5.1.07

COMO FABRICAR UM HIT - parte 2: a letra.

Agora as palavras. Para a letra o processo é um pouco mais complexo e embora se assista a uma globalização onde imperialismos culturais se impõem, há que ter em conta especificidades regionais.

Estudos de mercado revelam que em Espanha o sabor favorito dos consumidores é o limão, (qué?!) algo impensável em Portugal. Imaginemos que vamos aqui ao supermercado comprar um yogurte; qual é o sabor? Yogurte / … morango! Voilá. Os espanhóis gostam de fritos e de petiscar nós gostamos de tudo o que seja muito doce ou muito salgado. Logo, um título de sucesso para um CD em Portugal pode ser, por exemplo, "Morangos com Açúcar". Em Espanha talvez fosse melhor chamar-lhe “Tapas com Limões”. Estão a vêr como funciona?

Os temas NUNCA devem abordar a racionalidade e sim os sentidos: "Aromas" - o perfume, livro preferido das vedettes, "Sabores" - o gosto dos teus lábios, "Vislumbres" - os teus olhos, "Sensações" - sentir o teu corpo e "Deleites" - ouvir-te cantar o fado, são bons exemplos. Irracionalidade também é bem-vinda como palavras ou frases sem sentido, gritos, grunhidos, suspiros e lá lá lás.

Se quisermos falar de assuntos quotidianos sigamos o exemplo da nossa bandeira republicana verde e vermelha, um contraste gritante; mas se quisermos dizer o indizível trilhemos os caminhos sugeridos pela bandeira monárquica, azul e branca como a nossa alma. Qualquer letra que tenha a palavra "azul", em Portugal conduz à contemplação poética: mar azul, céu azul… Qualquer letra que contenha "feitiço" ou "feiticeira" produz uma magia nas emoções: é impossível fugir ao seu fascínio. Eis exemplos de algumas das melhores palavras: amor, paixão, desejo, noite, mistério, solidão, desespero... Nota importante: todas as letras, pelo menos uma vez, devem referir o corpo ou partes dele, em especial as seguintes vísceras: coração e olhos. 

Muitas vezes as letras ajudam a definir a ideologia de um género simplesmente por contingências rítmicas ou limitações de rimas; suspeito bastante que o fado seja um desses casos: quanta forma e vida bizarra não está associada a este meio só porque o seu instrumento principal se chama... guitarra? Quantas vezes não ouvimos o fadista cantar esse adjectivo para dois versos depois esbarrar com os cornos no tal substantivo?   

A reter: as letras podem ser escritas por qualquer pessoa, um primo um amigo, a mãe, isso não tem o mínimo problema; embora fossem mais necessários letristas, em cada português há um potencial poeta com os seus inconfessáveis escritos guardados a sete chaves numa gaveta, até ao momento em que se pergunta se os querem ver publicados: como que por magia deixam de ser secretos. Talvez devessem continuar nesse estado porque assim evitaríamos tomar contacto com um dos dois resultados da tal poesia: ou são quadras em que infantilidades teimam em rimar, ou prosa despida de qualquer ideia ou ritmo; tanto num como noutro, um átomo solto de um substantivo liga-se a um átomo solto de um adjectivo para formar um novo elemento; normalmente já é conhecido pelos cientistas da língua mas se não for tem poucas probabilidades de manter intacta a sua invulgar estrutura atómica. Estas partículas vagueiam soltas em prosa pelo papel, numa sopa orgânica sem sentido, alma ou intenção. Como diria numa quadra Fernando Pessoa, verdadeiro mestre na arte de brincar com ideias e palavras: "...não sei o que faça, não sei o que penso, o frio não passa e o tédio é imenso... dorme coração". É melhor, é....   

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