O primeiro contacto que tive com este artista foi feito sem preconceitos, mostraram-me num telemóvel a sua actuação no Festival. Mas assim que ouço 1- uma guitarra portuguesa ou 2- cantores ou cantoras abrir a goela com a voz colocada num registo "à fado", a minha repulsa não tem explicação, confesso. Acho que toda a gente tem direito a fazer o que quer, eu tenho a possibilidade de me recusar a ouvir. Nas últimas décadas desenvolvi uma repulsa orgânica por ouvir o que não gosto, nem por piada para depois dizer mal. Bastam-me uns acordes para perceber se continuo a ouvir ou paro. Também foi assim com o Salvador Sobral. Não acompanhei esse festival mas ouvi tanto ruído à volta dele que fui ver o que era. Arrebatou-me logo e por isso não percebo porque mais de metade das pessoas o arrasavam. Toda a gente parece ter ideias muito claras do que é uma "música de festival", e aquela "não era"... Não me interessa se um gajo canta com esgares ou com colheres penduradas na tromba, isso é uma coisa de cada um desde que o trabalho tenha substância e a imagem coerente com o trabalho. Mas as pessoas em geral não têm critério, anda tudo alienado, e quando o Sobral ganhou passou a ser o maior. Vendo que o absurdo é premiado e sem perceber o que presta ou não, o público receia passar por parvo. É o terreno ideal para todo o tipo de disparates singrar, "um gajo sabe lá se acha aquilo mau e depois dizem que não é?" Eu não gosto disto, não me interessa se sou estou agarrado a um formato tradicional, se ganha o Festival da Eurovisão, um Óscar ou toda a gente diz que é o maior. Mas não acho que seja um caso de vergonha nacional. Os festivais, o que passa nas rádios, o que tem notoriedade social é-me indiferente, se não gosto não consumo e não preciso de confirmação alheia, nem acho que eu seja melhor ou pior que ninguém. Só acho que o grande público tem pouco critério, de resto estou-me borrifando se o artista A existe ou não existe, se B tem sucesso ou não, se representa Portugal ou o Burkina Faso. Este artista pode ganhar a Eurovisão? Claro, tem todas as condições para isso. E esse facto fará mudar a minha opinião? Claro que não, o que ouvi não me toca em nenhuma dimensão para eu conseguir ouvir os restantes 3/4. É inegavelmente um rapaz sensível, mas o que apresenta não traz nada de novo, inspirador, é outrossim o mensageiro da destruição de algo velho - uma coisa que nem ele tem noção - e nessa perspectiva consigo respeitá-lo. Tendemos a considerar aqueles que vêm aplicar o golpe final como menos dignos, mas alguém tem que fazer esse serviço, não é? Aliás, se as circunstâncias propiciam o aparecimento de carrascos isso é sinal de que há coisas que já deviam estar mortas, temos pena mas é a lei da vida. O Conan Osíris aparece para aplicar a morte, é um algoz.
Enviaram-me um link duma entrevista dele que achei interessante. Ouvi sem qualquer filtro como já tinha ouvido a tal música. Aborreci-me ao fim de algum tempo. Saí do Youtube, comecei a pensar numa resposta para a amiga que o enviou e voltei para verificar uma coisa: o vídeo tem 10 minutos, vi 3 minutos e meio. A música só consigo ouvir até pouco mais de entrar a voz, imagino que sejam uns 40 segundos. Logo, suportei mais a ouvir o artista falar que a escutar a sua obra. Tem aptidões humanas, tipo pensamento lógico, criatividade, fala, etc, mas parece um hominídeo adulto não completamente formado. A linguagem é mais que primária mas não é a expressão verbal que me aborrece, são os processos mentais que geram essa expressão. Outro dia acerca do QI li que quanto mais perto uma pessoa estiver do nível médio de QI dum público, mais fácil é para ela comunicar com esse público. Os processos mentais que este rapaz revela na expressão levam-me a suspeitar dum baixo QI. E isto também me levanta uma nova questão: suspeito que o nível médio de inteligência do público que se interessa, assiste, e vota no Festival é baixo. Logo o que este rapaz fala e produz, mesmo soando bizarro para esse público, toca-o de alguma maneira, consegue que o entendam. Poderá ser o máximo desvio daquilo que acham normal, mas situa-se no seu patamar de compreensão. Depois de ver a entrevista descansei o espírito porque agora percebo o que senti, e assumo que não tenho paciência para isto, acho aborrecido demais para me suscitar interesse. Não significa que eu seja melhor, mais feliz ou com mais sucesso que ele, significa que os nossos níveis de inteligência não permitem uma ligação, por isso nem consigo detestar, só quero distância. É bizarro mas nunca o julguei pela forma porque é bizarro; essa é talvez a opinião do tal público que votou nele. A bizarria para mim vem do conteúdo, da total ausência de empatia mental, de um quociente próximo do meu para me interessar. Como também não tenho empatia emocional, qual é o interesse?
