29.11.04

Quanto é que Portugal é pequeno?

Os números são uma matéria absolutamente fascinante, principalmente para alguém como eu que pouco entende essa linguagem. Todos nós temos um limite numérico para percepcionar a realidade e quanto mais baixos forem os números que nos fornecem para a definir mais temos a sensação que a controlamos. Lembro-me que quando comecei a jogar flippers as máquinas ainda eram de soma mecânica e não ultrapassavam os 5 dígitos; a sensação que se tinha era de controle (era um ás) porque facilmente se dava a volta ao contador e com alguma perícia e sorte se atingia o limite máximo de 15 créditos. Mais tarde, quando apareceram os contadores digitais e cada palhaço derrubado dava 1 milhão de pontos em vez dos 50, comecei a perder o controle do que fazia, a máquina passou a dominar-me, logo desinteressei-me. Imagino que para um puto americano meu contemporâneo, milhões eram números quotidianos, como a distância em quilómetros da Terra à Lua mas para mim, português dos anos setenta, que várias vezes apanhei o 4 de dois andares da Carris, cuja carreira começava no Rossio e acabava no Marquês de Pombal (dois ronceiros quilómetros), com um canal de televisão ao quadrado e a duas cores, uma marca de pasta de dentes infantil com dois sabores e outra de batatas-fritas industriais com o nome repetido, o “sistema binário” moldou-me a realidade e era mais comum no meu dia-a-dia. Os tempos mudaram e se hoje já podemos escolher vinte e tal versões dum modelo qualquer, antigamente os meus pais só podiam optar entre duas do mesmo Mini: Austin ou Morris! Para os humanos, de uma maneira geral não interessa o número, o que conta é a intenção; para mim, o número é também a dimensão divina do racional e pode ser tão mal usado como a palavra. Estatísticamente, um relatório com números brutalmente frios até pode impressionar, embora em Portugal, país cujo povo é pouco dado a elocubrações matemáticas provoque quase sempre no comum cidadão o seguinte comentário de cepticismo crítico: “- Calma lá! Isso é muito relativo!...” como se os números com a sua aura de infalibilidade e prepotência intelectual tentassem distorcer uma realidade por todos percepcionada de maneira diferente. Ainda por cima esses números são frequentemente usados pelos poderosos à frente do governo e instituições como armas de tecnologia de ponta apontadas à cabeça do cidadão incumpridor; individualmente ou em pequenos grupos tentamos reagir mas parece que estamos a combater armas de laser com fisgas. Os números, tal como as armas, só por si não têm possibilidade de nos atingir, precisam de estar apontados e ser disparados através de um meio transmissor. O bombardeamento de números é propagado pelos meios de comunicação social e é um caso em que raramente se “mata” o mensageiro a não ser que a vítima seja um poderoso Padrinho. Quem já não se sentiu atingido e ferido por um número que, por exemplo, refere as mortes por cancro disto ou daquilo provocada por maus hábitos que temos de corrigir? Esta é uma guerra em que os números isolados nos ferem mais do que em conjunto, quando por exemplo são agrupados em percentagens. Essa invenção permite teorizar a realidade e daí a população não se sentir tão afectada: é pior saber que morrem 3 pessoas por dia na estrada do que saber que houve um aumento de 15% dos acidentes mortais. Quando é aplicada ao déficit ou à inflacção então ainda se torna mais ridícula aos olhos de quem tem todos os dias de sobreviver com um ordenado baixo.
Em Fevereiro deste ano, de visita a S.Paulo no Brasil vi uma manchete num diário que referia como tinha sido escandalosamente parcelada no tempo uma dívida ao fisco negociada por um particular e uma repartição do estado. Em Portugal contei a história a vários amigos e perguntei se conseguiam imaginar em quantos anos tinha sido parcelada essa dívida; muito surpreendemente garanto que a quase totalidade das pessoas me respondeu 110 anos. Pois… A manchete referia que a dívida foi parcelada em 890 mil anos!!! Dava à volta de 1 euro por ano! Se o homo-sapiens apareceu há mais ou menos 2 milhões de anos essa dívida pode ser paga no futuro em quase metade do tempo de existência da nossa espécie! Para um português 100 é um limite escandaloso mas como estamos a falar do Brasil, vá lá, mais 10. Tentando perceber o ponto de vista dos aldrabões concluo que 890 é o limite do limite; vê-se perfeitamente que foi um número trabalhado e obedeceu a critérios de negociação muito bem pensados em termos psicológicos. Vamos raciocinar ao contrário e começar por cima: milhão é um escândalo; novecentos é a última sequência antes do fim; oitocentos e noventa é o máximo perto do limite tolerável do bom senso; mais que isso já seria “esticar muito a corda”. Assim chegamos a um número que se ninguém lhe mexer não dá muito nas vistas… Agora não vou ser irónico: Ai o Brasil, essa terra que os olhos hão-de comer, como é grande e divertido…

2 comentários:

Anónimo disse...

se pt e pequeno... q dizer de san marino?

Anónimo disse...

Só como curiosidade acrescento que ontem ouvi a seguinte notícia no telejornal: num estudo realizado nos países da OCDE e recentemente divulgado, conclui-se que Portugal é dos piores em matemática; parece que atrás de nós, segundo esse estudo, só estão a Itália, a Grécia, a Turquia e o México...