17.11.07

Duzentos e noventa e dois

Cá estou eu de volta ao fim de 292 dias de ausência. Tenho de confessar que só voltei porque uma doença me obrigou a ficar em casa, deixando-me tempo para me dedicar a expediente atrasado.

Desde o fim do espectáculo da Família Galaró que tenho estado dedicado a um projecto infantil que teria a sua saída em cd prevista para este natal; infelizmente, por motivos que transcendem a área musical ele foi adiado para a primavera de 2008. O cd já está pronto a ser editado e tem a participação de várias cantoras e cantores portugueses; o resultado é no mínimo fantástico e só vos digo que não perdem pela demora… Decerto voltarei a este assunto.

Já que é um número de dias especial, que posso dizer acerca do 292 que toda a gente já não saiba? Quem não se lembra, por exemplo que foi por volta do ano 292 que Constâncio Cloro se divorciou de Helena, mãe de Constantino, o Grande ou que Narsés se tornou co-regente do império Persa? E o célebre decreto nº 292/2000 que introduz alterações à revisão do Regulamento Geral do Ruído? E o rádio-transmissor que opera somente na frequência de 292 Mhz?

29.1.07

EM MEMÓRIA DO BATATA

Este texto é muito especial para mim porque visa homenagear um grande amigo e simultâneamente a pessoa mais engraçada que já se cruzou na minha vida. Faleceu prematuramente há 3 anos, chamava-se Carlos Carvalho e era mais conhecido por todos como o “Batata”.

Quem o conheceu sabe que nenhum elogio ao seu humor e à sua permanente energia para dispôr bem é imerecido; é uma pessoa que deixou uma marca muito vincada em tudo o que fazia e em todos nós. Senhor de um fortíssimo carisma, iluminava qualquer sítio apenas com a sua presença e conquistava toda a gente mal abria a boca.

Sempre tive orgulho nele e prezava bastante a sua companhia, infelizmente agora ainda mais. Tinha o dom de arrebatar com naturalidade o protagonismo de qualquer situação e, mesmo na presença de vedetas a quem isso incomoda, com ele aceitavam a situação sem mais: contra factos não há argumentos.

Em todas as minhas actividades televisivas e até em discos da Fúria do Açúcar o chamei a participar sempre que ele quisesse. Mesmo assim só nos honrava com a sua presença quando lhe apetecia, nunca se deixando seduzir por outra coisa que não fosse o seu prazer em divertir-se e, sobretudo, em divertir.

Várias vezes tentei que seguisse uma carreira nesta área sem grande sucesso até porque ao longo dos anos me apercebi que decorar textos escritos por outros e reproduzi-los punha-o desconfortável, não tinha nada a vêr com ele, aniquilava-lhe a graça; fazer-lhe isso era tão indigno como enjaular um leão.

Onde ele brilhava como nunca vi ninguém era na arte da espontâneidade. Aliava uma figura física engraçada a uma memória prodigiosa, um sentido crítico apurado e um dos raciocínios mais rápidos que conheci, sempre apto a responder a uma situação e a mantê-la literalmente o tempo que quisesse sem deixar caír o nível de hilariedade.

Eu e todos os que com ele conviveram assistimos durante anos a várias horas de show contínuo, sempre diferentes em que ele não parava de falar e nós não parávamos de rir, chegando ao ponto da dor física. Ao fim de uma hora causava dores insuportáveis escutá-lo mas era viciante demais para acabar: tínhamos prazer em continuar a “sofrer”.

A sua actividade profissional era a de vendedor onde lhe pagavam principescamente: em todas as empresas onde trabalhou era o melhor a léguas de distância dos outros. Acompanhei-o algumas vezes e quando ele entrava num espaço comercial não vendia nada: os responsáveis é que iam atrás dele para lhe comprarem.

Idealmente, um humorista é assim como um bom vendedor: tem de arrebatar e esmagar a assistência com os seus argumentos mas sem se impôr demasiado, vender o seu produto como se não o quisesse vender; tem de torná-lo desejado e os clientes é que querem ardentemente comprá-lo.

