Em 2009, durante uns dias de Outubro, um facto agitou o orgulho nacional: o desrespeito duma actriz brasileira para com Portugal. Francamente: a indignação nacional só tem paralelo na patetice desta actriz! Julgo que este vídeo faz parte de um programa de entretenimento em que ela optou por querer parecer engraçada aos olhos dos seus conterrâneos, recorrendo à piada do preconceito; é natural no ser humano desejar aprovação duma plateia e lá, o recurso ao estereótipo lusitano é tão garantido como as caralhadas do Fernando Rocha por cá. Toda a gente no estúdio se riu mas eles é que ficam mal, não? O programa, de saias, ao dar cobertura àquilo assume que é uma capoeira de galinhas tontas que falam e riem de trivialidades; não tem mal nenhum, a sério! Apenas confirmam que são leves, descontraídas, parvas e que colocam o papel da mulher nesses termos; esta é, aliás, uma das funções dos média nos países do terceiro mundo, sobretudo nos muito ricos e cuja riqueza é escandalosamente mal distribuída.
Se vamos pelo caminho do preconceito, penso que os americanos em geral, são assim, tendo dinheiro acham que podem comprar tudo: amigos, beleza, bem estar, valores, a aprovação dos outros, saúde, enfim... É o espelho duma cultura materialista jovem, às vezes infantilizada, que goza com os velhos e que cada vez está mais disseminada pelo mundo. Não tem mal, só se torna negativa quando tenta impôr esses padrões como referenciais para toda a humanidade que não os aceita ou lhes resiste. Daí a estupefacção do norte-americano comum com a derrota na guerra no Vietname e com a resistência ao extremo estupidamente(?) suicida dos iraquianos.
O único respeito/temor que culturas jovens têm é a quem é mais rico e poderoso que eles. Há uns anos houve uma indignação nacional no Brasil quando num episódio dos Simpsons, Rio de Janeiro foi retratada como uma cidade cheia de macacos deambulando pelas ruas; porquê? Estão fartos da analogia com os nossos parentes símios ao recordar-lhes que são um país caótico ou porque lhes lembram que são uma sociedade maioritariamente amulatada e de clima quente? Talvez por isso grande parte dos brasileiros, ao explicar o seu país ponha bastante ênfase no facto de existir uma região ao sul com invernos rigorosos onde só vivem descendentes de alemães...
Conheço as américas e digo-vos: se ficarmos num hotel de luxo do Brasil e se pedirmos um elefante cor-de-rosa no quarto, eles arranjam-no! Desde que haja dinheiro para isso, vale tudo... Casos como os do "técnico", tenho às dezenas em hotéis brasileiros mas aqui ninguém iria achar graça (o preconceito lusitano sobre os brasileiros já encara como natural esses comportamentos) e se fosse dito numa tertúlia de tontas não se tornaria num caso nacional no Brasil. Já agora: o 3 virado ao contrário foi a coisa mais absurda que encontraram em Sintra? Isto são pessoas que nunca se afastaram muito do quarto do hotel. O ego nacional em Portugal ficou tão ferido que acho que já ninguém reparou como no final do vídeo, a própria tonta foi gozada pela apresentadora!
Aparentemente, o que mais indignou as consciências lusitanas foi o facto de ela cá vir com frequência "aproveitar-se" dos portugueses, fazendo espectáculos ou angariando receitas, sei lá, nunca vi nada dela, e dizer que ama o país, como até o refere no vídeo em que tenta fazer as pazes... Primeiro temos que compreender que ela é uma actriz, por amor de Deus! Dizer que ama ou não ama tem a mesma relevância que um papagaio que diz uma asneira: pode chocar-nos mas é um ser irracional que repete o que lhe ensinaram. Agora, se acham que ela vem cá "mamar", no mínimo sejamos magnânimos e pelo menos concedamos-lhe a tradicional opção de engolir ou deitar fora; ao pé da fonte parece que ela escolheu a segunda... De facto, esta cena só me parece ser uma de duas coisas: uma miúda imbecil da primária a fazer porcarias com cuspo ou uma actriz porno a deitá-"lo" fora. Talvez a verdade esteja numa mistura das duas...
Estou-me borrifando para o caso, não subscrevo abaixo-assinados, o que este episódio me merece é uma reflexão sobre nós próprios: se vamos sobrevalorizar, só nos enterramos, caramba! Que raio de país é este tão pequeno que se indigna com os comentários de uma actriz qualquer? É por ser brasileira? Que ressentimento feio... O nosso analfabetismo e pouco interesse por valores culturais é que hipotecam a nossa grandeza, não nos permitindo rir do que tem graça, desvalorizar o que não tem importância e indignarmo-nos com o que é verdadeiramente chocante. Porque é que não vi tamanha indignação em Portugal quando os guerrilheiros Taliban metralharam e dinamitaram Budas milenares no Afeganistão? Porque hoje somos pequenos! Aquilo está muito longe e não é nosso; se fôssemos grandes, também sentiríamos aquilo como nosso; como somos pequenos, o pouco que temos é defendido com unhas e dentes e ganha uma dimensão quase religiosa. Para nós, aquela cabeça de vento cuspiu no Santo Sudário!
Se tivessemos real respeito e conhecimento pela nossa história saberíamos que o Mosteiro dos Jerónimos simboliza o nosso triunfo mundial na demanda das Índias; a América não "existia", não nos interessava a nós nem a nenhuma potência mundial da época dos descobrimentos. Vasco da Gama morreu rico e respeitado com o troféu da Índia no bolso enquanto Colombo morreu quase na miséria e convencido que também lá tinha chegado. Só para mostrar o seu conhecimento ao mundo, D.Manuel I mandou um obscuro capitão de mar (que tristemente já poucos em Portugal sabem dizer o nome) desempenhar uma tarefa que acredito que não fosse a mais apetecível para a elite dos marinheiros: descobrir oficialmente as terras a ocidente. Que amor próprio podem ter os brasileiros se o início da sua vida como "civilização" ocidental começa com um facto mediático protagonizado por um actor de segunda? De facto, não se sabe muito sobre Pedro Álvares Cabral; tal como Neil Armstrong que não tem curriculum de nenhuma bravura particular, ele foi lá pôr o pé, e como esses territórios ganharam importância no futuro, acabou deixando o nome para a posteridade.
Alguma vez mostrámos interesse pelo Brasil até ele se ter tornado apetecível economicamente? A partir daí só o explorámos e parece que só ligámos ao nosso "filho" quando ele se tornou adolescente e penso que esse facto também pesa no ressentimento infantil de que somos alvo por parte dos brasileiros. Fomos o pai, talvez mais descuidado que os outros europeus que obrigámos o filho desde cedo a trabalhar. Sabemos que ele tem de crescer e ultrapassar esse rancor, enquanto não o fizer não amadurece mas a nós cabe-nos a ingrata tarefa de tolerar e suportar as culpas de todos os seus próprios defeitos. Isso é respeitar a história e seguirmos a nossa própria vida. Retiremos lições dos erros e cresçamos também, o nosso caminho é diferente, somos mais velhos mas precisamos de voltar a ser grandes; isso só lá vai com tolerância!
2 comentários:
Muito acertado este teu artigo. Só aquela comparação entre actrizes e papagaios parece-me forçada e desnecessária... Mas mesmo assim gostei.
aqul'Abraço
Deram muita atenção a quem não a merece.
Pensei até que seria declarada uma Guerra Portugal-Brasil.
Ela foi de uma extrema falta de educação e indelicadeza, e nós mesmos, os brasileiros, repudiamos o comportamento lamentável.
Enfim, esqueçam-na, não vale a pena.
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