Aproveitando a estreia em Portugal de 2009 do filme “2012” cujo tema é o fim do mundo, devo relembrar-vos que vivo em 2034 e até agora, fim, só vi o do “2001 Odisseia no Espaço” e tenho a impressão que ainda não percebi… Não me vou debruçar sobre a fita em si (uma ideia feliz para alguém fazer muito dinheiro) mas sobre o clima que permite que ela tenha espectadores, e que existe pelo menos desde a passagem de 1999 para 2000 ou, se quiserem, do século XX para o XXI. Se olharmos para a história com uma visão mais lata do tempo verificamos que não é surpresa que assim seja; nós, humanos, derrotámos tigres dentes de Sabre, até vamos matando alguns dragões mas o último desafio, vencer a morte, nunca conseguimos. Entretanto, quais macacos de Kubrik, vamos fazendo um escarcel tremendo antes de ela nos tomar. Deveríamos estar felizes por cá estar, respeitarmo-nos e o que nos circunda: somos parte do todo e um elo de ligação na cadeia que liga passado ao futuro. A contagem do tempo é meramente circunstancial e só ganha relevância a partir do ponto de vista do observador; como somos pequenos, o tempo que nos interessa também o é. Aqui é preciso fazer uma justa homenagem à civilização Maia pelo seu elevado grau de compreensão dos mecanismos do universo.
Noutras eras as preocupações da humanidade situavam-se num plano mais infantil de desenvolvimento como espécie: castigo e recompensa dos nossos actos perante um pai divino. No século XXI a humanidade está na adolescência, tomou consciência que cresceu e construiu por si os meios que lhe permitem tomar conta da "casa" sozinha. Agora já não há pai que nos castigue, precisamos rapidamente de nos tornar adultos e governarmo-nos com o que temos; ainda somos como jovens vivendo numa república estudantil em bebedeira constante, só fazendo disparates e partindo a casa toda. Assim, esta paranóia mundial com o fim só deveria ter paralelo com cuidados concretos para nos preservarmos a nós e ao planeta.
Em 2009 estávamos no fim de uma era, a era de Peixes e era normal que surgissem profetas e profecias anunciando o fim próximo; já o mesmo se tinha passado na transição da era de Carneiro para a de Peixes. Eu não vivi essa época mas caramba, basta ter lido um poucochinho sobre o assunto para nos virem à ideia várias semelhanças: acaso já ninguém se lembra que essa foi a altura em que Cristo surgiu, bem como milhares de outros profetas e profecias, todos mergulhados num contexto pré-apocalíptico? As suas fantasias eram mais ou menos semelhantes às dos profetas actuais, só que hoje, com mais rapidez de informação não há lugar para a manutenção de mitos muito prolongados no tempo. Os que existem são antigos, nasceram numa época em que não se pode provar muita coisa. Por isso já tivemos semi-deuses, milagres e hoje em dia nenhuma destas coisas fantásticas ocorre.
Consta que Cristo era diferente, embora se contextualizarmos a época não censuro quem não tenha pensado o mesmo… Sobretudo por causa dos que pegaram na sua história, este foi o profeta que vingou sobre os contemporâneos mas uma simples leitura do Livro escrito sobre a sua vida, faz-me crêr que ele e os acólitos mais próximos morreram a pensar que o dia do julgamento final se encontrava para breve. Talvez Cristo fosse diferente dos demais profetas porque acreditava genuinamente no que dizia e é sobre esse tipo de carácter que os oportunistas estabelecem o seu poder e levam uma vida confortável. Depois da sua morte e os séculos terem passado sem nenhum fim à vista, os seguidores encarregaram-se de esticar no tempo até ao infinito o tal dia do julgamento final, pudera: já cá andam há uns 2000 anos e conhecem bem os perigos de fazer afirmações rigorosas e definitivas sobre profecias! Desde sempre e ainda mais hoje em dia, os profetas perceberam que a imortalidade está directamente relacionada com o mediatismo das suas acções e com as sementes que deixam no coração dos outros, sendo isto tão válido para o ódio como para o amor! Muitas vezes, mais do que obras materiais é a transmissão de afectos que perdura no tempo!
