Eu nasci nos anos 60 e toda a minha educação reflecte as estáticas orientações da época até ao 25 de Abril. Em termos políticos, Portugal definia-se como um império que tinha o mundo contra nós cobiçado pelas maiores potências, nas ex-colónias éramos amados paternalmente à parte uma meia-dúzia de “turras”, os ingleses eram nossos aliados embora nos tenham traído inúmeras vezes e os espanhóis sempre foram nossos inimigos com apetites imperialistas; curiosamente, todos esses conceitos foram caindo com o tempo excepto a malvada sensação acerca dos espanhóis. Não tem sido fácil descartá-la sobretudo se somarmos a isso uma natural antipatia fonética pela sua língua, pelos seus modos e por quase todas as suas realizações. Serve este preâmbulo para explicar que cheguei há poucos anos à triste conclusão que no dia 1 de Dezembro de 1640 não foi só o desgraçado do Miguel de Vasconcelos o único defenestrado; nesse dia também atirámos pela janela a oportunidade soberana de nos mantermos ligados a uma federação que provavelmente seria mais benéfica para os nossos interesses.
Esquecendo toda a repugnância que o assunto espanhóis me merece vou tentar fazer de advogado do diabo e exercitar um raciocínio que até já foi feito por outros estrangeiros que nada têm a ver com o assunto. Pouco se sabe sobre D. Afonso Henriques mas Freitas do Amaral no seu brilhante livro sobre o tema (nesta vertente gosto dele) consegue dar uma imagem que julgo bastante correcta, dentro das possibilidades documentais. Aparentemente, quase ninguém no território que deu origem a Portugal queria ser independente de coisa nenhuma e tudo se deve ao notável génio do nosso primeiro rei que carregou praticamente o mundo às costas para tornar realidade o seu propósito. Desde aí se prova que Portugal é um projecto inviável só fazendo sentido num mundo sem regras de civilização em que se podia roubar e guerrear sem grandes consequências; vivia-se a lei do mais forte e ainda hoje assim é com os Estados Unidos, outra jovem nação. Como não temos recursos naturais, não produzimos nada e estamos entalados entre uma “muralha” e o mar, houve a necessidade de em 1415 ir roubar Ceuta, entre outras coisas, uma grande produtora de cereais.
A nossa maior glória como nação vem do facto de ambicionarmos ser os maiores comerciantes do mundo pondo para isso um país a trabalhar durante décadas para chegar à Índia. Entretanto humilhámos ou corremos com os judeus que foram para a Holanda, país que nos roubou essa posição passando os séculos seguintes a piratear todas as nossas posições; já ouviram falar de “olho por olho, dente por dente”? Hoje continuamos sem recursos naturais, ainda não produzimos nada e já não há colónias para ratar; o que é que nos resta? A paisagem? Mesmo que viéssemos a produzir qualquer coisa, os meios de transmissão das mercadorias saem-nos sempre mais caros devido à nossa localização, inviabilizando veleidades concorrenciais. Será que deveríamos ficar à espera que se invente um tele-transportador espacial? Dentro de uma lógica de mercado Yuppie e de terceira revolução industrial, o professor Cavaco Silva, percebendo a importância das vias de comunicação como um dos principais factores de implementação por exemplo, do império romano ou norte-americano, fomentou obsessivamente a construção e diversificação dos meios de comunicação, com as consequências sociais que ainda recordamos e facturas que ainda pagamos.
A maior parte dos políticos portugueses que pensa governar acho que o faz por ambição mas aqueles que se mantêm, salvo raríssimas excepções fazem-no, desculpem-me o populismo, por tacho e nada define melhor do que este termo. Quem lá chega rapidamente constata, se não o sabia antes, que esta “empresa” chamada Portugal está condenada à falência; se fossem rigorosamente honestos já a tinham declarado, “fechado as portas” e mandado toda a gente para a rua, vulgo estrangeiro. Tal como os mafiosos americanos, instala-se-lhes um auto-indulgente espírito nacionalista e a partir daí gerem o momento tendo apenas como objectivo a manutenção do status-quo e o aproveitamento pessoal do cargo. Penso muito sinceramente que só temos duas hipóteses e as duas passam por uma indignidade nacional: como não é possível continuar a viver neste aperto permanente em que constantemente somos violentados com novas obrigações económicas, fazemos uma revolução, tomamos uma atitude escapista e terceiro-mundista de negação da realidade, cagando para todas as responsabilidades assumidas; pode ser que outros sigam o exemplo e se é para haver merda vai tudo para a lama. Nesta opção corremos o risco daquele adepto furioso contra o árbitro que invade o campo julgando que todos o seguem e de repente constata que está sozinho cheio de polícia à volta.
A outra hipótese que me parece mais viável do ponto de vista do direito internacional é pedir formalmente a adesão à Commonwealth! Porque será que Moçambique a pediu? Para além de ser parceira comercial e territorial da África do Sul devo aqui recordar que ao contrário do que nos foi doutrinado, todas as ex-colónias portuguesas à notável excepção de Angola são extremamente pobres ou com recursos caríssimos de obter; já percebem porque é que o mundo em 1974 ainda nos permitia manter um “império”? Dentro da hipótese “b” ainda temos outra opção: pedir a adesão ao reino de Espanha revogável a cada 10 anos. Pensem bem: hoje em dia qual é o problema? Embora Olivença legalmente ainda nos pertença nunca quis largar a soberania castelhana e tirando os bascos ou Gibraltar verificamos que os outros povos hispânicos não se dão nada mal. Podemos é sujeitarmo-nos à vergonha de eles não nos quererem como os empréstimos que pedimos ao banco quando não temos nada. O mal acumulado mais recente foi o dr. Mário Soares imaginar que na Comunidade Europeia, uma das referências da economia de mercado, ia deixar de haver países na Europa mas parece que isso ainda não é para já e também é óbvio que ele não teve outra saída. Que pena não se poder, como nos computadores, fazer reset…
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