Vivo em 2029 e depois do lançamento do blog “Crónicas do Futuro” recebi milhares de mensagens (Ya, pois!) de cibernautas que me diziam mais ou menos o mesmo: “- até pode ser giro o que escreves mas falas pouco sobre o teu próprio presente”; ou seja, o que o pessoal quer sempre saber é como vai ser o futuro. Embora não seja bem o propósito destas crónicas vou tentar saciar um pouco a curiosidade, revelando como é o mundo nesta altura.
No sul de França continua-se a realizar o festival de cinema de Cannes e na última edição, Manoel de Oliveira agora com 119 anos, levou a concurso a sua nova obra-prima “O Caixão”. São 73 minutos de plano único sobre um caixão fechado, ouvindo-se em off a voz de Luís Miguel Cintra a divagar sobre a ironia da vida. A música é de Pedro Abrunhosa, outra ironia mas mais do canto. Continuou sem ganhar nenhuma Palma de Ouro mas a iluminada crítica gaulesa não deixou de tecer rasgados elogios, salientando a modernidade e coragem do realizador. Também não se esperaria outra coisa de um país cujo maior fetiche é cortar cabeças; devem ver com outros olhos que não os da cara…
Houve grandes avanços científicos mas o preço pago foi, por vezes, demasiado elevado. Riram-se da ficção científica apresentada na série Star-Treck? Pois fiquem sabendo que o ano passado foi testado um tele-transportador espacial em cobaias humanas. É certo que algumas experiências não correram lá muito bem, mas desbravar novos caminhos sempre provocou alguns acidentes de percurso. Uma das primeiras vítimas foi desmaterializada em Denver e reconstituída em S.Francisco; qualquer coisa deve ter falhado porque o homem apareceu materializado com o pé esquerdo no meio da testa, um pulmão no braço e o pénis enfiado no ânus. Está milionário com a indemnização recebida e a venda de fotos na internet. Quanto ao seu último "problema" consta que ele pediu para não repararem o defeito, confirmando assim aquela velha máxima de que “quem experimenta já não volta”; esta é uma das razões porque eu em particular encaro estas experiências como a droga: o melhor é não experimentar.
Já se descobriu a cura para inúmeras doenças que afligiam a humanidade, os hieróglifos das pirâmides não escondem mais segredos mas ainda ninguém conseguiu decifrar o raio do significado daquele célebre refrão da música popular hispânica: “Asereré, asé…!” Houve vários escândalos no domínio económico e soube-se, por exemplo, que muitos vírus informáticos eram fabricados pelas companhias de anti-vírus para vender computadores associados a essas marcas, tal como certas doenças foram produzidas por laboratórios que fabricavam as suas vacinas. Dizia-se que a famosa receita da Coca-Cola estava religiosamente guardada num cofre da companhia em Atlanta, mas afinal o que lá estava guardado era ainda mais surpreendente: os documentos que revelavam que a Pepsi fora uma invenção da própria Coca-Cola. A ideia era produzir um produto pior e investir barbaramente em publicidade, de modo a criar uma ilusão de concorrência, cujo objectivo era salientar as qualidades do “original”.
No domínio da genética evoluímos bastante e para além de há muitos anos já se produzirem melancias sem pevides, há agora o “Malamo”, uma fruta nova que é uma espécie de salada de frutas: um terço é manga, outro terço é laranja e o último é morango. Estão prestes a sair para o mercado novas variedades. Há também frangos sem cabeça e sem patas (um desperdício resolvido), sardinhas sem espinhas e um carapau que tem uma bolsa debaixo da guelra: quando a rebentamos escorre um magnífico molho à espanhola. Na área dos animais de estimação geneticamente modificados, também se podem adquirir hoje em dia gatos sem garras e cães que repelem pulgas e carraças. No domínio da clonagem humana ainda há alguns atrasos oficiais na investigação mas suspeita-se que existam alguns modelos bem sucedidos vivendo entre nós. Senão como se explicaria que, por exemplo, Valentim Loureiro e Pedro Santana Lopes conseguissem estar à mesma hora em vários locais ao mesmo tempo e em diferentes funções? Como vêem, tudo normal entre avanços e retrocessos. Embora em 2004 julgássemos que nos íamos aproximando do mundo dos Jetsons, a verdade é que ainda vivemos no dos Flintstones.
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