6.12.04

Utopia e Realidade

No século passado, ironicamente ou talvez não, alguns dos maiores agentes propagadores de mensagens do tipo “peace and love–soft core–budista de esquerda” possuíam muitos zeros à direita nas suas contas bancárias. Quem não se lembra de Paulo Coelho, o Alquimista e suas sequelas que transformava papel impresso numa tipografia, em papel moeda da reserva federal americana? E dos folhetins do Lobsang Ranpa com um olho no meio da testa que garantia ter viajado através de várias dimensões? Parece que a partir da fantástica venda dos seus livros se fartou de viajar, mas só pela Terra. E quem não se lembra das filosóficas mensagens do misterioso Júlio Roberto? Quem? Eu explico: nunca cheguei a saber quem era esta figura mas pelo nome imagino-o um pseudónimo, brasileiro, com barbas, vestes brancas e a meditar. Nos anos 70 os seus pensamentos enchiam as paredes nas salas de espera dos consultórios e ofereciam-se nos aniversários algumas dessas elucubrações espirituais em forma de poster, ou bibelot para enfeitar uma prateleira. As lições de vida do Júlio Roberto eram quase sempre frases em cima de uma fotografia; este Dalai Lama do ocidente tinha uma especial predilecção pelos pôr-de-sol manhosos na praia, e a junção de duas espécies antagónicas por natureza: casalinhos abraçados em contra-luz, bebés humanos a pegar em animais bebés e gatos a dormir enroscados em cães. A mensagem implícita era a amizade, esse sentimento tranquilo ao contrário da paixão que pode ser tumultuosa. No entanto, toda a gente sabe, pelo menos desde o aparecimento dos desenhos animados, que o Tom é inimigo do Jerry e o coiote quer comer o bip-bip. Ele tentava explicar-nos que as coisas não tinham de ser assim. Por exemplo, um textozinho lamechas em cima duma fotografia dum bebé com um pintainho ao colo pode comover a alma mas vejam o que sucede a seguir à sessão fotográfica: o bebé tem fome e dão-lhe a comer franguinhos moídos numa papa da Blédine; uns anos mais tarde, já adolescente, anda a comer frangos de churrasco. Ou seja: o bicho é que fica sempre a “arder” com a amizade; não lhe pagam para ser modelo fotográfico e ainda acaba comido de uma maneira ou de outra. Mas afinal qual era o motivo de ele nos tentar impingir uma realidade distorcida? Eu digo-vos; o que ele queria era vender, vender-nos um ideal: “- Ó amigo, é a cem escudos cada pensamento”. É como um arrumador que em vez de nos cobrar por um espaço de estacionamento (o real) cobra-nos por um pedaço do seu pensamento (o utópico). No fundo o que ele queria era viver “na boa” e quando morresse deixava uma obra. Como viveu, não sei mas o que deixou foi um rasto de caracol. Esses posters foram desaparecendo, tornaram-se foleiros a partir dos anos yuppies mas a esperança não morreu: a sementinha ficou lá e desabrochou novamente após um período de pousio. PC, na pragmática linguagem anglófona significa computador pessoal/privado; imagino que eu deva ter o chakra da amizade espontânea desequilibrado mas tantos anos depois ainda receber, via internet, indesejadas mensagens de amizade de conhecidos e pessoas que nunca vi na vida, ilustradas com os mesmos bebés, gatinhos e paisagens bucólicas é fucking amazing! Ok, não as pago mas também não as pedi; ainda por cima entopem-me a caixa de correio e alguns ordenam-me que as passe aos meus amigos de modo a construirmos um mundo melhor… Mais: se eu resolver quebrar a corrente iniciada num tempo em que ainda nem existiam computadores, ou sou mordido pelos remorsos ou trespassado pela espada do azar e da vingança. Os que mandam esses pensamentos, das duas uma: ou roubaram-nos ao Júlio ou se são eles os autores nem com pseudónimos assinam. São como aquele mítico quadro com a puta da criancinha de olho marejado com uma lágrima; também nunca soube quem era o autor de tais pinceladas. Há muitos anos o slogan de um conhecido anúncio dizia: “- Se de repente um desconhecido lhe oferecer flores, isso é Impulse”. Fazendo a ponte para a actualidade eu responderia a esses amiguinhos: “- Se de repente um desconhecido lhes oferecer um estalo, isso é Repulse “.

Sem comentários: