3.1.07

COMO FABRICAR UM HIT - parte 1: a música.

Existem muitos e variados ritmos mas para fabricar um sucesso vamos esquecer todos e usar apenas o quaternário. O ritmo quaternário pode ser considerado uma variação do binário (a dois tempos como o pulsar dum coração) e compõe-se de quatro tempos, forte, fraco, intermédio, fraco. É usado em marchas, toda a música pop/rock, dance, blues, samba, fado, etc, etc.

A ditadura do ritmo quaternário. Este é o ritmo mais adequado porque como dizia Hermann Rauschning, dissidente do partido nazi e escritor do livro Revolução do Nihilismo, “Marchar diverte os pensamentos dos homens. A marcha mata o pensamento. A marcha mata o fim da individualidade. A marcha é o passe de mágica indispensável com o fim de habituar o povo a uma actividade mecânica, quase ritual, até que se torne uma segunda natureza.” Estamos esclarecidos?

O batimento cardíaco humano anda à volta das 70 pulsações por minuto; logicamente, cançonetas que tenham esse beat, as de tipo slow, são absorvidas pelo ouvinte através do tranquilo processo de osmose. Em geral acelera-se um pouco mais para "puxar" o ouvinte, para o desafiar. Se se quiser pôr o receptor a mexer, vulgo dançar, utiliza-se um batimento de 120 b.p.m. (beats por minuto) embora com o acelerar da vida moderna e stress esse valor já chegue aos 130 b.p.m.. Se a ideia é pôr os ouvintes em transe, interferir com o seu ritmo orgânico, o valor deve ser de 140 b.p.m., o dobro do ritmo cardíaco normal, ou mais. Estes últimos valores são utilizados na música dance, trance, techno, etc.

Neste tipo de registos sonoros ajuda bastante ouvi-los num ambiente em que as luzes têm um papel muito importante piscando ritmadamente de modo a criar um efeito hipnótico. Se houver álcool à mistura o cocktail de alienação completa-se, é como conduzir um automóvel a alta velocidade numa auto-estrada observando as faixas descontínuas. Quem não tiver o ritmo cardíaco elevado passa ao lado da sensação de se integrar numa entidade colectiva pulsando em sintonia; para o conseguir basta-lhe injectar adrenalina, fumar uns cigarros ou tomar umas pastilhas. Uma discoteca pode ser assim uma espécie de congregação religiosa onde cada um se anula para experimentar o prazer de ser parte dum todo e onde o disc-jockey, do alto do seu púlpito, faz o papel de pastor do rebanho; os mestres são os artistas, a ideologia são os sons. Todos os jovens procuram orientação espiritual e esta é uma maneira prosaica de a obterem.

Como já toda a gente sabe cantar, até o Abrunhosa, vamos passar ao próximo passo, a melodia. Quanto a esta, o melhor é fazer o seguinte: melodias vagamente familiares causam logo uma aproximação emocional ao ouvinte predispondo-o a escutar, daí o sucesso descaradamente assumido das versões e das chamadas remixes. Os jovens são sensíveis a uma maior gama de frequências que os adultos e quando largam as lengalengas infantis e são introduzidos às frequências graves dá-se uma transformação da qual já não se conseguem libertar: são violentados organicamente com essa gama baixa e ficam viciados nas emoções fortes que elas transmitem, em particular os jovens do sexo masculino. Para responder a essa procura foram desenvolvidos, nos aparelhos reprodutores de música, sistemas que salientam cada vez mais intensamente essas frequências; há sempre um botãozinho de loudness ou super bass que às vezes roça o infra som e que está sempre ligado. Se se o desliga é como ouvir rádio em onda média...

Importante lição a reter: o segredo do tema está no arranjo, não confundir com composição. Há outra confusão bastante comum: ninguém neste processo está a produzir arte, portanto não misturar música com arte; a arte não se destina a agradar a um público e a música de que estamos a falar é a do género "variedades", ou seja, um mero amontoado de notas e acordes que servem de base à venda de um produto de entretenimento. É isto que têm de ter sempre presente. Devem por isso encontrar um bom produtor que dê a "roupagem" aos temas de modo a atingirem o público a que se destina o produto. Podem pegar na guitarra e mostrar-lhe qual é a sequência dos acordes que tanto pode resultar numa música pimba, pop, rock, o que se quiser; o produtor é que "vestirá" com um estilo.

Sem comentários: