2.1.07

COMER À TRIPA FÔRRA

O espólio pessoal de Fernado Pessoa é composto por uns 20% de material sobre astrologia; nele, há um famoso horóscopo onde se refere que Portugal é um país nativo do signo Peixes. É curioso como esses animais parecem tão apropriados à nossa identidade: se tivermos um aquário com peixes lá dentro e os alimentarmos constantemente, eles simplesmente não param de comer e rebentam!...

Antes de partirmos para as descobertas, imagino que os sabores dominantes deveriam ser os das carnes, peixes e castanhas cozidas com couves. Assim que nos pusémos em contacto com os produtos africanos e as especiarias do oriente, desenvolveu-se um irreprimível gosto pelo exótico, que levou os mais ricos a exageros de condimentação, ou seja: viciámo-nos em sabores fortes.

Outros impérios subjugaram povos e nações para lhes roubar o ouro, as terras, matérias primas e energia. Nós fizemos guerras pela comida e lutámos que nem uns valentes pelo seu controle; esse parece ser o principal motivo da ida à Índia, e nem sequer há pudor em encobri-lo, vem em todos os manuais escolares. Foi aí que provavelmente nasceu o apetite por alimentos extremamente salgados, tipo granadas de bacalhau, os doces conventuais, verdadeiras bombas de açúcar, explosões de piri-piri, mísseis de caril, gases mostarda, pontapés na canela, balas de chocolate e morteiradas de cafeína. Actualmente, onde se destacam os portugueses empreendedores pelo mundo fora? Pelo menos em padarias, delis e supermercados, somos príncipes! Parece que a nossa guerra continua a ser com os indianos...
Hoje, tal como ontem, o tempo para a refeição em Portugal é sagrado e não há forma de contornar esse facto; só falta um dia ver um restaurante fechado à hora de almoço, com o letreiro: "encerrado para almoço". Liga-se para uma empresa de Lisboa para falar com o responsável e diz a telefonista: “- O soutôr já saiu para almoçar, quer deixar recado?” Ok, parece que a hora de almoço começa às 11 horas, mas se ligar às 2 e 5 aposto que ninguém vai atender, a telefonista deve estar, ela própria, ainda a almoçar…

Às 3 e um quarto volto a ligar e diz a telefonista: “- o soutôr ainda não chegou do almoço, quer deixar recado? (Já no limite reprimo um “chiça, muito comem estes gajos!”) “- É que estão cá uns clientes estrangeiros e o soutôr foi com eles almoçar a Sesimbra; vai deixar recado?” Ah bom, já estou a vêr que hoje é melhor esquecer; por vergonha alheia desisto de deixar o tal recado a dizer que "ligou o idiota que tinha combinado com ele ao meio dia”.

Desligo, o meu pensamento voa, e só imagino o soutôr, depois de uns presuntos com melão a comer um arrozinho de tamboril, a beber uma reserva especial com nome rústico, a contar piadas rascas intraduzíveis num sotaque macarrónico, a beber cafés e a fumar charutos, convencido que deixou uma marca indelével de hospitalidade nos seus convidados. Quem sabe, à noite ainda os vai levar ao Passerelle

Às 4 e meia recebo uma chamada de telemóvel do soutôr a falar mais alto que o ruído de fundo do carro enquanto conduz de volta pra Lisboa: “- Tou?... Tou?... (brshh) é pá desculpe lá isto d’ hoje, estes gajos... Tou?... É pá tou aqui numa zona sem rede... estes gajos, uns alemães apareceram-me aqui assim de repente, já sabe como é que é (por acaso sei: os alemães não aparecem de repente a não ser em Varsóvia); podemos marcar para a próx... (brshh) quinta-feira? Você passa lá ao fim da manhã e a gente depois até vai almoçar”.

Na tal quinta-feira, comigo presente, o almoço é descrito para a sua secretária como uma reunião de trabalho e “cancele-me aí tudo até às 4”. Mensagem subliminar pra mim: "hoje és tu o sultão, os outros que se lixem!" O pior é se nessa tal “reunião de trabalho” também vêm soutôras, seres naturalmente castradores dos instintos primários. Um gajo ainda vai ter de comer bróculos cozidos, esquece lá cervejas, não se pode estar à vontade para abardinar, e depois já não é almoço, não é nada; ainda se torna mesmo numa reunião, querem ver?…

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