Tratemos agora do próprio artista. Se o objectivo é obter prestígio, qualquer aspirante a vedeta sabe que, em Portugal, é melhor ter um apelido estrangeiro verdadeiro (uma sorte invejada pelos outros), repescado dum parente mais afastado ou que tenha vindo da mãe, não sendo, portanto, o último; confere importância e um certo desligamento do cardume, uma saliência adicional. Só vale ser estranho, anglófono, germanófilo, itálico, ou, vá lá, francófono; se for hispânico pode produzir um efeito contrário. Exemplos: Adolfo Luxúria Canibal, Filipe Crawford, José Wallenstein, Marcantónio del Carlo, André Sardet, Shegundo Gallarza. Para cantar fado aconselhamos nomes como Margarida Villa Nova, Inês Castel Branco ou Alexandra Lencastre. Os Pereiras, Carvalhos e Rodrigues já eram.Se a intenção fôr ser engraçado temos de pensar na vertente fonética do nome privilegiando os sons “ih” e “oh” associados ao escárnio, por exemplo: Beatriz Costa (ih-oh), Marina Mota (ih-oh), António Silva (oh-ih), Ivone Silva (ti-nó-ni) ou Hermínia Silva (hi-hi-hi). Obtemos assim lindos efeitos que variam entre o zurrar dum burro, sirenes ou risinhos.
Em geral, a malta mais jovem gosta de se agrupar e para encontrar um nome dá importância ao que está na moda ou a uma boa piada que possa cativar as miúdas pela inteligência do trocadilho. Lembram-se da primeira vez que ouviram falar dos Xutos e Pontapés? Poderíamos pensar que se tratava de um nome ligado ao consumo de drogas mas não, é apenas uma afirmação de rebelião, de carácter juvenil. Cá está: um truque giro cuja graça acabou por ganhar uma nova dimensão; hoje em dia são avós e tocam e cantam como se tivessem 17 anos. 4Taste, é para experimentar, não é um Ford T, ou qualquer outro modelo. Mais: D’zert; não é um deserto é “dizer-te” com sotaque madeirense. A evitar como o diabo foge da cruz, são os nomes que já foram fofos um dia como Tonicha, Nucha, Tucha, Chucha, Concha e outros que tais; agora são tão démodés como Rajá, Ajax, Juá, Pajú ou Sanjo.
Importante: quando já se anda há algum tempo neste meio convém não mencionar esse facto, "faz de conta" que apareceu agora; é melhor! O fenómeno das chamadas carreiras anda mais ligado à música popular e ligeira mas também sucede noutras áreas. Nós sabemos que é complicado, o ego não resiste à tentação e há sempre a tendência para fazer da idade um posto, até porque é frustrante ver chegar uns tansos despejados aos trambolhões de um casting qualquer e começarem a mijar no território que já foi seu. Também sabemos que por vezes a única maneira de se diferenciar é dizer que se tem um passado mas atenção que se pode virar contra o próprio artista: este é um modo de vida efémero, sem muita gratidão e a vedeta pode cair no ridículo se se afastar muito da realidade. Dizer que se tem, por exemplo, 20 anos de carreira pode levar à seguinte questão: “- Então andas aí há 20 anos e ainda não passaste dessa merda?” Manda a prudência e o bom senso que em muitos casos é melhor fazer uma série de poucos episódios, em vez de uma novela onde a história se arrasta até ao patético ou pior, ao esquecimento.
Como nota final vale a pena referir que apesar de tudo, o mais importante para se obter sucesso no chamado music-business é ter uma atitude, uma postura coerente seja qual for estilo e apostar sobretudo NA FORMA, o conteúdo vem por arrasto, senão vejam: o David Fonseca canta em inglês porque tem sonhos internacionais e o português, enfim o português... perceber-se-ia melhor; o Pedro Abrunhosa nunca tira os óculos porque tem mesmo os olhos tortos como o Marty Feldman; a Mariza canta fado porque diz que sempre o fez desde o berço, e é onde vai buscar a profundidade... que procura; o Marco Paulo acha que deve a carreira ao público porque é tão ingénuo como ele era; o Roberto Leal acha que deve a carreira à Nossa Senhora porque sempre rezou e trabalhou para isso; o Emanuel canta música pimba porque tem o "curso do conservatório" e a "música clássica", enfim a "música clássica"... não dá; o Toy canta porque sim; o Manuel João dos Ena Pá 2000 tem graça porque não convive com o poder nem se dá com os seus colegas do show-biz.
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