Se encarar isto pela perspectiva dum produto do "music business" não há nada a comentar, há gostos para tudo, cada um come o que quer. Se vir esta obra duma perspectiva artística já me preocupa um pouco mais. Do conjunto da entrevista e da audição do tema ressalta a impressão de que estou perante uma pessoa confusa, vítima de bullying sonoro, com a cabeça entupida de pensamentos alheios, com o espírito cheio de nódoas negras de sons e ruídos. A criação artística não é possível sem “silêncio”, sem o criador de alguma forma se proteger do exterior, sem se escutar a si próprio, ficando disponível para captar o que emana dum “Campo”, onde tudo o que foi, está a ser e será criado já existe em forma de onda quântica. Acho que este rapaz nem percebe que o seu processo resume-se a uma contínua exposição a agressões sonoras exteriores, e depois, por uma necessidade de equilíbrio orgânico, precisa de responder a essa pressão, como o reflexo do pontapé quando um médico bate com o martelinho no joelho. Ele não cria, ele monta, edita o que outrém mastigou e cuspiu. Nem sequer inventa as peças; vai buscá-las todas feitas aqui e ali, e monta-as à sua maneira, como se em vez de comprar um produto feito, por exemplo um carro, ele dissesse “também sou capaz de fazer um carro com peças soltas”. Fazer à sua maneira um produto como os outros têm não é propriamente arte; isto é só porque tem jeito para a mecânica e bate-chapa, também consegue fazer uma coisa que anda. Não há uma ideia original, uma filosofia de base, uma visão pessoal do mundo que depois é materializada através de processos artísticos. O que há é uma intenção de dizer “eu também faço, mesmo sem ter grande capacidade nem meios”. E por isso me soa confrangedor, parece um Fiat Panda "tuning" montado com peças apanhadas nos salvados. A imagem e a obra deste rapaz têm para mim o mesmo significado duma árvore de Natal feita com garrafas de plástico, montada por crianças do ensino básico, e orientadas por educadoras que pretendem passar a ideia que com isso se está a incutir uma consciência ecológica nos miúdos. Se há uma ideia nem é dele, é de outros mentores, ele só a executa conforme sabe. É tudo tão infantilizado que julgo ser por aí que consegue tocar a sensibilidade do público que o ouve. A criatividade é própria das crianças, e por isso acaba por passar uma sensação de genuinidade, pureza, ideias próprias, de ainda não ter sido socializado como os adultos. É neste ponto que o público "mainstream" aquele que há muito vive numa realidade formatada, alternativa à sua essência humana, se sente tocado pelo Conan. Para mim esta música podia ter sido foi feita com vários microfones espalhados pela Feira Popular que se ligam a uma mesa, onde as pistas são misturadas à sua maneira, amplificadas e vertidas cá para fora. É original pelo facto de misturar ao seu gosto os ruídos alheios, acrescentando mais uma pista de ruído -a sua voz- com palavras que nem precisam de fazer sentido umas com as outras nem sequer no seu todo. Por exemplo: disse na entrevista que ficou fascinado com a palavra bibelot, julgo que seja tanto pelo que significa como pela fonética da palavra. Vamos imaginar: se lhe juntar o som “E” pode “criar” Bibelot de pé, Bibelot no Canapé, Zé do Bibelot, ou Pontapé no Bibelot, só para dar 4 possibilidades. A seguir pega em outras peças giras da Feira da Ladra, raspa-lhes um pedaço ou adiciona-lhes outra coisa, e cola tudo numa sequência ligada com verbos, pronomes, e adjectivos até encher o espaço da pista reservada à voz. Já está, isto é ser original, ninguém se lembrou antes. Como é novo e dá sinais de pouca cultura não deve saber que os Beatles, por exemplo, às vezes usavam esse sistema antes de encontrarem a letra final; durante a fase de composição da música, "Yesterday" cantava-se "Scrumbled Eggs" seguido dum chorrilho de incoerências... Se entretanto lhe explicarem talvez passe a dizer que tem um estilo propositadamente cru, que a sua obra pretende expor as entranhas do processo criativo; mas como pelo que vi não deve saber, aquilo que mostra é uma maquette de qualquer coisa que não tem vergonha de mostrar publicamente a meio do processo, passando por acabado. Também não sei se alguma vez iríamos ouvir o "produto final" (e se seria melhor), não o vejo com nenhuma vontade de seguir caminhos "tradicionais". E mais uma vez, como compreenderão, ao contrário de alguns imbecis eu nunca teria nada a apontar ao aspecto do rapaz, afinal ele até é coerente com o som: rude, com as pontas "por aparar".
