9.12.04

Donaldim, o Pato Ventríloquizado

Donaldim, habitual colaborador do programa SIC 10 Horas tem uma das histórias mais pungentes que me foram dadas a conhecer. Como o seu manipulador, o artista José Freixo usava bastante a mão esquerda, ao longo dos anos desenvolveu-se uma extensa rede de vasos sanguíneos que tornaram Donaldim num ser com vida própria e quase autónomo. À medida que o tempo ia passando, cada vez mais Donaldim contestava os textos que Freixo escrevia para os espectáculos do duo; é certo que as punch-lines estavam reservadas para o pato mas este ia-se insurgindo contra a qualidade das mesmas, até que um dia começou ele a escrevê-las. Na mesma medida em que o seu papel no seio do duo ia aumentando, a influência do seu dono ia diminuindo até que este se começou a tornar desinteressado e desleixado chegando ao ponto de, a partir de uma determinada altura, ser o pato que fazia de ventríloquo do dono. 

Muitas vezes era Donaldim que arrastava José Freixo com a barba por fazer e óbvios sinais de embriaguez para cima do palco e praticamente fazia o show sozinho. Com frequência se ouviam violentas discussões dentro dos camarins, acompanhadas de sons de cadeiras a voar, vidros partidos e grasnados horríveis. Um dia, Donaldim chegou a aparecer de óculos escuros no plateau do estúdio e há quem diga que era para esconder um olho negro. Um dos técnicos da produtora do programa garante que ouviu José Freixo murmurar entre dentes que “um dia o cabrão ainda vai aparecer cozinhado”; depois riu-se malevolamente com a ideia e chegou a deixar escapar alto e bom som: “-Olha que engraçado, Donaldim à Pequim”. Talvez Freixo nunca tenha levado avante os seus intentos porque teria de cozinhar também a sua mão com os dedos incluídos. É óbvio que nessa altura o ambiente era literalmente de cortar à faca, e depois do pato questionar constantemente a utilidade de um apêndice tão desnecessário como o José, a insatisfação no seio da parceria levou a um inevitável divórcio entre os dois. 

Andaram em advogados mas a coisa nunca correu bem porque as duas partes litigantes estavam sempre presentes nas consultas que deveriam ser privadas. Com a parte do dinheiro que ganhava nos espectáculos, o pato que era o mais poupado pois não saía da caixa e nem sequer comia, juntou uma pequena fortuna; a troco de uma avultada quantia e com o apoio jurídico da Associação para a Defesa dos Animais conseguiu um dia convencer o depauperado José Freixo a marcar uma operação para a mútua separação. Foi uma intervenção muito delicada, similar à separação de gémeos siameses, requerendo imensos cuidados, dada a imensidão de veias, artérias e músculos que os dois partilhavam. Aproveitou na mesma altura para fazer uma lipo-aspiração à barriguita e uma plástica ao bico; começou a calçar o 45 porque com os pezinhos que tinha estava sempre a cair de bruços; cortou a guedelha, largou os trapos de velha que o seu manipulador lhe vestia e passou a usar fatinhos do Augustus. Depois de uma bem sucedida separação e um re-styling geral, Donaldim dedicou-se a uma carreira a solo actuando principalmente em espectáculos de stand-up comedy sentado. Freixo retirou-se do show-biz e passou a viver indigente no meio da rua. Infelizmente Donaldim, por ser muito novo, não percebeu que a razão do sucesso do duo era a dicotomia palhaço rico/palhaço pobre e uma vez eliminado um dos elementos, ele tinha deixado de ter graça porque não havia ninguém a seu lado para enxovalhar, e o público não estava para ser gozado por um pato; resta acrescentar que os fatinhos do Augustus também não ajudaram muito, ainda por cima num país de invejosos que não gosta de ver ninguém bem. 

Um dia no programa da Fátima Lopes, ficou registado para sempre na memória do público o momento em que Donaldim, vagueando pelas ruas ao volante do seu Smart, encontrou José Freixo a remexer num caixote do lixo, o convida para entrar no seu carro e dão um forte abraço cheio de comoção. Correram as lágrimas, trocaram-se juras de amor e fidelidade eternas, e esta foi mais uma história que apesar dos reveses da vida acabou em bem… Até a imprensa sensacionalista, chata como a sarna, ter agora “levantado a lebre” de que pode haver indícios de um escândalo sexual relacionado com o duo, ainda nos tempos em que estavam ligados. Várias comentadores juridicamente abalizados têm discutido se neste caso, a utilização da mão que manipulava o pato com o objectivo de obter satisfação sexual, poderia ser considerada masturbação ou coito oral. O Fernando Rocha no seu talk-show na SIC Comédia sugeriu que talvez fosse o facto de ser constantemente amamentado que deu vida ao pato; disse também que agora já percebe a expressão “fazer um bico” …

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