5.11.09

A TRADIÇÃO DAS FESTAS

… e assim se passou mais uma festividade, desta feita o Halloween. Na minha época, no Portugal de 2034 já nos estamos a preparar para o dia de Acção de Graças em que tradicionalmente todas as famílias se juntam à volta dum peru antecipando as festividades do natal em que as famílias se juntam à volta de um bacalhau, um cabrito, outro peru, enfim, vai variando conforme as regiões… Comparando com 2009, algumas datas de festividades mudaram mas o que não varia são os temas das festividades regulares e sincronizadas no mundo inteiro. O maior contributo partiu obviamente dos Estados Unidos, que conseguiram pôr o mundo a celebrar o dia da terra a 22 de Abril e o dia da independência a 4 de Julho como já o tinham feito com o dia de S.Valentim, o Halloween e o dia de Acção de Graças. Não são feriados, há que continuar a laborar, são apenas dias em que o comércio se movimenta e os consumidores compram objectos alusivos a essas celebrações.

Não se espantem, não há nada de novo nisto! Quando a lógica de poder era exercida através do temor pelo sobrenatural, no ocidente, o cristianismo apoderou-se de todas as festas pagãs e transformou-as em celebrações religiosas; por exemplo, a mais conhecida de todas, o solstício de Inverno, como sabem, chama-se agora o natal. O tempo passou, mantiveram-se todas as festas mas mais uma vez foram travestidas na sua essência. Durante vários séculos pertencemos ao rebanho de Deus que nos castigava ou recompensava através dos seus representantes terrenos. Por um breve período de transição chamaram-nos cidadãos, educando-nos com a ilusão de que tínhamos liberdade de escolha e preparam-nos para o que somos hoje: consumidores, máquinas biológicas de processar o que nos oferecem!

Assim, quase sem darmos por isso, o calendário anual ajustou-se a interesses económicos que nos obrigam a ter de consumir determinados produtos, todos supérfluos, claro, sob pena de nos sentirmos desajustados; para uma espécie que tem na sua essência hábitos sociais, o pior que pode acontecer a um dos seus indivíduos é sentir-se à margem dos outros… Em 2034 as coisas não são muito diferentes, vamos tendo umas festas regulares que nos ajudam a suportar e sobretudo a esquecer que somos manipulados através dos nossos próprios instintos. As economias emergentes em 2009 conseguiram marcar pontos ao longo dos anos e associar alguns aspectos culturais locais a celebrações mundiais; não se esqueçam que nos dias de hoje, se uma festa for celebrada 3 anos seguidos passa a ser uma “tradição”!

Como o natal calhava muito em cima do ano novo, adoptou-se o ano novo chinês que é lá para fins de Janeiro, o que deu a oportunidade aos consumidores de ao fim de mais um mês de trabalho terem outra vez dinheiro para gastar; o 13º mês já não existe: as empresas poupam e os consumidores têm um mês para juntar recursos para estoirar na passagem de ano em viagens ou explosivos; o lobby das armas trabalhou bem… Em Fevereiro celebra-se o dia de S.Valentim, onde os namorados oferecem provas do seu amor (uma sequela do natal) e entre esse mês e Março temos o Carnaval à moda brasileira (é preciso comprar máscaras), sendo que 47 dias depois há a Páscoa, o antigo equinócio da Primavera, agora o paraíso do chocolate e sobretudo dos comerciantes suíços e alemães. Em Abril, graças à eficiência de Al Gore temos o dia da Terra, em que se celebra a impossibilidade de mais países além das potências que já produzem, poderem criar indústrias porque dão cabo do planeta; tradicionalmente oferecem-se flores, e vasos com plantas a qualquer pessoa (estamos todos no mesmo barco); bom trabalho do lobby holandês nos Estados Unidos.

Em Maio temos o dia da Mulher, uma ideia da Rússia em que tradicionalmente se oferecem Matrioskas de todos os tamanhos mas só com o invólucro exterior; é como um Kinder Surpresa para mulheres: lá dentro podem estar as mais variadas prendas, dependendo da capacidade económica do comprador. Em Junho há o dia da Criança, outra sequela do natal, em que se pode dar qualquer coisa mas a tradição manda que se ofereçam consolas de jogos ou filmes japoneses às crianças. Em Julho celebra-se o dia da independência dos Estados Unidos, uma espécie de usurpação do dia da tomada da Bastilha, ou melhor, uma versão aperfeiçoada e actual. Tradicionalmente compram-se uniformes e bandeiras, uma sequela do Carnaval, fazem-se desfiles e celebra-se a liberdade, sobretudo de compra, dos consumidores.

Se no final de Outubro já havia o Halloween (outra sequela do Carnaval), o dia dos mortos perdeu significado por ser muito perto dessa data. A Índia agarrou a oportunidade e instituiu-se pelo mundo fora a celebração dos mortos e da renovação espiritual em Agosto; agora, no pino do sol e da vida celebra-se a lembrança que de um dia para o outro podemos ir desta para melhor! A época de banhos que já era sagrada em Portugal ganhou mais misticismo, o potente lobby da cera patrocinou a sua instituição e agora, tradicionalmente, toda a gente compra velas para pôr a boiar nos rios. O feriado da Ascenção de Nossa Senhora ficou literalmente a ver navios mas em breve a nossa cultura iria absorver o espírito da celebração: as velas vendidas em Fátima com formas de braços, dedos, pés, etc, são agora lançadas sobretudo ao rio Trancão, o mais parecido com o Ganges, pelo menos em sujidade. Em Setembro celebra-se o dia dos avós, uma vitória do lobby das indústrias farmacêuticas. No dia 23 o Outono da Terra mistura-se simbolicamente com o Outono da vida e como é da tradição, oferecem-se Viagras aos avôs e Aspirinas às avós. Como já vimos, no final de Outubro há o Halloween e no final de Novembro o dia da Acção de Graças onde aqui em Portugal continuamos sem saber muito bem o que é mas as explorações avícolas apreciam o nosso empenho nessa festa.

Não sei se repararam mas quase todas estas festas são no final do mês; pode ser um mero acaso que elas coincidam com a altura em que toda a classe trabalhadora passou a receber o seu ordenado mas o movimento comercial agradece e aproveita-o. Só mais uma nota final: os franceses continuam a produzir carros, armas, foguetes, filmes, a manter o seu espaço em África e no Canadá mas soçobraram novamente ao tentar impor o seu diazito de inspiração francófona. O lobby anglófono já lhes tinha tirado influência cultural, territorial, a maçonaria, a fraternidade, a igualdade, o dia da liberdade e mais recentemente não conseguiram fazer vingar internacionalmente o dia do Obélix que em França se celebra comprando um menir e deixando-o à ombreira da porta para conjurar o perigo que é o céu lhes cair um dia na cabeça. Durante uma semana só se come javali, bebem-se poções alucinogénicas, usam-se capacetes com asas e fazem-se orgias. Estes gauleses são loucos…

1 comentário:

eliane disse...

É bem engraçada essa invasão de tradições que nada tem a ver com as nossas, no meu caso, as braisleiras.
O Thanksgiving é uma efeméride completamente ligada aos acontecimentos dos colonos da América do Norte e o Halloween então, nem se fale! sempre tivemos o nosso bom "Dia dos Mortos".
Acho um "mico" o tal de Haloween na Terra Brasilis! enfim, uma vez colonizados, para sempre, colonizados.
Amém! LOL