No ocidente habituámo-nos a pensar que as pragas são fenómenos naturais que têm origem nas zonas pobres do mundo. Nos anos 90, no entanto, surgiu uma praga artificial originária dos países ricos: refiro-me aos telemóveis. Na natureza todos os insectos têm um lugar próprio na cadeia ecológica mas em demasia tornam-se agressivos, invadem o espaço dos outros e causam danos por onde passam; em excesso, os telemóveis têm exactamente estas características. O seu “tiriri” ou musiquinha transistorizada revela as preferências e nível socio-económico dum receptor que automaticamente se torna emissor sem ninguém lhe pedir; no meio de um cinema ou de uma reunião pode ser tão desagradável e irritante como uma mosca no prato da sopa ou um grilo no quarto numa noite de insónias. Os telemóveis da primeira geração eram como os escaravelhos no antigo Egipto: não tinham uma utilidade real sendo apenas um símbolo de boa fortuna; serviram, porém, para revolver o terreno e prepará-lo para a próxima geração. A segunda era como as abelhas: ainda eram grandes e pesados mas ganharam “asas”; víamo-los sob uma perspectiva utilitária. Rapidamente evoluíram para melgas, mais pequenos e leves, zuniam que se fartavam e chupavam-nos a carteira. Tal como estes insectos o seu corpinho era muito frágil, desmanchando-se irremediavelmente ao primeiro acidente. No entanto, esta débil constituição escondia uma eficácia terrível quando se tratava de atacar: sugavam-nos o orçamento, deixavam-nos marcas de baba nas contas por pagar e de destruição nas células do cérebro. Todos os animais de maior porte transportam consigo outros mais pequenos ou mesmo microscópicos; alguns cooperam com o hospedeiro, outros parasitam-no. Os humanos passaram a transportar um que por mais escondido que esteja nunca deixa passar despercebida a sua pesença visual ou sonora. Começaram por ser pretos mas rapidamente se tornaram metálicos e garridamente coloridos, espelhando a magnífica diversidade cromática do maravilhoso mundo dos insectos. As cores mais usadas para iluminar os seus visores eram o verde-pirilampo, o azul-varejeira e o laranja couráceo. A manifestação sonora da sua existência era feita através de toques e musiquinhas em frequências por vezes tão elevadas que quase roçavam os ultra-sons, tal como o voo dos mosquitos mas em sintético; em grandes concentrações de pessoas eram uma nuvem de milhares a zunir ao mesmo tempo. Mais do que meros objectos que facilitam o nosso quotidiano, tornaram-se motivo de adoração em si mesmos e há 25 anos esses “bichos” sofreram a metamorfose da terceira geração: tornaram-se louva-a-deus fêmeas; um pouco maiores por causa do ecran com imagens e o estabelecimento de uma ligação passou a ser um momento quase orgásmico. Hoje em dia isso ainda continua assim mas se não temos cuidado e fugimos a tempo, somos comidos vivos pelas contas e violados na nossa privacidade. Porque continuamos então tão dependentes e como poderemos libertar-nos desta praga? Não sei. Parece que afinal nos portamos é como vegetais à espera que um insecto transmita a nossa informação a outro vegetal. Talvez imitando a interacção que existe entre estes dois reinos na natureza o melhor seria falar com as plantas e perguntar-lhes o que fazer.
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