30.1.08

O Homem do Sistema Binário

Dizem que as pessoas nascem livres e que a vida é um conjunto de escolhas. Até pode ser assim mas comigo veio sempre tudo aos pares. Aliás, este sistema dominou toda a minha vida, ainda nem eu era nascido! Ninguém sabia o meu sexo mas já estava decidido: vou vestir azul ou cor-de-rosa! Será que não se punha a hipótese cinzento-banana, preto pastel ou verde corintiano da Jamaica?

É que isto começa logo quando eu era pequeno e ficava em casa a ver televisão a preto e branco (embora me parecesse cinzenta) e só podia escolher entre 2 canais: RTP e RTP. Também gostava muito de carros. O meu pai tinha um 2 cavalos com 2 autocolantes atrás: o do lado esquerdo era um sentido obrigatório que dizia “Vida Longa” e o do lado direito era um sentido proibido que dizia “Vida Curta”. Um dia quis trocar de carro, chegou a casa com uns catálogos de Minis e perguntou-me:
-Qual é que gostas mais, do Austin ou do Morris?
-Pode ser um Rolls-Royce?
-Vê lá se queres levar 2 estalos!


Quando fui para a escola primária a sala de aula tinha 2 fotografias na parede; dum lado o Oliveira Salazar e do outro Américo Tomás. Graças a Deus havia um terceiro ao meio mas coitado tinha um ar tão triste (não sei se da companhia…) É que o desgraçado tinha os 2 braços esticados e as 2 mãos pregadas! Também éramos obrigados a cantar um hino onde se mandava marchar contra os canhões e jurar fidelidade eterna a uma bandeiraverde e vermelha; se bem que também tinha um amarelo lá no meio, graças a Deus. As minhas maiores dificuldades sempre foram 2: português e matemática; nunca me dei bem com duplos sentidos nem raízes quadradas. No recreio a turma dividia-se em 2 para jogar à bola e perguntavam-me:
-Sporting ou Benfica?

E eu: -Não pode ser o Imortal de Albufeira?

Nas férias grandes tínhamos sempre 2 hipóteses: campo ou praia. Quando íamos para a praia eu tinha sempre 2 opções: ou esturrava ao sol ou enregelava na água. 2 vezes durante o dia, de manhã e à tarde passava o homem dos gelados e das batatas fritas sempre aos gritos:
frutó chocolate!
-Não tem baunilha?
-Não mas também tenho batatinha: Ti-Ti ou Pála Pála?

Às 2 da tarde íamos almoçar ao restaurante dos 2 Irmãos e mal entrávamos tínhamos que levar com o cromo do empregado:
-Boa tarde, então o que é que vai ser hoje? Carne ou peixe?
-Não tenho fome
-O menino não quer que lhe faça um preguinho ou uma bifana?
-Pode ser uma omelete!
-E p’ra beber, a senhora? Ah, uma águinha. Fresca ou natural? Com gás ou sem gás? Pois não. E o senhor? Uma cervejinha; Sagres ou Super Bock? E o menino? Um Sumol? Muito bem; laranja ou ananás?
(Já desesperado)-Traga-me um copo de veneno!...
- Concerteza: estricnina ou cicuta?

Mas vocês julgam que isto dos pares acabava aqui? Não! Continuava todo o santo almoço, meu Deus. O empregado voltava à carga e trazia para o meu pai o azeite e o vinagre, para a minha mãe o sal e a pimenta para mim o ketchup e a mayonese, o tira-nódoas ou o pó-talco porque entretanto eu já tinha espirrado tudo nos calções ou na camisola!
Finalmente aquilo terminava porque no fim o meu pai dizia: -Queria a conta, se faz favor! - E o empregado:
-Queria? Já não quer? (E ria-se...)

A minha vida continuou, sempre perseguido por esta sina até que em adolescente decidi que não queria mais estudar e disse à minha mãe:
-Mãe não quero estudar…
-Bom, bom!…
Então fui ter com o meu pai e disse-lhe:
-Pai não quero estudar!
-Mau, mau!…
É fantástico como 2 pessoas que estão juntas há tanto tempo tenham 2 opiniões tão diferentes... mas tão iguais. Não tive grande escolha e disseram-me que podia seguir 2 vias: letras ou ciências. (Não haverá um curso de vadiagem?). Para chegar à faculdade tinha de ir em 2 tansportes: autocarro e
metro. Para fazer 2 quilómetros do Rossio ao Marquês apanhava um autocarro de 2 andares. A seguir apanhava o metro com 2 carruagens e 2 linhas: Sete-Rios e Entre-Campos. Eu ficava no Campo-Pequeno na saída norte. Também havia a sul…

Na faculdade havia umas miúdas "muita" giras: 2. Um dia fui falar com a que tinha 2 bolas quase a caírem do cai-cai e perguntei-lhe:
-Olá, como é que te te chamas?
-Mimi, e tu?
-Desculpa? Desculpa?
-Mimi, e tu?
-Tó…tó! Vamos tomar um café ao Vavá ou beber um copo ao Bora-Bora? ‘Bora?


Fomos a um baile. Parecíamos 2 jarras a dançar ao som dos grandes artistas populares - “truka-truka“, “pimba-pimba“, “mexe-mexe que eu gosto“ - “toma-toma minha linda“, “mexe-mexe que eu gosto“- “piri-piri”, “mais e mais“, “mexe, mexe que eu gosto” - até que surgiu a inevitável pergunta:
-Na tua casa ou na minha?
Fomos para a pensão Lulu, começámos no truca-truca e pumba, PUMBA: tornámo-nos os 2 num casal. Aliás, 2 casais, contando com os gémeos com que ela ficou lá dentro da barriga. Casámos há 2 anos e sempre que vamos a uma festa ela pergunta-me: -Achas que vá de saia ou de calças?
-E tu? Achas que leve os ténis ou os sapatos? A gravata ou o laço? O cachimbo ou o charuto? A bengala ou o andarilho? A algália ou a arrastadeira?

Hoje já estou um bocadinho xexé, meio gagá e p’ra já-p’ra já a minha vida não ata nem desata. Outro dia perguntaram-me se quando morrer quero ser enterrado ou cremado?… Acho que prefiro ser atirado para a atmosfera! Sempre continuo a ter 2 opções: ou fico a vaguear pelo espaço ou caio tipo meteorito em cima da torre de Belém ou dos Jerónimos…

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