes e outros eram obrigados a reproduzir-se com o horrível sexo oposto mas não era a instituição em si que estava mal, quem estava mal era quem borrava a pintura. A instituição é um código de conduta ideal e o esforço deveria ser feito para a cumprir. Por querer brincar aos casados, Henrique VIII criou uma nova religião na qual tinha o direito de fazer o que lhe apetecia e é essa herança cultural, política e económica que agora nos impõem. Este é que é o maior espinho encravado na garganta do papa católico mas não deixa de ser curioso que vários bispos anglicanos tenham recentemente pedido para voltar a abraçar o rebanho de Roma, fartos das "liberdades" da sua religião.


As regras do casamento são muito antiquadas? Então porque é que quem vive uma relação livre dessas regras deseja submeter-se a elas? Porque já sabe que são a fingir, são uma brincadeira, vêm transmitir mais pimenta à relação! Qual será o gozo de pessoas que eventualmente já vivem como uma família terem um papel a dizer que o são? Serão mais aceites socialmente do que já eram ou pretendem inconscientemente desmascarar a falsidade do carácter do casamento? É claro que os visados directos pela aprovação da lei aproveitaram para se fazer ouvir e reivindicar até ao limite possível o máximo de igualdade. Com este caminho aberto, meias-soluções não satisfizeram, havia que ir até ao fim. Na pós-aprovação da lei, e se quiserem justificar as suas pretensões, sugeria-lhes responder com um slogan publicitário em voga: "se eu podia viver sem o casamento? Podia mas não era a mesma coisa"; não dá "pica", digo eu... E também sugiro outra coisa: vamos mais longe! Acabemos de vez com este cinismo que entrava a plena integração social de todos os humanos e já agora com a parvoíce de, por exemplo, obrigatoriedade de cuidados na saúde e na doença, jurar fidelidade, etc. etc.; não há entretenimento, seguros de saúde e gajaria por aí aos pontapés? Não é para aí que caminhamos? Arrepiemos caminho e acabemos é com o casamento! No fundo, fraco como sou, sempre vivi sem ele mas admirando quem se empenhava, pensando que era uma meta apenas ao alcance de eleitos que deveriam atingir um certo grau de perfeição ao se dedicarem a cumprir as suas regras. E é nesta destruição de utopias, valores pelos quais valeria a pena lutar para se auto-melhorar que consiste a religião da nova deusa, Economia.

14.1.10

OS CUS DOS CAVALOS ROMANOS

Esta é a primeira vez que vos contarei um segredo verdadeiramente importante acerca do futuro: ele pode ser modificado aí no presente! Ou seja: se alguém resolver alterar o que está destinado a acontecer, o meu presente, o vosso futuro passa a ser um entre ziliões de futuros possíveis; a questão é que ninguém ainda o fez… Lembram-se da trilogia de filmes Regresso ao Futuro? É um pouco parecido com isso; a única diferença é que nessa série, as alterações no passado produziam apenas um único futuro; na verdade, o que sucede é que de cada vez que voltamos ao passado e o alteramos, estamos a somar mais um futuro alternativo que coexistirá numa dimensão paralela àquela em que vivemos. Parece complicado mas não é; o que é complicado é ter coragem de modificar o presente. 


Admito que não seja uma tarefa fácil e também cada vez mais é complicado apenas um humano ter poder para isso. Hoje em dia, só um grupo muito forte de pessoas e acções poderia ter capacidade para o fazer; porquê? Porque desde há várias décadas que o nosso destino é traçado por um conjunto organizado de pessoas interessadas em controlá-lo e munida dos meios para o executar. Assim, se alguém desse um tiro na cabeça do Barak Obama, o presidente do banco europeu Jean Claude Trichet morresse num acidente, as sedes das maiores empresas do mundo ruíssem com um terramoto, os dirigentes eram substituídos, os bens reconstruídos e o sistema manter-se-ia. Se, na juventude, D. Afonso Henriques tivesse partido o pescoço num acidente de cavalo, muito provavelmente não existiria esta incómoda língua, nem um país tão controlável como descontrolado, chamado Brasil, ou seja: tinha feito muita diferença! Hoje, o ditado popular "uma andorinha não faz a primavera", faz todo o sentido, sendo que, para o nosso quotidiano material, a primavera vem quando esse grupo que decide por nós, assim o deseja.