Acrescentou-nos anos de vida a todos mas infelizmente para nós, a dele seria muito curta. Foi no meio da partida para um compromisso inadiável no estrangeiro que eu e outro dos mais próximos amigos dele soubemos da sua, nem sequer pudemos estar presentes num último adeus. A perda foi tão grande que a mãe, um mês depois, também foi com o desgosto.


Os deuses são mais fortes e podem ser invejosos da nossa felicidade. Como todos os que são bons demais, querem-nos só para eles quanto antes e tenho a certeza que neste momento já tem um lugar de honra entre os mais poderosos que disputam a sua presença. Pudera: eu consigo bem imaginar a gargalhada geral que lá deve provocar.

14.1.07

CÃES

Confesso que um dos comportamentos que mais me intriga nos seres humanos é a sua relação com os animais de estimação, em particular os cães. Quase todos nós gostamos de subjugar o próximo mas aqueles que preferem fugir ao confronto com os outros “macacos”, geralmente refugiam-se no apego a um animal de estimação e, embora haja quem adopte espécies raras, basicamente a humanidade divide-se em apreciadores de felídeos ou canídeos; é sobre estes últimos que irei falar.

Um bebé humano quando nasce tem um aspecto horrível, como um joelho enrugado ou o avô Simpson mas saiu do nosso corpo, gostamos dele porque tem os nossos genes. O cão não; tem de nascer logo com um ar fofo de modo a garantir a sua aceitação no seio da macacada, o que lhe pode granjear sustento e afecto sem precisar de se esforçar muito. Sou capaz de apostar que antes de serem domesticados os cães eram asquerosos, aliás como outros canídeos selvagens da actualidade.

Para os que foram domesticados, se submeteram incondicionalmente, guardamos os nossos melhores sentimentos e títulos como “o fiel amigo” ou “o melhor amigo do homem”. Em Portugal, o nosso gosto pela comida faz com que esses títulos possam também ser aplicados a um bacalhau!... Quando era criança imaginava que alguns humanos, quando estavam tristes, se dirigissem à casa-de-banho para desabafar as suas mágoas com um bacalhau de estimação (um fiel amigo), que mantinham vivo na banheira só até ao natal, claro.

Nós é que não somos fiéis e os canídeos que também o não são, hienas ou coiotes, são quase indignos aos nossos olhos. No imaginário colectivo, o piorzinho que pode haver em termos de terror, maldade e ferocidade é o lobo (mau); também pela proximidade, é certo, mas porque razão não nos merece tanta admiração como um lince ou outro felídeo selvagem mais próximo? Talvez porque estão emocionalmente mais próximos, resistem e não aceitam ser pisados por nós. É esse o drama do Lobisomem; ele é a imagem perfeita de um excluído social.

Na antiguidade o cão era utilizado para caçar, guardar ou servir de guardanapo nos banquetes dos ricos. Há umas décadas atrás um cão já era um boneco peludo giro ou um atrasadito mental sensível que por ali andava. Os nomes que lhes dávamos espelhavam essa ideia: farrusco, piloto, piruças, benfica, bobi, bolinhas... Com a descaracterização e impessoalidade das relações humanas, hoje em dia ganharam contornos de parceiros quase ao nosso nível. Agora têm nomes de pessoas e é raro o cão que não se chame Gaspar, Óscar, Sebastião ou Francisco. Estes companheiros do século XXI fazem os donos sair da caminha e ir p'rá rua às 3 da manhã de um frio e chuvoso inverno só para urinar nas rodas dos carros, perseguir e descobrir qualquer coisa putrefacta, ladrar a um movimento qualquer ao longe, ou fazer o dono agachar-se para apanhar o excremento do passeio. Uau: que poder sobre o macaco!