A confusão mental tem implícita a seguinte falácia: esta obra foi feita segundo a lei da sobrevivência com o menor esforço; não é preciso ter concebido uma razão para ela existir, simplesmente faz-se e posteriormente arranja-se a explicação. Não é um processo de elevação mental, artística ou interventiva, é antes um impulso animal, como comer, dormir ou defecar, uma necessidade biológica. A lei da sobrevivência com o menor esforço é a mesma que leva um casal a ter um filho por que calhou, ou sem ter condições para isso. Depois podem justificá-lo de mil e uma maneiras maravilhosas, acima de todas o amor, mas na verdade foi um "vamos a isto e logo se vê". Grande parte desses casais dura no máximo 3 anos antes de se separar, mas as suas "obras" ficam aí toda a vida e até são um empecilho à necessidade de arranjar mais momentos propícios "à criação" com outros parceiros. Quero com este exemplo dizer que o rapaz não tem consciência do que está a fazer, e receber um feedback tão positivo do público significa apenas que as circunstâncias permitem que uma actividade tenha sucesso. O público está farto de determinados modelos, e o modelo do Conan preenche os requisitos para ter sucesso, não significa que o seu modelo seja bom, são duas coisas diferentes. Mas se quem não gosta dele o critica é burro. O rapaz já aí andava e se passou a ter visibilidade é porque as condições para isso se proporcionaram. Por muito que nos justifiquemos com a pobreza do que nos é oferecido, cabe a cada um seleccionar o que come. Se agora estão chateados por terem de o engolir, a "culpa" é do público, não é dele. Inchem!
Quanto mais o tipo de figuras do show biz como o Conan sente necessidade de justificar a sua obra centrando as atenções naquilo que eles próprios são, menos importante é o que produzem. Se a obra vale por si, o seu criador não precisa de a explicar nem desviar constantemente o foco para o seu eu. Senão é só um produto, um produto composto de vários ingredientes, todos importantes para manter a coesão. Façam a seguinte experiência: a imagem do rapaz é o que é mas se a tirarem da equação o que é que fica? Ooops, pois é, a música não vale nada. Façam outra experiência: tirem ou o açúcar, ou a cor, ou o gás, ou a cafeína, ou o design da Coca-Cola. São capazes de jurar que seriam doidos pelo sabor da noz de cola? A minha questão com o Conan é só uma: isto é um produto que não aprecio, de resto não tenho nada contra a pessoa ou o que faz.
Lembram-se do produto dos irmãos Sobral que esteve no mesmo mercado competitivo? Eu relembro: uma composição inspiradíssima, um arranjo competentíssimo, uma interpretação adequada, independentemente de se gostar ou não das pessoas, do estilo ou da forma, cheira a bom, eleva o espírito. É um modelo que inspira os outros a copiar, a reproduzir, e nesta perspectiva, mesmo sendo só um único produto musical descontextualizado duma obra, chega a ser uma peça de arte. Por isso nesse ano me interessei pelo Festival, o que nunca tinha acontecido antes nem depois. O sucesso da relação entre o Conan Osíris e o público alienado é uma alegoria do dito popular "com ferro matas, com ferro morrerás". O público foi sufocando dentro de si a criatividade e o pensamento crítico que qualquer humano tem, o Conan aparece como um algoz misericordioso que vem acabar com a agonia e ceifar de vez essas coisas. E finalmente para vos provar que não tenho nada contra o rapaz vou-vos contar a minha atitude em relação ao Eurofestival. No ano do Sobral ouvi as primeiras três "canções", aborreci-me e a seguir baixei o som até ele chegar; ouvi-o até ao fim e depois voltei a tirar o som às seguintes. Após o inferno que deve ter sido o desfile musical fiquei com atenção às votações confiante de que ganharia. Lembro-me que em 2019 não ouvi nenhum concorrente, muito menos o Conan, ahahahah. Quando se chegou às votações fiquei atento, confiante de que ganharia. Ganhou! O meu coração ficou na mesma mas o meu cérebro ficou feliz. Afinal o Conan também conseguiu aplicar o mesmo princípio na Europa: com ferro matas, com ferro morrerás. Parabéns. Nesta e noutras actividades Portugal percebeu o caminho para vingar na lógica de mercado

