Embora injusto também é normal que se atribuam todas as responsabilidades do que está mal à era que termina e se veja como portadora de esperança e de salvação, a que se segue; é o fim de um ciclo e o começo de outro, a uma escala mais pequena é um fenómeno semelhante ao vivido no fim do ano com a passagem para o próximo. A era que se aproxima, a de Aquário, é descrita pelas pessoas mais “espirituais” como uma era de elevação sobre a matéria, de amor desprendido, universal e etc, etc. Mas se quisermos seguir a simbologia zodiacal ninguém me conseguiu convencer em que é que isso difere assim tanto da simbologia dos Peixes! Honestamente: acham que a era de Peixes foi terrível e a de Aquário será fantástica? É claro que não, o que se passa é que a de Peixes está usada, já se viveram dois mil anos nela e Aquário é a novidade! Sou capaz de jurar pela minha alma em como daqui a dois mil anos toda a gente irá culpar a era de Aquário pela desordem então instalada, depositando grande esperança na que se segue, a de Capricórnio, ansiando organização e prosperidade. Parece-vos absurdo? Não se convençam disso, tudo muda com o tempo; o que se passa é que estou a falar de uma moda que só virá daqui a 2000 anos e como tal não tem o mínimo interesse ou credibilidade neste momento. É tão óbvio que até chateia! Já agora, também chateia um bocado saber que não restará o mínimo grão de pó de mim ou destas palavras para provar que estou certo mas isto é mesmo assim, não há nada a fazer...
Não me interpretem mal, não quero de forma alguma dizer que o que aí vem não é melhor; basta pensar onde estava a humanidade entre 24 a 26 mil anos atrás quando entrámos na última era de Aquário; nessa altura não era igualmente fabulosa?… Há de facto uma contínua evolução mas o espaço e o tempo são demasiado grandes para as nossas vidinhas; por isso não acredito em milagres instantâneos nem fomento esperanças ridículas, sobretudo quando estas implicam espezinhar ou esquecer o que já foi feito. Fim do mundo em 2012? Ofereço-vos desde o futuro uma emoção mais forte e real: finalmente se provou que o nosso sol faz parte de um sistema binário, ou seja, o sol e o seu séquito, juntamente com outra estrela e o respectivo sistema giram os dois à volta de qualquer coisa ainda não definida! Não vos quero maçar muito com pormenores mas a esta altura já consigo sentir à distância o desinteresse dos leitores: “-só isso?” Pois é, só isto, mas pensem nas implicações filosóficas que trará à nossa maneira de ver o mundo e a nós próprios!
No mesmo espaço contemporâneo, o Islão vive no século XV, os cristãos no XXI, os judeus no LVIII! Quanto ao tal fim do mundo, nunca se esqueçam que a Terra e o resto do universo estão-se um bocado a cagar para a nossa cronologia do tempo: se tudo tiver que acabar um dia, até pode ser à noite, será na altura que lhes der na real gana; se por acaso for numa data específica prevista por alguém, isso não será mais que uma espectacular coincidência que em princípio não deixará seguidores para glorificar o visionário. De que serve então anunciá-lo? Tirando os bem intencionados avisadores, a maior parte das vezes as previsões catastróficas servem para que um ou alguns mortais mantenham um ascendente ético, intelectual ou material sobre os demais; é um acto desesperado de alguém que quer ganhar ou pelo menos, não perder poder mas aos olhos de um deus qualquer acima do universo conhecido todos nós devemos parecer completamente patéticos na nossa demanda pela imortalidade.
As pessoas e as coisas vão-se todas e as ideias só se mantêm enquanto forem sentidas e vividas; se outras novas preencherem o nosso coração, “adeus ó vai-te embora” da nossa vida, despachada para as páginas de um livro: o que sucedeu, por exemplo, à espectacular e poderosa família de deuses egípcios que reinaram durante mais de 30 séculos? Seria efectivamente uma pena mas morrer não me tira o sono: transformar-me naturalmente em pó será apenas um regressar à forma donde vim. Aquilo que me dá insónias são as mortes que já provocámos por egoísmo de bem-estar momentâneo ou por não aceitar que as nossas vidas ou ideias têm um fim; que espécie tão ridícula… Se querem acreditar em algo, acreditem nisto: nós não somos um princípio mas temos um princípio; nós não somos um fim mas temos um fim; nós somos e temos um meio!
1 comentário:
Pois é João, desde as cavernas o homem é intrinsecamente o mesmo: movido à paixões e interesses.
As cosmogonias são como transcendemos à nossa frágil condição humana.
Escreve bem "my friend", adoro lê-lo.
Beijos!
Eliane
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