Nesta sociedade regulada e convencionada, um dos maiores prazeres que os cães nos dão é sabermos que são totalmente despidos de ética ou moral. Podem ser castigados pelas travessuras mas dão-nos o gozo secreto da inconsciência, fazem o que nós gostaríamos de fazer: cheiram o cu uns dos outros, bebem água da sanita, comem porcarias do meio da rua, mijam no sofá, montam-se na perna dos convidados e copulam livremente. Como até parecem ter prazer naquilo, a suprema heresia, também os punimos com epítetos da maior baixeza moral; cadela é, por exemplo, um dos piores insultos que se pode aplicar a uma mulher.

Há milhares de histórias de cães que salvaram pessoas, que são inteligentíssimos, que têm patentes militares, que entraram em órbita mas as que eu conheço pessoalmente não são tão gloriosas. Um primo meu tem um cão que se apontarmos para uma árvore e dissermos “-olha o gato”, juro que se não o formos buscar ele fica literalmente a noite toda aos saltos na árvore e a ladrar à copa para o seu visceral e invisível inimigo. Um conhecido meu tinha um chihuahua que morreu subitamente; fizeram-lhe autópsia e descobriram que tinha sido asfixiado por… uma minúscula folhinha de relva!!! Foi concebido para sniffar cactos e metem-no na Europa em espaços arranjadinhos, é o que dá.

Embora quase nunca o tivesse desejado, por vontade alheia tive vários animais de estimação chegando até a sustentá-los e mantê-los como se fosse eu o verdadeiro dono. Em jovem tive um cão, o Kimba, tão rebarbado que mal saía de casa corria a montar qualquer ser da mesma espécie independentemente do tamanho ou do sexo; o outro animal ficava a olhar para mim como se dissesse (tenho a certeza que queria dizer alguma coisa): “-Então, como é que é? É pra deixar fazer? Não lhe dizes nada?” Mais tarde tive uma cadela, a Estrela, um estranho cruzamento de raças, vítima de testes falhados de alunos duma faculdade veterinária: “coitadinha, vai ser abatida, mais não sei o quê”, ok, ficamos com ela. Como foi a minha experiência com esse animal? Só vos digo que se houvesse manicómios para cães era lá que ela devia estar internada! Consta que com o tempo os animais e os donos se assemelham; será que os meus dizem algo sobre mim próprio? Chiça, penico!...


Se dizem algo sobre mim não sei mas que me dizem algo, dizem, e logo no meu primeiro dia de vida na Terra. Nasci ao final da tarde e segundo a minha mãe, nessa noite eu comecei a chorar, só parando quando ouvi um cão que ladrava; mal ele parava eu recomeçava a chorar, o cão voltava a ladrar, eu tornava a calar-me e assim sucessivamente. Diz a minha mãe que pensou logo: "- Bem, parece que surdo ele não é". Ou seja: para além da porrada que levei da freira a tentar reanimar-me à nascença, da progenitora e do pai babado, o meu quarto contacto com este planeta e o primeiro com o mundo exterior ao hospital foi estabelecido com um cão!

O que mais me diverte acerca dos cães é a antropomorfização de que são alvo mas só para ser chato façamos a seguinte experiência: tiremos uma foto a um cão, por exemplo, a arfar com a língua de fora; que informação é que retiramos dessa imagem? Simples! O animal está certamente com uma das seguintes emoções: excitado, relaxado, nervoso, calmo, feliz, deprimido, esfomeado, saciado, divertido, aborrecido...

5.1.07

COMO FABRICAR UM HIT - parte 3: a atitude.

Tratemos agora do próprio artista. Se o objectivo é obter prestígio, qualquer aspirante a vedeta sabe que, em Portugal, é melhor ter um apelido estrangeiro verdadeiro (uma sorte invejada pelos outros), repescado dum parente mais afastado ou que tenha vindo da mãe, não sendo, portanto, o último; confere importância e um certo desligamento do cardume, uma saliência adicional. Só vale ser estranho, anglófono, germanófilo, itálico, ou, vá lá, francófono; se for hispânico pode produzir um efeito contrário. Exemplos: Adolfo Luxúria Canibal, Filipe Crawford, José Wallenstein, Marcantónio del Carlo, André Sardet, Shegundo Gallarza. Para cantar fado aconselhamos nomes como Margarida Villa Nova, Inês Castel Branco ou Alexandra Lencastre. Os Pereiras, Carvalhos e Rodrigues já eram.