Como conseguem fazê-lo? De base, têm os conhecimentos fundamentais das artes guerreiras e de organização, em especial do Império Romano. É notória, até em obras materiais, a adoração que a maior potência da actualidade, os Estados Unidos, nutre pelo Império Romano. Numa primeira fase de conquista este império estabeleceu-se através do estímulo de rivalidades locais (dividir para reinar); numa segunda fase, consolidou-se com a uniformização das leis, economia, religião, etc. (unir para reinar). Querem maior semelhança com a actualidade? Houve altos e baixos, os dirigentes sucederam-se às dezenas mas o império em si durou mais de 500 anos! São os mesmos princípios usados hoje, só que na altura não tinham todos os meios que existem agora. A idade média na civilização ocidental é tão odiada pelos grupos que nos controlam porque destruiu este modelo organizacional tão adorado. Estou convicto que se o império não tivesse caído de podre, empurrado pelos bárbaros, o homem tinha chegado à Lua no século XVI, se quisesse. É óbvio que não se consegue chegar ao ponto de controlar totalmente uma ovelha mas o grosso do rebanho é dirigido para onde se quer: há poucos seres mais dependentes de outros da sua espécie como os humanos. O controle do império era feito através de várias formas, entre outras: presença militar, vias de comunicação fluidas, apascentação dos povos com regalias, conflito permanente, distracções lúdicas ou religiosas, tudo isto sustentado numa corrupção generalizada. Voltamos ao mesmo: querem maior semelhança com a actualidade?


A tecnologia permite utilizar outras ferramentas mas o método é o mesmo. A força militar ainda é mais ou menos visível conforme as regiões. As comunicações dão a ilusão de liberdade individual mas a doutrinação de que somos alvo desde a nascença nunca nos permitirá conhecer outra forma de ver o mundo; só vemos as coisas da forma que nos foram ensinadas. Os grandes escritores, poetas, músicos, pensadores, filósofos etc. não são esquizofrénicos, alucinados, agarrados ao álcool, ópio, sexo e sei lá mais o quê que nos querem fazer crer; não! São pessoas que nos transmitiam a imagem da nossa própria dimensão humana e que em última análise podem hoje ser considerados subversivos. Por isso, as suas obras tendem a desaparecer do ensino e do consumo geral. Os livros transmissores de pensamento artisticamente contemplativo ou crítico, por exemplo, são uma espécie em vias de extinção. Além de as editoras já não publicarem este tipo de obras, as livrarias vão sendo substituídas por hipermercados que vendem aventuras mágicas, estudos ou tendências de fenómenos de moda, guias de viagens, gastronomia, biografias de pessoas banais, a maior parte, escritos de pobres de espírito que venceram materialmente ou ascenderam na escala social. São estes os nossos modelos. No fundo, é tudo o que nos impeça de pensar por nós; só nos são oferecidos escapes e formas de atingir o sucesso. Que ilusão… Para um atingir o sucesso, normalmente efémero, vários milhares foram condenados ao insucesso e como cada vez somos mais na Terra, é fazer as contas… Tenhamos sempre presente que os grandes mestres nunca não nos ensinaram a segui-los mas sim ajudaram-nos a pensar por nós próprios! 


