27.1.05

Com que então é infalível, hein?

“…de repente o fonógrafo começa a redizer, sem descontinuação, interminavelmente, com uma sonoridade cada vez mais rotunda, a sentença do conselheiro: -Quem não admirará os progressos deste século?” Eça de Queiroz in Civilização


Todos nós em algum momento da vida já nos debatemos com a questão de transpor informação de um sistema anacrónico, para um suporte mais evoluído; das fitas de gravação para as cassetes, das cassetes para os cd’s, do super 8 para o vídeo, do vídeo para DVD, etc. Recentemente, popularizou-se um sistema holográfico que permite armazenar praticamente toda a informação num simples cartão que cabe dentro duma carteira. Uma vez introduzido num aparelho próprio esse cartão reproduz tridimensionalmente toda a informação acumulada. Qualquer tirada aparentemente genial inventada no momento assim como um simples arroto que provocou um riso indescritível poderão ficar registados para a eternidade, deixando uma marca distinta e indelével da existência de um vulgar ser humano. Ainda me lembro que quando apareceu a tecnologia digital nos anos 80, nos foi impingida a ideia de que ao contrário dos discos de vinil, o CD era puro e indestrutível. Claro que bastou pouco tempo de utilização para esse mito cair por terra. Também não deviam pensar que as pessoas eram tão estúpidas para engolir assim essa teoria. Então se toda a gente sabe que os lasers na ficção científica servem para matar ou explodir naves imaginem o que fará a um CD. Sim, porque a “leitura” dos CD’s fazia-se através do bombardeamento de raios laser no plástico. Quem já não terá passado pela experiência de ouvir uns inadvertidos scratches ao mais puro estilo rap em cima duma Avé Maria barroca ou de vêr a princesa Fiona parar subitamente e desfazer-se em quadradinhos assim que ia dar um beijo ao Shreck? Se tendermos a confiar na tecnologia também temos mais tendência a enraivecer-nos com as suas falhas e por isso um dia em ameno passeio na praia à beira das ondas um amigo meu, certamente devoto seguidor de Schopenhauer me confessava: “É Fantástico! Porque será que a merda das garrafas de plástico não se conseguem destruir nem por nada e o cabrão do CD com tanta informação que me fazia falta está todo riscado?” Um dos casos mais divertidos sucedeu no fim dos anos 90 quando a Rádio Energia foi encerrada mas mantiveram a frequência aberta com a passagem de música feita através de uma máquina pré-programada de CD’s. Durante um fim-de-semana inteiro deliciei-me a ouvir dias seguidos o tema “Mr. Bombastic” que ininterruptamente não parava de tocar: riscava a meio e saltava para o princípio. Estabeleci logo uma rotina curta mas agradável enquanto durou: durante o dia ligava para amigos meus ou recebia chamadas em que ninguém falava do outro lado, simplesmente deleitavamo-nos a ouvir “Fan… Fan… Fantastic” e à noite antes de me deitar a dormir voltava a ligar o rádio, só para confirmar. Ao outro dia de manhã a primeira coisa que fazia era correr impaciente para o aparelho e durante vários dias sosseguei confortado porque lá estava ele, o inabalável “Fantastic, Mr. Bombastic” a dominar a frequência! Segundo me contaram o estúdio foi fechado à chave e a pessoa que a tinha foi para fora uns tempos, sem ser possível contactá-la, quem sabe se a fugir da civilização… Perguntam vocês que confiança é que eu tenho na nova tecnologia dos hologramas? Só vos digo que ainda hei-de assistir à notícia em que uma criança entornou um copo de leite em cima dum holograma, a família foi sugada para a sétima dimensão e o prédio onde viviam incendiou-se todo. É que são sempre os putos que descobrem com simplicidade as falhas dos “inteligentes” e nós, os burros é que pagamos. Ainda se lembram dos sistemas operativos Windows, por exemplo?

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