Se a intenção fôr ser engraçado temos de pensar na vertente fonética do nome privilegiando os sons “ih” e “oh” associados ao escárnio, por exemplo: Beatriz Costa (ih-oh), Marina Mota (ih-oh), António Silva (oh-ih), Ivone Silva (ti-nó-ni) ou Hermínia Silva (hi-hi-hi). Obtemos assim lindos efeitos que variam entre o zurrar dum burro, sirenes ou risinhos.

Em geral, a malta mais jovem gosta de se agrupar e para encontrar um nome dá importância ao que está na moda ou a uma boa piada que possa cativar as miúdas pela inteligência do trocadilho. Lembram-se da primeira vez que ouviram falar dos Xutos e Pontapés? Poderíamos pensar que se tratava de um nome ligado ao consumo de drogas mas não, é apenas uma afirmação de rebelião, de carácter juvenil. Cá está: um truque giro cuja graça acabou por ganhar uma nova dimensão; hoje em dia são avós e tocam e cantam como se tivessem 17 anos. 4Taste, é para experimentar, não é um Ford T, ou qualquer outro modelo. Mais: D’zert; não é um deserto é “dizer-te” com sotaque madeirense. A evitar como o diabo foge da cruz, são os nomes que já foram fofos um dia como Tonicha, Nucha, Tucha, Chucha, Concha e outros que tais; agora são tão démodés como Rajá, Ajax, Juá, Pajú ou Sanjo.

Importante: quando já se anda há algum tempo neste meio convém não mencionar esse facto, "faz de conta" que apareceu agora; é melhor! O fenómeno das chamadas carreiras anda mais ligado à música popular e ligeira mas também sucede noutras áreas. Nós sabemos que é complicado, o ego não resiste à tentação e há sempre a tendência para fazer da idade um posto, até porque é frustrante ver chegar uns tansos despejados aos trambolhões de um casting qualquer e começarem a mijar no território que já foi seu. Também sabemos que por vezes a única maneira de se diferenciar é dizer que se tem um passado mas atenção que se pode virar contra o próprio artista: este é um modo de vida efémero, sem muita gratidão e a vedeta pode cair no ridículo se se afastar muito da realidade. Dizer que se tem, por exemplo, 20 anos de carreira pode levar à seguinte questão: “- Então andas aí há 20 anos e ainda não passaste dessa merda?” Manda a prudência e o bom senso que em muitos casos é melhor fazer uma série de poucos episódios, em vez de uma novela onde a história se arrasta até ao patético ou pior, ao esquecimento.

Como nota final vale a pena referir que apesar de tudo, o mais importante para se obter sucesso no chamado music-business é ter uma atitude, uma postura coerente seja qual for estilo e apostar sobretudo NA FORMA, o conteúdo vem por arrasto, senão vejam: o David Fonseca canta em inglês porque tem sonhos internacionais e o português, enfim o português... perceber-se-ia melhor; o Pedro Abrunhosa nunca tira os óculos porque tem mesmo os olhos tortos como o Marty Feldman; a Mariza canta fado porque diz que sempre o fez desde o berço, e é onde vai buscar a profundidade... que procura; o Marco Paulo acha que deve a carreira ao público porque é tão ingénuo como ele era; o Roberto Leal acha que deve a carreira à Nossa Senhora porque sempre rezou e trabalhou para isso; o Emanuel canta música pimba porque tem o "curso do conservatório" e a "música clássica", enfim a "música clássica"... não dá; o Toy canta porque sim; o Manuel João dos Ena Pá 2000 tem graça porque não convive com o poder nem se dá com os seus colegas do show-biz.

COMO FABRICAR UM HIT - parte 2: a letra.

Agora as palavras. Para a letra o processo é um pouco mais complexo e embora se assista a uma globalização onde imperialismos culturais se impõem, há que ter em conta especificidades regionais.

