Confesso que um dos comportamentos que mais me intriga nos seres humanos é a sua relação com os animais de estimação, em particular os cães. Quase todos nós gostamos de subjugar o próximo mas aqueles que preferem fugir ao confronto com os outros “macacos”, geralmente refugiam-se no apego a um animal de estimação e, embora haja quem adopte espécies raras, basicamente a humanidade divide-se em apreciadores de felídeos ou canídeos; é sobre estes últimos que irei falar.Um bebé humano quando nasce tem um aspecto horrível, como um joelho enrugado ou o avô Simpson mas saiu do nosso corpo, gostamos dele porque tem os nossos genes. O cão não; tem de nascer logo com um ar fofo de modo a garantir a sua aceitação no seio da macacada, o que lhe pode granjear sustento e afecto sem precisar de se esforçar muito. Sou capaz de apostar que antes de serem domesticados os cães eram asquerosos, aliás como outros canídeos selvagens da actualidade.

Para os que foram domesticados, se submeteram incondicionalmente, guardamos os nossos melhores sentimentos e títulos como “o fiel amigo” ou “o melhor amigo do homem”. Em Portugal, o nosso gosto pela comida faz com que esses títulos possam também ser aplicados a um bacalhau!... Quando era criança imaginava que alguns humanos, quando estavam tristes, se dirigissem à casa-de-banho para desabafar as suas mágoas com um bacalhau de estimação (um fiel amigo), que mantinham vivo na banheira só até ao natal, claro.
Nós é que não somos fiéis e os canídeos que também o não são, hienas ou coiotes, são quase indignos aos nossos olhos. No imaginário colectivo, o piorzinho que pode haver em termos de terror, maldade e ferocidade é o lobo (mau); também pela proximidade, é certo, mas porque razão não nos merece tanta admiração como um lince ou outro felídeo selvagem mais próximo? Talvez porque estão emocionalmente mais próximos, resistem e não aceitam ser pisados por nós. É esse o drama do Lobisomem; ele é a imagem perfeita de um excluído social.
Na antiguidade o cão era utilizado para caçar, guardar ou servir de guardanapo nos banquetes dos ricos. Há umas décadas atrás um cão já era um boneco peludo giro ou um atrasadito mental sensível que por ali andava. Os nomes que lhes dávamos espelhavam essa ideia: farrusco, piloto, piruças, benfica, bobi, bolinhas... Com a descaracterização e impessoalidade das relações humanas, hoje em dia ganharam contornos de parceiros quase ao nosso nível. Agora têm nomes de pessoas e é raro o cão que não se chame Gaspar, Óscar, Sebastião ou Francisco. Estes companheiros do século XXI fazem os donos sair da caminha e ir p'rá rua às 3 da manhã de um frio e chuvoso inverno só para urinar nas rodas dos carros, perseguir e descobrir qualquer coisa putrefacta, ladrar a um movimento qualquer ao longe, ou fazer o dono agachar-se para apanhar o excremento do passeio. Uau: que poder sobre o macaco!Nesta sociedade regulada e convencionada, um dos maiores prazeres
que os cães nos dão é sabermos que são totalmente despidos de ética ou moral. Podem ser castigados pelas travessuras mas dão-nos o gozo secreto da inconsciência, fazem o que nós gostaríamos de fazer: cheiram o cu uns dos outros, bebem água da sanita, comem porcarias do meio da rua, mijam no sofá, montam-se na perna dos convidados e copulam livremente. Como até parecem ter prazer naquilo, a suprema heresia, também os punimos com epítetos da maior baixeza moral; cadela é, por exemplo, um dos piores insultos que se pode aplicar a uma mulher.Há milhares de histórias de cães que salvaram pessoas, que são inteligentíssimos, que têm patentes militares, que entraram em órbita mas as que eu conheço pessoalmente não são tão gloriosas. Um primo meu tem um cão que se apontarmos para uma árvore e dissermos “-olha o gato”, juro que se não o formos buscar ele fica literalmente a noite toda aos saltos na árvore e a ladrar à copa para o seu visceral e invisível inimigo. Um conhecido meu tinha um chihuahua que morreu subitamente; fizeram-lhe autópsia e descobriram que tinha sido asfixiado por… uma minúscula folhinha de relva!!! Foi concebido para sniffar cactos e metem-no na Europa em espaços arranjadinhos, é o que dá.
Embora quase nunca o tivesse desejado, por vontade alheia tive vários animais de estimação chegando até a sustentá-los e mantê-los como se fosse eu o verdadeiro dono. Em jovem tive um cão, o Kimba, tão rebarbado que mal saía de casa corria a montar qualquer ser da mesma espécie independentemente do tamanho ou do sexo; o outro animal ficava a olhar para mim como se dissesse (tenho a certeza que queria dizer alguma coisa): “-Então, como é que é? É pra deixar fazer? Não lhe dizes nada?” Mais tarde tive uma cadela, a Estrela, um estranho cruzamento de raças, vítima de testes falhados de alunos duma faculdade veterinária: “coitadinha, vai ser abatida, mais não sei o quê”, ok, ficamos com ela. Como foi a minha experiência com esse animal? Só vos digo que se houvesse manicómios para cães era lá que ela devia estar internada! Consta que com o tempo os animais e os donos se assemelham; será que os meus dizem algo sobre mim próprio? Chiça, penico!...Se dizem algo sobre mim não sei mas que me dizem algo, dizem, e logo no meu primeiro dia de vida na Terra. Nasci ao final da tarde e segundo a minha mãe, nessa noite eu comecei a chorar, só parando quando ouvi um cão que ladrava; mal ele parava eu recomeçava a chorar, o cão voltava a ladrar, eu tornava a calar-me e assim sucessivamente. Diz a minha mãe que pensou logo: "- Bem, parece que surdo ele não é". Ou seja: para além da porrada que levei da freira a tentar reanimar-me à nascença, da progenitora e do pai babado, o meu quarto contacto com este planeta e o primeiro com o mundo exterior ao hospital foi estabelecido com um cão!
O que mais me diverte acerca dos cães é a antropomorfização de que são alvo mas só para ser chato façamos a seguinte experiência: tiremos uma foto a um cão, por exemplo, a arfar com a língua de fora; que informação é que retiramos dessa imagem? Simples! O animal está certamente com uma das seguintes emoções: excitado, relaxado, nervoso, calmo, feliz, deprimido, esfomeado, saciado, divertido, aborrecido...
1 comentário:
como sempre me divirto com sua escrita e continuo aquela admiradora *babona* de tudo que você escreve.
beijos
eliane
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