Caríssimos leitores:
Quando chega o fim do ano muitas publicações têm por hábito convidar bruxos, astrólogos ou videntes e pedir-lhes previsões sobre o que se passará no ano seguinte; menos habitual, pelo menos que me lembre, é a publicação do que se confirmou ou não. Meio ano depois de ter inaugurado este blog cabe-me render uma justa homenagem ao nosso astrólogo de serviço embora no fundo ele seja um batoteiro porque está a escrever do futuro. No entanto, mesmo já conhecendo o curso dos acontecimentos, não deixa de causar um certo impacto ler afirmações peremptórias sobre um assunto antes de ele acontecer. Sem mais qualquer comentário leiam o primeiro artigo escrito neste blog (fora a apresentação, claro) e depois vejam se tenho ou não razão.
Neste exacto momento vivo no ano 2044. Através de uma das onze dimensões existentes consigo fazer passar estes textos que escrevo no meu presente sobre o passado de há 25 anos, ou seja o seu presente, caro leitor. Para mim são crónicas escritas no presente sobre o passado, para si são crónicas sobre o presente escritas no futuro.
30.5.05
28.5.05
ATAZANANDO POR DINHEIRO
De há uns anos a esta parte foi-se disseminando o conceito de que tudo é uma arte, todos podemos ser artistas e é por causa dessa vulgarização que o termo ganhou também uma conotação negativa. Se tudo pode ser arte porque não haveria a Renault de se alambazar publicitando que “cria” automóveis? Se andamos todos convencidos que somos artistas já se explica porque ficam profundamente deprimidos e revoltados os “artistas” portugueses que sucessivamente soçobram nos concursos Eurovisão da Canção ou os da bola que perdem finais e campeonatos; inebriados com a sua “arte” esquecem-se que são simples intervenientes numa troca comercial que os ultrapassa. Ao contrário do que vai sendo sugerido pela maioria dos participantes neste negócio, um espectáculo de strip-tease não é uma arte por mais que se tente branquear o seu carácter. O objectivo, o fim a que se destina é o de uma mera troca comercial que se pode definir da forma mais prosaica: “- tu pagas e eu dispo-me!”. O que pode existir entre o vendedor e o comprador é um tratamento mais delicado, maior brio, mais atenção mas daí a chamar-se uma arte é o mesmo que apelidar de pintura neo-clássica ao número 0,50, o preço que o sr. Virgílio da mercearia desenha no cartaz das latas de atum. Neste, como em qualquer outro negócio quanto maior for a capacidade de fingimento do vendedor maiores são as probabilidades de se obter sucesso. Pode parecer incrível mas há tipos que ao encomendar um table-dance (um strip feito à mesa do cliente) acreditam mesmo que a pobre rapariga está absolutamente extasiada e desinibida com a sua presença; elas fazem-nos sentir especiais e parecem nunca se importar com o facto da sala estar cheia de outros homens que aproveitam para ver de borla. Depois eles espantam-se como uma vez terminado o strip, ela subitamente torna-se muito pudica e tapa-se rápida e envergonhadamente de volta ao vestiário. É muito simples: como acabou a representação do seu papel “em pleno palco”, de repente aí está ela própria, não a actriz, exposta e ainda por cima toda nua. Há muitos anos atrás eu e duas amigas passeando por Paris na zona de Pigalle deslumbrados com a oferta e libertinagem a que não estávamos habituados em Portugal enchemo-nos de coragem aliada à curiosidade e fomos assistir a um show lésbico. Levaram-nos para um privado e ao fim de pouco tempo de espectáculo puseram-nos na rua e devolveram-nos o dinheiro!... A justificação que nos deram foi que as raparigas estavam inibidas por fazer o show em frente a outras; só com o homem não havia problema. Claro: para o totó que não fala a “linguagem feminina” é fácil enganar... Strip-tease quer dizer “o espectáculo de ir tirando a roupa” e se decompusermos, vimos que strip significa despir e tease atormentar, atiçar. Na área do mercantilismo sexual este é apenas um ramo e devemos ter sempre presente que este negócio se encontra no top 3 dos maiores do mundo, juntamente com as armas e a droga. Hoje em dia a maior parte das pessoas, por vários motivos, já nascem e são criadas sem outros princípios que não sejam a busca da fama e do dinheiro, logo, é sem grande esforço que várias raparigas embarcam por esta via como forma de alcançar estes fins. Os clientes são igualmente explorados através do apelo aos seus instintos mais básicos e quem realmente ganha o jogo sem problemas éticos são os patrões promotores destes negócios; a “matéria-prima” oferece-se os clientes também, porque raios haveriam de desperdiçar esta oportunidade? Vivemos numa sociedade capitalista que no seu melhor fomenta a expressão de uma individualidade própria mas no seu pior pode-nos mergulhar no mais puro egoísmo; não consigo deixar de associar esta ideia ao facto de alguém querer pagar para ser “atiçado”. Ou seja, basta ter o dinheiro que se pode adquirir um serviço assim: eu fico de braços cruzados a ver o que consegues fazer para me atazanar. Esta predisposição para a satisfação egoísta revela a total ausência de uma coisa que também não é para aqui chamada e que aliás nem nunca se deve misturar com os negócios: o amor.
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