Estudos de mercado revelam que em Espanha o sabor favorito dos consumidores é o limão, (qué?!) algo impensável em Portugal. Imaginemos que vamos aqui ao supermercado comprar um yogurte; qual é o sabor? Yogurte / … morango! Voilá. Os espanhóis gostam de fritos e de petiscar nós gostamos de tudo o que seja muito doce ou muito salgado. Logo, um título de sucesso para um CD em Portugal pode ser, por exemplo, "Morangos com Açúcar". Em Espanha talvez fosse melhor chamar-lhe “Tapas com Limões”. Estão a vêr como funciona?

Os temas NUNCA devem abordar a racionalidade e sim os sentidos: "Aromas" - o perfume, livro preferido das vedettes, "Sabores" - o gosto dos teus lábios, "Vislumbres" - os teus olhos, "Sensações" - sentir o teu corpo e "Deleites" - ouvir-te cantar o fado, são bons exemplos. Irracionalidade também é bem-vinda como palavras ou frases sem sentido, gritos, grunhidos, suspiros e lá lá lás.

Se quisermos falar de assuntos quotidianos sigamos o exemplo da nossa bandeira republicana verde e vermelha, um contraste gritante; mas se quisermos dizer o indizível trilhemos os caminhos sugeridos pela bandeira monárquica, azul e branca como a nossa alma. Qualquer letra que tenha a palavra "azul", em Portugal conduz à contemplação poética: mar azul, céu azul… Qualquer letra que contenha "feitiço" ou "feiticeira" produz uma magia nas emoções: é impossível fugir ao seu fascínio. Eis exemplos de algumas das melhores palavras: amor, paixão, desejo, noite, mistério, solidão, desespero... Nota importante: todas as letras, pelo menos uma vez, devem referir o corpo ou partes dele, em especial as seguintes vísceras: coração e olhos. 

Muitas vezes as letras ajudam a definir a ideologia de um género simplesmente por contingências rítmicas ou limitações de rimas; suspeito bastante que o fado seja um desses casos: quanta forma e vida bizarra não está associada a este meio só porque o seu instrumento principal se chama... guitarra? Quantas vezes não ouvimos o fadista cantar esse adjectivo para dois versos depois esbarrar com os cornos no tal substantivo?   

A reter: as letras podem ser escritas por qualquer pessoa, um primo um amigo, a mãe, isso não tem o mínimo problema; embora fossem mais necessários letristas, em cada português há um potencial poeta com os seus inconfessáveis escritos guardados a sete chaves numa gaveta, até ao momento em que se pergunta se os querem ver publicados: como que por magia deixam de ser secretos. Talvez devessem continuar nesse estado porque assim evitaríamos tomar contacto com um dos dois resultados da tal poesia: ou são quadras em que infantilidades teimam em rimar, ou prosa despida de qualquer ideia ou ritmo; tanto num como noutro, um átomo solto de um substantivo liga-se a um átomo solto de um adjectivo para formar um novo elemento; normalmente já é conhecido pelos cientistas da língua mas se não for tem poucas probabilidades de manter intacta a sua invulgar estrutura atómica. Estas partículas vagueiam soltas em prosa pelo papel, numa sopa orgânica sem sentido, alma ou intenção. Como diria numa quadra Fernando Pessoa, verdadeiro mestre na arte de brincar com ideias e palavras: "...não sei o que faça, não sei o que penso, o frio não passa e o tédio é imenso... dorme coração". É melhor, é....   

3.1.07

COMO FABRICAR UM HIT - parte 1: a música.

Existem muitos e variados ritmos mas para fabricar um sucesso vamos esquecer todos e usar apenas o quaternário. O ritmo quaternário pode ser considerado uma variação do binário (a dois tempos como o pulsar dum coração) e compõe-se de quatro tempos, forte, fraco, intermédio, fraco. É usado em marchas, toda a música pop/rock, dance, blues, samba, fado, etc, etc.