A internet ainda é livre, sim; mas o que é que isso interessa? Quantos têm tempo e capacidade para usar as suas potencialidades, de procurar e descobrir um grão de ouro no meio do desértico areal? O que há mais é fancaria e este falso brilho gera o efeito oposto à suposta liberdade anunciada: vivemos intoxicados de informação, musiquinhas incidentais, preocupações que não nos pertencem, tarefas que nos ocupam, aspirações que não desejávamos à partida… Em suma, temos a cabeça cheia de merda que impede o livre fluxo de ideias e que assim, permite sermos mais facilmente controlados. Infelizmente, agora também já ninguém precisa de nos mandar fazer seja o que for: este atavismo passou a fazer parte da nossa essência e se não nos distrairmos com qualquer coisa é a loucura, já não nos conseguimos ouvir no meio do "ruído" que produzimos e somos nós próprios que o procuramos de livre e espontânea vontade, de modo a nos sentirmos vivos.


Durante anos lutámos individualmente por conforto e agora que o temos mais ou menos generalizado procuramos o quê? Se fizermos um inquérito de rua a cidadãos comuns, ninguém sabe definir em concreto a razão de tanta ânsia. Tudo acaba inevitavelmente por confluir nas preocupações materiais, sobretudo na manutenção do nível de conforto a que nos habituámos; e é aqui que entra a apascentação das massas, misturada com o conflito permanente. O engordamento pacientemente cultivado ao longo de décadas, retirou-nos capacidade de reacção ao mesmo tempo que o medo da perda de regalias atormenta-nos o espírito e ela é uma ameaça constante, martelada e massificada pelos média. É o medo da perda que nos abre as portas da corrupção! Se nos países ocidentais as guerras têm os seus palcos em locais tão distantes, como manter a população em permanente pânico? Através da violência urbana, gangs, ameaças terroristas… A humanidade só produziu génios quando a luta pela sobrevivência estava assegurada; como não somos perfeitos, só dedicando totalmente a energia a um assunto, descurando outros, se chega lá e raríssimos foram os que escaparam a esta limitação. Ninguém que se preocupa em aparecer vivo todos os dias ou ter dinheiro para comer se põe a meditar sobre o sexo dos anjos. Esta constante exposição ao perigo é a forma de nos aniquilar os pensamentos! O resto do trabalho de alienação é complementado pela nossa dependência do entretenimento: nunca houve uma época tão fabulosa na história humana de oferta de entretenimento!


Há uns anos contaram-me uma história, não sei se verdadeira mas o que interessa é atentar nas ligações que as coisas têm, podemos não as conseguir explicar mas elas estão lá e às vezes até as intuímos; se as quisermos entender na totalidade só precisamos de procurá-las bem fundo e ter atenção à história: ela repete-se incessantemente. Uma das preocupações de manutenção do Império Romano eram as vias de comunicação e à medida que se ia expandindo eram construídas várias estradas; as que deixou nas ilhas Britânicas foram sempre usadas até à revolução industrial a partir da qual serviram de molde para a dimensão das linhas de caminho de ferro que se iniciaram. Nas colónias, o princípio era o mesmo, os modelos de construção tinham as medidas que eles usavam na metrópole: pés, galões, jardas e toda a espécie de medidas morfológicas de determinado rei que ainda usam hoje… Nos Estados Unidos as linhas de comboio que se construíram tiveram como base as medidas das linhas inglesas. Quando os Space Shuttles foram construídos, a sua dimensão e local de construção implicaram que fossem transportados para o sítio da montagem em peças de tamanho suficiente para caber nos comboios de mercadorias, ou seja: a fabricação dos Space Shuttles tinha condicionantes logísticas motivadas pelo tamanho das linhas de caminho de ferro que tinham as medidas inglesas, que tinham vindo de Inglaterra, que tinham sido construídas com base nas medidas das estradas romanas que eram construídas com essas medidas de forma a caberem nelas uma carroça com dois cavalos emparelhados. Em conclusão: o tamanho total de dois cus de cavalos lado a lado interferiu directamente, a 20 séculos de distância na fabricação do veículo tecnologicamente mais avançado feito pela humanidade, destinado a sair da órbita terrestre…