25.11.04

Beleza Interior

Nasci em Portugal em 1961 e a educação que recebi reflecte as tendências da classe média da época; por isso sou João José como poderia ter sido João Paulo ou João Luís mas não tinha tios com esse nome e João Armando ainda seria pior do que o que ficou. A informação que me foi fornecida para responder aos desafios do mundo social foi, no meu caso, escassa e por isso todas as modificações ou evoluções são para mim um processo de compreensão mais racional que sensitivo. Serve isto para dizer que nunca tinha ouvido falar em beleza interior até recentemente e com tanta frequência, logo será através da análise que tentarei compreender o seu significado. Em primeiro lugar quem é que costuma utilizar essa expressão? Depois de uma investigação sociológica no terreno e poupando-vos a milhares de pormenores técnicos, o que interessa reter é o seguinte: concluí que quem fala do valor da beleza interior são pessoas feias de um nível sócio-económico baixo; basicamente é isto! Sempre que a ouço o meu primeiro impulso é imaginar-me uma espécie de Super-Homem (eu papava os comics todos) com visão de raios X a observar um lindíssimo fígado ou outra víscera do género; para essas pessoas, entretanto percebi que se estão a referir a algo como carácter ou qualquer outra coisa que a aparência exterior oculta (dificulta e muitas vezes inculta...). Se nunca viram beleza à sua volta, pais que gritam, famílias unicamente preocupadas em pôr o pão na mesa todos os dias, gente feia porca e má em amontoados de prédios ou barracas, a sua táctica de sobrevivência será dizer que a vêem onde a vista não alcança. É uma atitude digna e louvável; o que me chateia é a falta de decoro na sua propagação contribuindo para a poluição geral do país. Isso também me levou a outro dado interessante: neste mundo competitivo de procura de parceiros para efeitos de acasalamento quem tem beleza exterior tem quase tudo; nestes, a beleza interior não é o principal e quando existe aparece como um bónus. Infelizmente a conclusão é triste: a pobreza é o principal motor de procura da tal beleza interior. Os ricos apreciam a beleza (só) e são bonitos; quando não são também a podem comprar. Os pobres são feios e apreciam fundamentalmente a beleza exterior; quando não a têm contentam-se com a beleza interior. Em conclusão, hoje já não existe aquela pobreza humilde dos fados da Amália e se um pobre atinge algum grau de notoriedade não tem nenhum complexo em alardear a sua origem; o irónico é que quase nunca se apercebe que o faz...

2 comentários:

xanaguedo disse...

Quando se disse no texto mencionado "concluí que quem fala do valor da beleza interior são pessoas feias de um nível sócio-económico baixo", concordo perfeitamente. Na verdade somos nós (insiro-me, pouco humildemente, nesse grupo) o motor de toda a história e sociedade (conclusão a que também deve ter chegado nesta investigação sociológica). Na verdade, sem gente feia e pobre, já todos estariamos às turras em concursos de beleza, intelegência, poder e dinheiro. Um carro não é apenas constituído pelo bonito material nem a tinta que o faz brilhar, mas também pelo motor que uma vez gripado, por muito reluzente que esteja o veículo que serve para andar, deixa de ter valor (lamento dar este exemplo, uma vez que nem carro tenho, por isso perdoe-se-me qualquer falha técnica).
Este texto deixou-me sentida, confesso. Não pelo facto das acusações (diria melhor, atribuições) de tão profundo pensamento dedicado à minha classe. Acho fenomenal e muito lisonjeador atribuir-se o conceito de "beleza interior" às pessoas pobres e feias. Em muito blog que já li, nunca nenhum me deixou tão derretida!
Na verdade, os pobres e feios serem o motor de funcionamento da sociedade era já sabido. O que o sr. João Melo acaba de descobrir é que a nossa classe é também a pensante e, para além do mais filósofa com máximas que não passam a escrito mas que são tidas no inconsciente colectivo.
Lamento, JM, de tal forma que nunca tenhas cruzado com uma pessoa que te faça ver que a beleza interior é O (no sentido de "THE")importante. Mesmo muito mais que qualquer estética agradável aos olhos. O que seria do Picasso sem nós, por exemplo?

Vítor disse...

1 - antigamente as pessoas "lutam" por quem tinha origens mais nobres. respondia-se a uma quinta no douro com uma casa na Quinta do Lago
2 - hoje passa-se o contrário: a disputa (não digam) é quem teve origens mais modestas, quem vestia a roupa com mais buracos ou escrevia com a pior caneta na primária.
3 - independentemente da época ou da classe social todos eles proclamavam a geração anterior, ora por serem senhores brazonados, ora por trabalharem 18 horas por dia para pôr pão na mesa.
Conclusão: a beleza interior está nos pais... ou no país...