A ditadura do ritmo quaternário. Este é o ritmo mais adequado porque como dizia Hermann Rauschning, dissidente do partido nazi e escritor do livro Revolução do Nihilismo, “Marchar diverte os pensamentos dos homens. A marcha mata o pensamento. A marcha mata o fim da individualidade. A marcha é o passe de mágica indispensável com o fim de habituar o povo a uma actividade mecânica, quase ritual, até que se torne uma segunda natureza.” Estamos esclarecidos?

O batimento cardíaco humano anda à volta das 70 pulsações por minuto; logicamente, cançonetas que tenham esse beat, as de tipo slow, são absorvidas pelo ouvinte através do tranquilo processo de osmose. Em geral acelera-se um pouco mais para "puxar" o ouvinte, para o desafiar. Se se quiser pôr o receptor a mexer, vulgo dançar, utiliza-se um batimento de 120 b.p.m. (beats por minuto) embora com o acelerar da vida moderna e stress esse valor já chegue aos 130 b.p.m.. Se a ideia é pôr os ouvintes em transe, interferir com o seu ritmo orgânico, o valor deve ser de 140 b.p.m., o dobro do ritmo cardíaco normal, ou mais. Estes últimos valores são utilizados na música dance, trance, techno, etc.

Neste tipo de registos sonoros ajuda bastante ouvi-los num ambiente em que as luzes têm um papel muito importante piscando ritmadamente de modo a criar um efeito hipnótico. Se houver álcool à mistura o cocktail de alienação completa-se, é como conduzir um automóvel a alta velocidade numa auto-estrada observando as faixas descontínuas. Quem não tiver o ritmo cardíaco elevado passa ao lado da sensação de se integrar numa entidade colectiva pulsando em sintonia; para o conseguir basta-lhe injectar adrenalina, fumar uns cigarros ou tomar umas pastilhas. Uma discoteca pode ser assim uma espécie de congregação religiosa onde cada um se anula para experimentar o prazer de ser parte dum todo e onde o disc-jockey, do alto do seu púlpito, faz o papel de pastor do rebanho; os mestres são os artistas, a ideologia são os sons. Todos os jovens procuram orientação espiritual e esta é uma maneira prosaica de a obterem.

Como já toda a gente sabe cantar, até o Abrunhosa, vamos passar ao próximo passo, a melodia. Quanto a esta, o melhor é fazer o seguinte: melodias vagamente familiares causam logo uma aproximação emocional ao ouvinte predispondo-o a escutar, daí o sucesso descaradamente assumido das versões e das chamadas remixes. Os jovens são sensíveis a uma maior gama de frequências que os adultos e quando largam as lengalengas infantis e são introduzidos às frequências graves dá-se uma transformação da qual já não se conseguem libertar: são violentados organicamente com essa gama baixa e ficam viciados nas emoções fortes que elas transmitem, em particular os jovens do sexo masculino. Para responder a essa procura foram desenvolvidos, nos aparelhos reprodutores de música, sistemas que salientam cada vez mais intensamente essas frequências; há sempre um botãozinho de loudness ou super bass que às vezes roça o infra som e que está sempre ligado. Se se o desliga é como ouvir rádio em onda média...

Importante lição a reter: o segredo do tema está no arranjo, não confundir com composição. Há outra confusão bastante comum: ninguém neste processo está a produzir arte, portanto não misturar música com arte; a arte não se destina a agradar a um público e a música de que estamos a falar é a do género "variedades", ou seja, um mero amontoado de notas e acordes que servem de base à venda de um produto de entretenimento. É isto que têm de ter sempre presente. Devem por isso encontrar um bom produtor que dê a "roupagem" aos temas de modo a atingirem o público a que se destina o produto. Podem pegar na guitarra e mostrar-lhe qual é a sequência dos acordes que tanto pode resultar numa música pimba, pop, rock, o que se quiser; o produtor é que "vestirá" com um estilo.

