6.9.08

'TÁ-SE MAL É NA CRUZINHA...

Desde sempre, a influência cristã, isolamento, impotência, opressão ou sei lá o quê, moldaram nos portugueses um carácter predisposto ao sacrifício e à vitimização, como forma de atingir a glória; o que parece certo é que o nosso comportamento tem como base um ego inchado por um complexo que oscila entre a superioridade e a inferioridade. Assim, costumamos apregoar que os nossos queijos, vinhos, paisagens, petiscos, etc são “os melhores do mundo” ainda que quem faça esse tipo de afirmações raramente tenha saído do lugarejo onde vive. Ser o melhor ou pior implica uma comparação objectiva com outros mas isso aqui raramente sucede; somos os melhores mas duma forma subjectiva, não científica, ou seja: sabemos que o somos mas não temos como prová-lo ao mundo, que chatice! Deve ser por isso que não nos ligam nenhuma… Vociferamos contra o mau funcionamento do nosso sistema interno mas se chamarmos a atenção ao ponto de um estrangeiro escutar e ele tiver a infelicidade de concordar, então a nossa indignação não conhece limites: só nós é que estamos autorizados a dizer mal de nós próprios!

Por outro lado, aqueles aspectos do comportamento colectivo dos quais nos envergonhamos são para manter em segredo, uma espécie de cultura não documentada e transmitida secretamente de pai para filho, de colega em colega de modo a safarem-se na vida, a serem mais espertos que os outros. Entre esses pedaços de conhecimento encontram-se o “aproveitar ao máximo possível aquilo que não foi conseguido com o nosso esforço” como brindes, ofertas, subsídios, viagens, “não és mais do que eu” que se traduz em resistência à autoridade ou superiores hierárquicos e inveja pelas aquisições alheias e “comer pela calada ou pelo menos não ser comido”, que basicamente consiste em não fazer figura de urso; isso consegue-se tentando sempre ultrapassar os outros usando meios legais ou não e independentes do mérito pessoal.

O que sucedeu ao infeliz Marco Fortes na China foi que cometeu a estupidez de revelar que usou esse conhecimento secreto em proveito próprio, algo que obviamente nos devemos coibir de comentar em público… Compreende-se: ele estava lá longe, relaxado, num ambiente cosmopolita, a curtir uma espécie de “Erasmus” do desporto, a beber uns copos e tal, nada de mal; quase todos os portugueses que lá estavam com ele sabem o que isso é, partilhavam o mesmo sentimento, sou capaz de jurar que o próprio jornalista que gravou as declarações nem se deve ter apercebido da suposta “gravidade”, apenas se tornou um caso porque descontextualizadas, a milhares de quilómetros de distância, as palavras pareceram quase ofensivas para os “ursos” que cá ficaram. Subitamente, todos os que andaram a descontar nos impostos para pagar a deslocação do Marco à China se sentiram “papados” e isso foi o pior que poderia ter sucedido ao infeliz; daí, mais tarde, em entrevista, ele ter acentuado que não se pode considerar subsídio o valor irrisório que recebeu, como se dissesse: “-Eh pá, eu posso ter muitos defeitos mas não vos enganei, hein?”
A sua inconfidência tornou-o automaticamente numa vítima destinada a aplacar a ira nacional e exigia um castigo exemplar: foi então necessário chicoteá-lo e crucificá-lo para que a nossa alma fosse salva! A sua exposição na cruz é também um aviso à navegação e no fundo toda a gente sabe, incluindo o próprio, que ele apenas foi um totó involuntário escolhido para ser mandado para a cruz. Azar e... ámen!

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