2.1.07

COMER À TRIPA FÔRRA

O espólio pessoal de Fernado Pessoa é composto por uns 20% de material sobre astrologia; nele, há um famoso horóscopo onde se refere que Portugal é um país nativo do signo Peixes. É curioso como esses animais parecem tão apropriados à nossa identidade: se tivermos um aquário com peixes lá dentro e os alimentarmos constantemente, eles simplesmente não param de comer e rebentam!...

Antes de partirmos para as descobertas, imagino que os sabores dominantes deveriam ser os das carnes, peixes e castanhas cozidas com couves. Assim que nos pusémos em contacto com os produtos africanos e as especiarias do oriente, desenvolveu-se um irreprimível gosto pelo exótico, que levou os mais ricos a exageros de condimentação, ou seja: viciámo-nos em sabores fortes.

Outros impérios subjugaram povos e nações para lhes roubar o ouro, as terras, matérias primas e energia. Nós fizemos guerras pela comida e lutámos que nem uns valentes pelo seu controle; esse parece ser o principal motivo da ida à Índia, e nem sequer há pudor em encobri-lo, vem em todos os manuais escolares. Foi aí que provavelmente nasceu o apetite por alimentos extremamente salgados, tipo granadas de bacalhau, os doces conventuais, verdadeiras bombas de açúcar, explosões de piri-piri, mísseis de caril, gases mostarda, pontapés na canela, balas de chocolate e morteiradas de cafeína. Actualmente, onde se destacam os portugueses empreendedores pelo mundo fora? Pelo menos em padarias, delis e supermercados, somos príncipes! Parece que a nossa guerra continua a ser com os indianos...
Hoje, tal como ontem, o tempo para a refeição em Portugal é sagrado e não há forma de contornar esse facto; só falta um dia ver um restaurante fechado à hora de almoço, com o letreiro: "encerrado para almoço". Liga-se para uma empresa de Lisboa para falar com o responsável e diz a telefonista: “- O soutôr já saiu para almoçar, quer deixar recado?” Ok, parece que a hora de almoço começa às 11 horas, mas se ligar às 2 e 5 aposto que ninguém vai atender, a telefonista deve estar, ela própria, ainda a almoçar…

Às 3 e um quarto volto a ligar e diz a telefonista: “- o soutôr ainda não chegou do almoço, quer deixar recado? (Já no limite reprimo um “chiça, muito comem estes gajos!”) “- É que estão cá uns clientes estrangeiros e o soutôr foi com eles almoçar a Sesimbra; vai deixar recado?” Ah bom, já estou a vêr que hoje é melhor esquecer; por vergonha alheia desisto de deixar o tal recado a dizer que "ligou o idiota que tinha combinado com ele ao meio dia”.

Desligo, o meu pensamento voa, e só imagino o soutôr, depois de uns presuntos com melão a comer um arrozinho de tamboril, a beber uma reserva especial com nome rústico, a contar piadas rascas intraduzíveis num sotaque macarrónico, a beber cafés e a fumar charutos, convencido que deixou uma marca indelével de hospitalidade nos seus convidados. Quem sabe, à noite ainda os vai levar ao Passerelle

Às 4 e meia recebo uma chamada de telemóvel do soutôr a falar mais alto que o ruído de fundo do carro enquanto conduz de volta pra Lisboa: “- Tou?... Tou?... (brshh) é pá desculpe lá isto d’ hoje, estes gajos... Tou?... É pá tou aqui numa zona sem rede... estes gajos, uns alemães apareceram-me aqui assim de repente, já sabe como é que é (por acaso sei: os alemães não aparecem de repente a não ser em Varsóvia); podemos marcar para a próx... (brshh) quinta-feira? Você passa lá ao fim da manhã e a gente depois até vai almoçar”.

Na tal quinta-feira, comigo presente, o almoço é descrito para a sua secretária como uma reunião de trabalho e “cancele-me aí tudo até às 4”. Mensagem subliminar pra mim: "hoje és tu o sultão, os outros que se lixem!" O pior é se nessa tal “reunião de trabalho” também vêm soutôras, seres naturalmente castradores dos instintos primários. Um gajo ainda vai ter de comer bróculos cozidos, esquece lá cervejas, não se pode estar à vontade para abardinar, e depois já não é almoço, não é nada; ainda se torna mesmo numa reunião, querem ver?…

MÃE: SOU UM TERRORISTA! E TU TAMBÉM, AHA!

A partir de hoje o governo dos Estados Unidos implementou uma resolução que obriga todos os cidadãos europeus a serem espiolhados nos seus movimentos de cartão de crédito e correio electrónico se quiserem entrar em território yankee por via aérea e tenham comprado o bilhete com esse tipo de cartão. Porquê? Porque à partida somos potenciais terroristas!

Pragmáticos, como sempre, os americanos continuam a mostrar quem pode e manda e quem tem de baixar a bola. Os europeus, quais aristocratas, continuam a julgar que o futebol se joga sem sujar as mãozinhas e quem lá as meter é castigado mas futebol para eles tem outras regras: joga-se armado até aos dentes, aos empurrões, à placagem, à cabeçada ao adversário e com as mãos. “Foot ball” é o que eles quiserem, como aliás, em tudo o resto. E ainda por cima, como salientou um dia John Cleese, quando organizam um campeonato mundial daquilo a que chamam futebol, têm a mania de não convidar as outras nações; o campeonato mundial é só deles!!!

A desfaçatez dos americanos compreende-se perfeitamente: a sua pátria foi em grande parte construída por hordas de aventureiros sem nada a perder que tiveram coragem para abandonar os países de origem onde viviam mal; quem lá manda agora são os descendentes de gente voluntariosa e competitiva, brancos/protestantes. O que restou na Europa foram os demasiado miseráveis para comprar um bilhete para o novo mundo, demasiado cobardes para o fazer, demasiado interessados noutras questões que não as de fazer fortuna ou demasiado ricos para terem interesse nisso; de facto, tal como na idade média, os europeus continuam a ser governados por umas dúzias de famílias poderosas conservadoras.

O cinismo, cobardia, interesses divergentes e inépcia dos europeus leva a que não tenham nenhum papel activo no mundo. Nem sequer conseguem resolver conflitos internos… Ainda não foi há muito tempo que andaram cá os americanos a meter o nariz, o corpo e as armas na guerra da ex-Jugoslávia; como é que eles haveriam de nos respeitar? Que não subsista a menor dúvida: no topo da pirâmide os Estados Unidos, mais abaixo o velho continente.

E Portugal? Subiu alguma coisa com a entrada na Europa? Toda a gente me diz que seria muito pior se não tivessemos aderido à comunidade ou não pertencessemos à zona euro mas todos nós sabemos que não estamos nada bem nem melhoraremos. Terá a escolha de ser feita entre merda absoluta e desgraça engravatada? Oh terrível inevitabilidade!...

Afinal hoje não deve ser o dia 1 de Janeiro mas o primeiro de Abril, ah ah ah, porque enganaram mais dois! A Bulgária e a Roménia já são membros de pleno direito da “Liga dos Cínicos e Cobardes” e no próprio dia em que aderiram, a patética associação foi renomeada; agora chama-se “Liga dos Potenciais Terroristas”! Julgavam que passavam directamente da 3ª para a 1ª divisão mas ficaram-se pela 2ª, os totós!

Os portugueses já sabem muito bem o que vai acontecer a esses infelizes: alguns ricos instalam-se e uns anos mais tarde debandam para paragens mais baratas; se entretanto os autóctones se souberem amanhar… Tal como cá esses patinhos sonham com a sublimação, em que de um estado gasoso se passa para um sólido mas cedo vão perceber que se ficaram pela condensação e não serão mais do que nós: um estado líquido sem liquidez com tendência a evaporar-se...
Agora vejam do ponto de vista dos americanos: não bastava o ajavardamento de pobres/não evangélicos a que isto chegou? Ainda tinham de meter mais Roménias e Bulgárias? E depois querem falar de igual para igual! Então quando isto um dia começar a meter Turquias... De qualquer forma, para eles, hoje já somos uma espécie de Paraguais "Iraquizados".